Antes de começar, vamos colocar todas as cartas na mesa, que é bom e justo, certo?

Como alguns dos nossos leitores sabem, a Trivela publicou, entre 2012 e 2013, a Revista ESPN brasileira. Desde o começo da revista, pela editora Spring, fomos sócios do projeto, e eu fui Diretor de Redação da revista do número 1 até o último número. Essa é a única relação profissional que tenho com a ESPN: nunca fui funcionário da empresa, nunca trabalhei na, e nem para, a ESPN, a revista era um licenciamento de marca e sempre foi assim tratada pela empresa.

Tenho também alguns amigos no canal. Nenhum deles, aliás, fiz no período de pouco menos de três anos em que a revista existiu. Durante esse período praticamente só fiz inimigos, começando por José Trajano, que me proibiu de entrar no canal depois que o critiquei (com indevida acidez) no Twitter e passando por todos os numerosos puxa-sacos que ele alimentou e promoveu durante seus anos como manda-chuva. Nunca tive interesse em fazer amigos e influenciar pessoas ali, meu interesse era que a ESPN tratasse a revista como um produto da casa, o que nunca consegui.

Quando fiquei sabendo das demissões na ESPN fui ao Twitter e disse algumas coisas que pensava. Importante: não tinha como não tenho agora, nenhuma informação que todos não tenham. Não conversei com nenhum amigo que tem qualquer informação confidencial ou privilegiada justamente porque meus amigos são meus amigos porque sabem que podem confiar em mim e eu não posso ter alguma informação que não possa revelar. O que eu disse então, e o que vou dizer agora, se baseia apenas no que leio a respeito nos veículos que confio. Meu único interesse na ESPN é como espectador e como jornalista. Não tenho qualquer outro “lado” na discussão.

Isto tudo dito, vamos lá: tem algo de muito estranho acontecendo na rua Piracicaba e isso é importante para os acionistas da Disney tanto quanto é importante para o futuro do jornalismo esportivo de televisão no Brasil. Há uma chance que não é pequena de que a ESPN vire a Fox e isso não é apenas ruim: é desastroso. O ponto de vista editorial é tão evidente que não preciso nem perder muito tempo aqui. A diferença é entre jornalismo e show, informação x polêmica. O problema não é que exista espaço para o não-jornalismo, afinal, há audiência pra isso. O problema é que faça isso em um espaço em que se espera jornalismo.

Se comecei o texto com uma pancada merecida em José Trajano, coloquemos aqui os pingos nos “i”s: José Trajano é o pai, a alma da ESPN que ainda vive no nosso imaginário. Defeitos à parte, foi sua visão de jornalismo que moldou o canal em seus anos de formação e que influenciou toda uma geração de jornalistas esportivos a serem, primeiro de tudo, jornalistas. Antes da ESPN de Trajano havia o clubismo e o globismo. Depois dele, ainda que com numerosos problemas, passamos a ter uma base para construir um verdadeiro jornalismo esportivo.

A ESPN nasceu e cresceu com base nisso e nos melhores eventos esportivos. Sim, piorou muito nos últimos tempos, um pouco por culpa do modelo de gestão de pessoas do próprio Trajano, que privilegiava os leais aos competentes; um pouco pelos erros de avaliação da gestão seguinte, que apostou em debates para preencher a grade vazia; e muito pela perda dos direitos de competições importantes como a Champions League.

Eu não gosto do que a ESPN se tornou recentemente e não faço segredo disso. Acho que uma empresa que emprega o altíssimo nível de profissionais que a ESPN emprega tem a obrigação de fazer mais do que tem feito. Não é defensável a encheção de linguiça que dominou a grade recentemente.

A dona da ESPN é a Disney, que também é dona do Fox Sports no Brasil – embora esteja obrigada a vendê-lo. A ESPN nos Estados Unidos não é em nada parecida com o Fox Sports. A ESPN em nenhum lugar do mundo é parecida. Tentar fazer da ESPN Brasil uma cópia da Fox Sports não é só um erro jornalístico, é um erro de produto. Não dá pra concorrer em show de variedades com quem nasceu praticando o show de variedades.

No circo, se você é o trapezista não pode querer fazer o papel do domador, mesmo que o domador tenha mais popularidade e audiência, por um motivo óbvio: o espaço do domador já está tomado pelo próprio domador – e porque, ainda que o domador possa ser o preferido, sempre haverá espaço para o trapezista.

Respeite a história da ESPN Brasil, Disney. ESPN não é Fox.

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