Quando nasceu um anjo torto, desses que vivem em campo, Labruna decidiu ser River Plate pelo resto da vida. Espiado por homens, mulheres e crianças, a correr atrás da bola, ajudou a fazer mais vermelhas as tardes na Argentina. A ‘banda roja’ em seu peito, afinal, estava marcada na pele e corria por seu sangue como não ocorreu com nenhum outro. Seja à gauche, pelo lado esquerdo, ou à beira do campo, é impossível conceber o clube de Núñez sem o talentoso atacante. ‘El Feo’, de sorriso bruto, mas gestos refinados que, assim, embelezava os olhos de quem ia ao Monumental assisti-lo. Entre sua estreia como profissional em 1939 e a última partida como técnico em 1981, foram mais de 40 anos honrando o seu amor no mais alto nível. A diferentes gerações, não havia como imaginar as vitórias dos millonarios sem aquele homem – porque, afinal, sem ele o time vivera um amargo jejum.

Mesmo depois de sua morte, Labruna continua celebrado ao final de cada mês de setembro. Por lá, a data de seu nascimento virou também o “Dia do Torcedor”. Nesta sexta, com uma alegria especial: completam-se 100 anos de Ángel Labruna, aquele que é considerado por muitos, mais do que o maior ídolo do River Plate, a própria encarnação do clube. Um dos melhores jogadores que a Argentina já viu.

Angelito nasceu em 1918, filho de Amalia e Angelo, um imigrante italiano que trabalhava como relojoeiro em Buenos Aires. A duas quadras de seu pequeno negócio, no distrito de Recoleta, ficava o Estádio Alvear y Tagle, antiga casa do River Plate inaugurada em 1923 e utilizada até 1938. Angelo se tornou o sócio de número 580 do clube. O mesmo seria com o filho, ganhando sua carteirinha logo na infância. Mais do que torcer pelo time da faixa vermelha no peito, Ángel passou a praticar todos os esportes possíveis nas dependências millionarias, principalmente do basquete. Mas não ainda do futebol, diante das reticências de seu pai, que queria torná-lo relojoeiro.

Assim, o talento de Ángel Labruna seria moldado a partir das ruas, jogando no bairro. O próprio pai aceitaria a ideia pouco depois e se tornou dirigente do pequenino Barrio Parque, onde o rebento atuava. Sua qualidade era evidente e levou o River Plate a crescer seus olhos sobre o menino, ingressando na base aos 13 anos. Por lá, ainda conciliava a bola de capotão com a laranja, dos campos às quadras. E fazia do clube a sua vida.

Angelito se tornaria uma esperança para o futuro dos millonarios. Certa feita, encontrou-se com o artilheiro Bernabé Ferreyra, grande ídolo do River Plate naqueles anos 1930, e pediu o autógrafo em uma foto. “Para o craque do futuro Angelito Labruna. Com afeto, Bernabé”, era a mensagem. A imagem seria enquadrada e ficaria pendurada orgulhosamente na parede da relojoaria da família. Ainda nas categorias de base, Labruna ganhou seu primeiro salário no futebol, em uma época na qual precisou se decidir em qual modalidade seguiria. Até pensou que, se conseguisse um emprego, permaneceria nas quadras. Para sua sorte, a falta de oportunidades o manteve nos gramados. Depois, passaria a usar as próprias chuteiras de Bernabé, em presente abençoado por seu inspirador.

Labruna fez suas primeiras partidas pelo time principal do River Plate em 1937, disputando alguns amistosos. Contudo, sua eclosão aconteceu apenas em outubro de 1939, já aos 21 anos, quando disputou seu primeiro jogo pelo Campeonato Argentino. Havia um motim de jogadores em Núñez, depois que a diretoria resolveu punir José Manuel Moreno “por falta de empenho” e os demais companheiros se solidarizaram com o craque. Diante do cenário, vários garotos tiveram que segurar a bronca e defender a primeira equipe. ‘El Feo’ não só estreou, como logo passou a acumular os primeiros gols e até decidiu um clássico contra o Boca Juniors. Vestia a camisa 10, que era de Moreno. Maravilhou tanto que ficou de vez.

Autor de sete gols naquele Campeonato Argentino de 1939, no qual o River Plate ainda foi vice-campeão, Labruna não deixou mais a equipe titular – e, mais impactante, provocou a mudança de posição de Moreno para o lado direito. Os millonarios começavam a formar aquele que até hoje continua reconhecido como seu maior esquadrão: La Máquina. E a linha de frente tratava de eternizar o timaço. Enquanto Juan Carlos Múñoz e Felix Loustau caíam pelas pontas no quinteto ofensivo, até ficava difícil dizer quem era o melhor no trio central. Adolfo Pedernera se transformou de ponta em centroavante de rara qualidade, dono de uma visão de jogo privilegiada que fazia o carrossel girar e aproveitava a sede de gols dos companheiros. Moreno, por sua vez, tinha uma potência descomunal, que se tornava ainda mais letal com sua habilidade. Já Labruna fazia de tudo um pouco, e amava especialmente balançar as redes.

A coordenação privilegiada com ambas as pernas tornava o atacante, ambidestro, sempre um incômodo. Além disso, Labruna não se cansava. Aparecia para criar jogadas, partia para cima dos marcadores, se movimentava muito bem para explorar os espaços. Tinha ótima qualidade técnica. E, sua principal marca, a raça de quem não dava lance algum por perdido. Desta maneira, não foram poucos os tentos que anotou pelo River Plate. Diziam que, quando “agachaba la joroba” (entrava arqueado na área, de uma maneira característica), as redes balançariam fatalmente. Em seu ritual costumeiro na entrada em campo, pulava a linha lateral, pisava primeiro com a direita e saía trotando rumo à área, onde logo metia uma bola nas redes. Um prenúncio que já servia para arrancar aplausos da multidão.

“Futebol só é fácil para quem nasceu sabendo. É saber jogar, ter um treinador para orientar, corrigir as falhas. É usar a cabeça quando se tem a bola e as pernas quando não se tem. É procurar chegar o máximo de vezes possível ao gol adversário. Se chego lá 20 vezes, posso fazer cinco gols, com sorte. Se só chego seis vezes, vou marcar, no máximo, um gol”, definiu, em 1978, durante entrevista à Placar.

Seriam dez gols de Labruna na conquista do Campeonato Argentino em 1941, incluindo aí um na inigualável goleada por 5 a 1 sobre o Boca Juniors, e mais 15 no bicampeonato do ano seguinte. Um dos três artilheiros em 1943, seus 23 gols não seriam suficientes para que os millonarios superassem os xeneizes no topo da tabela e buscassem o tri. Anotou mais 25 em 1944, vice na tabela e na tábua de goleadores. Já em 1945, voltaria a ser artilheiro e campeão, com 25 tentos na consagração de La Máquina.

A metade final da década de 1940 marcou um período de transição ao River Plate. Enquanto alguns protagonistas do ataque perdiam espaço, Labruna também enfrentou o seu drama particular. Por conta de uma hepatite medicamentosa, ficou afastado ao longo de seis meses e correu sérios riscos de morte. Ainda assim, voltou a tempo de ser campeão mais uma vez em 1947, de decidir mais um clássico contra o Boca Juniors e de contribuir com 16 gols. O artilheiro da equipe, de qualquer forma, era um jovem que despontava naquele momento, um tal de Alfredo Di Stéfano.

Concomitantemente, Labruna participava de alguns sucessos da seleção argentina. Em 1946, conquistou a Copa América, anotando cinco gols na campanha. Era acompanhado por Pedernera e Loustau no quinteto ofensivo, que ainda contava com Norberto Méndez e Vicente de La Mata. Todavia, entre a opção por se casar em 1945 e a hepatite em 1947, perdeu a chance de se tornar ainda mais vitorioso com a geração que era candidatíssima a conquistar a Copa do Mundo, não fosse a Segunda Guerra Mundial.

De certa maneira, o River Plate pagaria por seu sucesso, ao perder jogadores para o Eldorado Colombiano. Mesmo com propostas, Labruna preferiu seguir vestindo a camisa que era a sua paixão. E, da mesma maneira, a recusa da seleção a disputar a Copa de 1950 também o prejudicou, sem poder se exibir no maior dos palcos em seu principal momento. Precisou perseverar com o River Plate para recuperar a hegemonia no Campeonato Argentino a partir de 1952. Faturou o bicampeonato em 1953. Nesta época, recebeu também uma proposta da Itália, com “dois milhões de pesos na porta de sua casa” e terminou por recusar. Já entre 1955 e 1957, os millonarios emendaram o tri. Suas marcas já não eram mais tão brutais, mas às vésperas de completar 40 anos, chegava aos dois dígitos de gols. Eram os tempos de La Maquinita, que também tinha o goleiro Amadeo Carrizo entre as estrelas e via a ascensão de Omar Sívori.

Com a seleção ainda ausente no Mundial de 1954, o ano da redenção aconteceu em 1955, conquistando mais uma edição da Copa América – e assinalou três gols no massacre por 6 a 1 sobre o Uruguai. Já a chance de disputar uma Copa do Mundo aconteceu em 1958, aos 39 anos. Labruna foi titular em duas partidas. Uma delas, a vexatória goleada por 6 a 1 contra a Tchecoslováquia. Sua carreira com a Albiceleste terminou menor do que poderia ter sido, considerando todo o seu talento. Mas rendeu dois títulos continentais e 17 gols nas 37 partidas disputadas.

O fim da história de Labruna no River Plate também não seria tão feliz. Acima dos quarenta anos, conviveu com as secas e as campanhas modestas do clube. Teve dificuldades em admitir que aquele era o seu final. Justamente no Natal de 1959, recebeu a notícia da diretoria que não seguiria mais em Núñez. Ganhou um jogo no Monumental em sua homenagem ao menos para se despedir com dignidade. Contudo, diferentemente do que poderia se imaginar, El Feo não seria homem de uma camisa só. Teve rápidas passagens ainda por Rampla Juniors, Rangers de Talca e Platense até se aposentar em 1961. Apenas um breve hiato até seu recomeço no futebol.

Tão vitoriosa quanto a carreira de jogador foi a trajetória de Labruna como técnico. Com dificuldades financeiras, muito por conta do vício em corridas de cavalos, o trabalho como treinador até poderia parecer uma conveniência, mas se tornou uma vocação. “A verdade é que me disse: sapateiro com teus sapatos. E me meti para sempre no futebol”, analisava, depois de fracassar em vários negócios comerciais que abriu depois de pendurar as chuteiras.

Como técnico, Labruna era um entusiasta do jogo ofensivo, mas sem rebuscamentos para isso. Tinha como grande característica seu olhar clínico para as escalações e a boa leitura de jogo. Além do mais, seu tempo nos gramados permitia que dominasse os conceitos e soubesse transmitir fielmente as ideias aos seus comandados. “Dá para ver que o River não realiza jogadas de laboratório. Primeiro, porque eu gosto de futebol. Segundo, porque eu não posso mecanizar um criador. Não posso tirar esse sabor que eles têm”, apontava. “Confesso que não entendo absolutamente nada de muitas coisas. Mas no futebol, no meu, digo que não há ninguém que sabe mais do que eu”.

A partir da segunda metade dos anos 1960, Angelito passou a rodar por clubes menores, chegando a simultaneamente conquistar a segundona com o Defensores de Belgrano e a levar o Platense às semifinais na primeira divisão. Na virada da década, teve uma passagem frustrada pelo River, marcada também por uma tragédia pessoal: a morte do filho Ángel Daniel, que despontava na base millonaria, vítima de uma leucemia. Já a volta por cima aconteceu com o primeiro grande título, em 1971, quando conquistou o Campeonato Nacional à frente do Rosario Central. A decisão de adiantar em campo Aldo Pedro Poy deu frutos: o atacante anotou a histórica ‘palomita’, que eternizou a façanha e pela primeira vez levou a taça para o interior.

“Atualmente vivo uma sensação muito especial. Sinto que há uma força superior à humana que me ajuda. Não posso chamá-la de superstição, mas é algo em que creio firmemente, com toda a minha alma. Enquanto vejo as partidas, acaricio este anel de ouro, que era de Danielito… E falo com ele. Sei que ele está jogando do meu lado e ao lado dos meus rapazes. Sei que me ajuda a ganhar. Faz dois anos que falo sempre com ele e sinto que sempre está comigo”, afirmou na época, em entrevista à revista El Gráfico.

Em seus diferentes trabalhos, Labruna não escondia que a paixão pelos millonarios permanecia – falando sobre o velho clube sem pudores, provocando jogadores e perguntando os resultados depois de seus jogos. Em 1975, enfim, ‘El Feo’ reiniciaria sua senda de vitórias no Monumental. Já tinham se passado 18 anos desde o último título nacional, aquele de 1957, quando o veterano levou o River Plate de volta ao topo no Torneio Metropolitano de 1975. Faturou também o Nacional de 1975, o Metropolitano de 1977, o Metropolitano de 1979, o Nacional de 1979 e o Metropolitano de 1980 – estes últimos, em tricampeonato que não ocorria desde 1957.

Labruna ajudou vários ídolos millonarios no período (Norberto Alonso, Ubaldo Fillol, Leopoldo Luque e Daniel Passarella, para ficar em alguns), assim como treinou seu próprio filho, Omar Labruna, a quem via como muito inteligente, mas inferior ao talento que Daniel apresentava. Já o adeus definitivo no clube aconteceu em 1981, com a eliminação na Copa Libertadores, a lacuna em sua história em Núñez – especialmente depois da derrota para o Cruzeiro na final de 1976. Em protesto pela saída do velho ídolo, os torcedores passaram a deixar o Monumental às moscas, registrando públicos abaixo dos mil presentes, até que as feridas se cicatrizassem. De tão passional, Angelito chegou a cogitar o suicídio, magoado com os dirigentes.

Labruna trabalharia ainda no Talleres e no Argentinos Juniors, o último clube de sua vida. Era treinador do Bicho quando precisou passar por cirurgia, por um problema na vesícula. A operação foi um sucesso e, durante sua recuperação, o veterano recebeu a visita de Fillol, com quem saiu para caminhar nos jardins do sanatório. Sofreu um infarto fulminante e faleceu nos braços do goleiro, às vésperas de completar 65 anos. Seria sepultado com todas as honras, depois do velório realizado dentro do próprio Monumental. E quando, três anos depois, os millonarios enfim conquistaram sua primeira Libertadores, o nome de Angelito foi lembrado nos festejos.

Hoje, 28 de setembro, é o Dia do Torcedor no River Plate. O clube costuma realizar cerimônias para celebrar a data que, de certa forma, honram também a Labruna. E relembram o homem que tanto contribuiu para que os millonarios arrebatassem as massas. Conquistou nove títulos do Campeonato Argentino em 20 anos como jogador profissional, além de taças internacionais menores e grandes vitórias em excursões que acabam apenas nas lembranças. Já como treinador, seriam mais seis títulos nacionais. Permanece como maior artilheiro da banda roja, com 542 gols, 317 oficiais e 293 só pelo Campeonato Argentino. Também segue como o maior goleador do clássico contra o Boca Juniors, autor de 22 gols, 16 na liga. Aliás, nutria um prazer em especial em balançar as redes xeneizes, um gosto atrevido de provocar os rivais a cada oportunidade. “Eu sempre vivi do Boca. Graças a eles, fiquei famoso”, era uma de suas frases favoritas. Coisa de torcedor. Vivia o futebol ao extremo, sempre, e por isso viveu tanto em campo. Ainda vive.

Com mais da metade de sua vida dentro do River Plate, é mais fácil dizer o que Labruna não foi no clube, porque fez de tudo um pouco. O prodígio sonhador, o craque implacável, o treinador experiente. O filho e também o pai. O personagem que rendeu tantas anedotas. O torcedor inveterado. E, sobretudo, a poesia sublime do que é ser River. Em 1984, o escritor Rodolfo Garavagno publicou um poema dedicado a Labruna. Abaixo, reproduzimos o texto original, um resumo do que é a lenda centenária:

Un picado en el cielo

En una cancha improvisada entre las nubes
con tribunas habitadas por estrellas
NUESTRO SEÑOR invitó a jugar al fútbol
a los que fueron famosos en la tierra.

“Quien elige?” preguntó la muchachada
y designaron a Mouriño y a Moreno
para que armaran dos buenos rejuntados
con estilo y alma de potrero.

Eliseo fue buscando a los de Boca
mientras el Charro a los de River elegía.
River-Boca, Boca-River ¡en el cielo!
¡El clásico mayor de la Argentina!

Los xeneizes ya estaban preparados,
pero el Charro, preocupado, daba vueltas
buscando un crack definidor y habilidoso
para poder completar el ala izquierda.

Cuando nadie parecía conformarle
una barra de cometas en la luna,
entonando un estribillo de tablones
le cantaron: “Ese puesto es de Labruna”.

“Es verdad!” exclamó el Charro entusiasmado
“con el Feo esto sería una milonga…
Traigamelo, SEÑOR, nos hace falta
¡total el mundo ya tiene a Maradona!”.

EL SEÑOR que todo sabe y todo puede
envió a un ángel a la tierra con urgencia,
y Labruna que charlaba con “El Pato”
escuchó el llamado en su conciencia.

“Un picado en el cielo..contra Boca?…
¡Por supuesto, claro que lo juego! “
Y así fue que se marchó detrás del ángel
nada más que por ganarle a los bosteros!

Angelito querido ¡te saludo!
aunque soy y seré siempre hincha de Boca,
porque te veo colgado de una nube
pintarrajeando una oblícua banda roja.

Rodolfo Garavagno

Entre as homenagens ao centenário de Labruna, recomendo como leitura complementar também o texto do amigo Caio Brandão, no Futebol Portenho.