Entre os mais de 30 títulos nacionais da Juventus, algumas edições da Serie A são especialmente marcantes. E o Scudetto de 1957/58 costuma ser um dos mais exaltados pelos bianconeri. Há algo bastante simbólico naquela conquista, que permitiu à Velha Senhora bordar pela primeira vez uma estrela na camisa, por sua décima taça na liga. Ainda assim, a importância daquela temporada no imaginário dos torcedores vai além. Aquele foi o primeiro ano de uma das melhores composições ofensivas já vistas na Itália, encabeçada Giampiero Boniperti, Omar Sívori e John Charles. O chamado Trio Mágico, que também renderia um bicampeonato nacional ao clube durante as três temporadas seguintes, até que começasse a se desmontar.

Dos três ases, Boniperti foi o que chegou primeiro à Juve. O ídolo italiano assinou o seu primeiro contrato com a Velha Senhora quando tinha 16 anos e se transformou em um emblema bianconero, conduzindo a reconstrução da equipe após a Segunda Guerra Mundial. Il Marisa empilhou gols a partir da metade final da década de 1940 e, após o desastre de Superga, ajudou Turim a manter seu futebol forte. Em 1950, os juventinos encerraram um jejum de 11 anos sem conquistar a liga, repetindo a dose em 1952. Todavia, teriam dificuldades para competir com Milan, Internazionale e Fiorentina na sequência dos anos 1950. E a impressão era de declínio, com o time ocupando o modestíssimo nono lugar em 1955/56 e 1956/57.

A reviravolta da Juventus acontece a partir de então. Em 1957, a diretoria decide investir alto em reforços. Boniperti, capitão da equipe, seguiria como a principal referência. No entanto, a Velha Senhora buscaria novas peças para ajudá-lo na linha de frente. E não faltava dinheiro para que os bianconeri ganhassem impulso, em tempos nos quais os irmãos Gianni e Umberto Agnelli, donos da Fiat, faziam refletir também no clube o “milagre econômico”, em meio à recuperação italiana após a recessão decorrente da Segunda Guerra.

Realizado entre março e abril de 1957, o Campeonato Sul-Americano serviu como um grande balcão de negócios. O torneio de seleções estava repleto de representantes de clubes europeus, em um momento no qual o mercado entre os dois continentes estava aquecido. E com a grande campanha da Argentina, seria natural que os destaques do time treinado por Guillermo Stábile atraíssem interesse. A linha de frente dos célebres “Carasucias”, repleta de garotos, logo rendeu polpudos contratos. Pois foi a Juventus quem quebrou a banca.

Segundo o próprio presidente Umberto Agnelli (então um imberbe rapaz de vinte e poucos anos, alçado ao comando por sua posição de herdeiro na Fiat, mas logo se mostrando um habilíssimo dirigente), a Velha Senhora estava de olho em Sívori já fazia tempo. O talento do garoto do River Plate era estrondoso, unindo uma habilidade irresistível com a perna esquerda ao enorme poder de decisão. Bicampeão argentino com os millonarios em 1955 e 1956, o baixinho de 21 anos ofereceu no Sul-Americano a certeza que os italianos queriam. Então, o clube pagou US$93 mil por sua contratação, um valor que pode parecer irrisório hoje em dia, mas representou a maior transferência já feita até então no futebol mundial. Para se ter uma ideia, com o valor, o River Plate terminou de construir as arquibancadas do Monumental.

Ao mesmo tempo, a Juventus também prestava atenção naquilo que ocorria no Reino Unido. John Charles devastou defesas com o Leeds United a partir de 1952/53. Seu sucesso era limitado à segunda divisão do Campeonato Inglês, mas a conquista do acesso em 1956 levou agremiações como Manchester United e Arsenal a se aproximarem do centroavante. Ainda assim, os Whites seguraram seu destaque para o retorno à elite e viram a decisão se provar acertadíssima. O gigante simplesmente arrebentou na primeira divisão: anotou 38 gols em 40 partidas, que o alçaram ao posto de artilheiro da liga em 1956/57 e renderam o honroso oitavo lugar ao seu clube. Além disso, também se tornava protagonista na seleção de Gales, a ponto de assumir a braçadeira de capitão aos 25 anos.

Alto, goleador e também dono de grande destreza, John Charles virou alvo ainda maior no mercado. O próprio Real Madrid, bicampeão europeu à época, estava de olho no centroavante. E o Leeds, mais do que uma oportunidade, via uma necessidade na negociação. Em setembro de 1956, um incêndio atingiu um dos setores de Elland Road, comprometendo as finanças do clube. Por mais que a torcida tenha levantado £60 mil para as obras no estádio, isso não cobria os custos totais de £180 mil. Assim, a venda se tornou providencial. Melhor para a Juventus, que iniciara as conversas em abril de 1957, em negócio que se estendeu ao longo de três meses. O anúncio vitorioso dos bianconeri, por fim, veio em agosto. O galês seria contratado por £65 mil, dobrando o recorde de transferência mais cara do futebol britânico na época. Mais do que isso, o jogador embolsaria £10 mil em luvas e teria outras regalias, como carros da Fiat, o suficiente para convencê-lo.

Apesar de todas as cifras e do empenho da Juventus para se reforçar, restavam dúvidas sobre os novos contratados. Charles vai se adaptar ao futebol italiano? Sívori vale mesmo tudo isso? Interrogações que logo se dissiparam, quando o trio começou a funcionar. Os ases se complementavam perfeitamente, e não só pelo estilo de jogo, mas também pelas características físicas e pelo temperamento. Charles era o “Gigante Gentil”, que passou a ser louvado tanto por seus gols quanto por seu fair play. Centroavante de presença de área, complementava isso com uma ótima mobilidade e um controle de bola excepcional. O “Cabeção” Sívori aproveitava as brechas com seus dribles incisivos, seus tiros precisos, sua genialidade na criação. Era explosivo, na atitude e no jogo. Já Boniperti adaptou o seu modo de atuar. Aos 29 anos, deixou de ser o artilheiro de outros tempos para auxiliar com passes açucarados, circulando e voltando ao meio. O líder, que conduzia a sinfonia.

As novidades da Juventus, de qualquer maneira, eram mais amplas. Os Agnelli confiaram o comando técnico a Ljubisa Brocic, treinador que vinha do PSV, embora tivesse construído sua reputação com o Estrela Vermelha bicampeão iugoslavo no início da década. Havia certa fascinação pelos Bálcãs naquele momento da Serie A, após a seleção local enfiar uma goleada por 6 a 1 sobre a Itália em maio de 1957. Além disso, o elenco era extremamente jovem. Dos 13 atletas que formaram a espinha dorsal ao longo da temporada, apenas Boniperti e o meio-campista Rino Ferrario (de volta após passagens por Inter e Triestina) tinham mais de 24 anos. De resto, uma porção de garotos, que incluía bandeiras do clube, como o ponta Gino Stacchini e o futuro capitão Flavio Emoli.

Por todos estes fatores, a Juventus não era vista como favorita à Serie A. Campeã dois anos antes, a Fiorentina de Fulvio Bernardini despontava entre os times mais fortes, estrelada por Julinho Botelho. O Milan, atual dono do Scudetto, tinha Nils Liedholm e Juan Schiaffino entre suas opções, comprando depois o argentino Ernesto Grillo. Outro dos ‘Carasucias’ a aportar foi Antonio Angelillo, prodígio de 19 anos que logo se tornaria astro da Internazionale. O Bologna, além de Humberto Maschio, confiava no carrasco iugoslavo Bernard Vukas. E, um patamar abaixo, haviam outros clubes respeitáveis: Alcides Ghiggia e Dino da Costa encabeçavam a Roma; o Napoli tinha o brasileiro Luís Vinício em sua linha de frente, enquanto a referência da Lazio era Humberto Tozzi; e o Padova, com Nereo Rocco em seu comando, se aproveitara dos espólios da própria Juve, levando por empréstimo o sueco Kurt Hamrin, sem espaço após o mercado bianconero.

Na pré-temporada, a desconfiança sobre a Juventus aumentou. Em amistoso contra o Bologna, a Velha Senhora tomou uma goleada por 6 a 1. Diziam que a preocupação excessiva em reforçar o ataque poderia levar o time à ruína. No entanto, o segredo esteve no equilíbrio logo alcançado pelo técnico Brocic, especialmente pelo recuo de Boniperti, ajudando a recompor o meio-campo ao lado de Umberto Colombo e Flavio Emoli. Mais atrás, destaque também para o trabalho defensivo de Giuseppe Corradi e Bruno Garzena. E na frente, além de Charles e Sívori, havia a energia dos adolescentes Gino Stacchini e Bruno Nicolè – de 19 e 17 anos, respectivamente.

Quando a Serie A realmente começou, a Juventus sobrou, embalada pelo Trio Mágico. Os bianconeri venceram os seus seis primeiros jogos, logo disparando na liderança. A Fiorentina e o surpreendente Padova tentaram acompanhá-la até meados do primeiro turno, assim como o Napoli se manteve relativamente próximo. Contudo, uma série de 11 partidas invictas no início do returno, com nove vitórias e dois empates, permitiu que os juventinos disparassem. Nesta sequência, chegaram a anotar 4 a 1 sobre o rival Torino, bem como em Lazio e Bologna, além de vencerem também o Milan.

A partir de abril, a confirmação da conquista se tornou questão de tempo. Depois de tropeços contra Napoli (em um eletrizante 4 a 3 na Campânia) e Atalanta, a festa finalmente aconteceu em 4 de maio. O empate por 0 a 0 contra a Fiorentina no Artemio Franchi já valeu a comemoração dos piemonteses. Ao final, a Juve somou 51 pontos em 68 possíveis, terminando a campanha com oito pontos a mais que a vice-campeã Viola. Foram 23 vitórias, seis a mais do que qualquer outro adversário. Já a decepção na tabela ficou a Milan e Inter, que não passaram de posições intermediárias. Ambos acumularam apenas 32 pontos, em conjunta nona colocação.

E como era de se esperar, a Juventus também registrou o melhor ataque da Serie A. Marcou 77 gols em 34 partidas, 12 a mais que o Napoli, dono da segunda maior marca. John Charles foi o responsável por 28 tentos, artilheiro do campeonato e eleito também o melhor jogador – além de ter sido quarto colocado na Bola de Ouro de 1958. Sívori ficou na terceira posição na artilharia da liga, com 22 bolas nas redes. Já Boniperti anotou oito gols, embora sua maior contribuição estava na criação. Impressionava a maneira como os três se entendiam em campo, mesmo que existissem alguns atritos de personalidade, sobretudo entre o italiano e o argentino. A qualidade dos três craques transformou a Velha Senhora em um verdadeiro esquadrão.

Após a conquista, o presidente Umberto Agnelli teve a ideia de portar na camisa um símbolo que representasse o número títulos e, a partir da autorização da liga, a estrela dourada foi costurada no peito da Juventus, estreando em 24 de agosto de 1958. O décimo Scudetto era algo inédito no país e transformava os bianconeri nos maiores campeões italianos, superando os nove troféus do Genoa – todos faturados no período anterior à Serie A. Uma inovação que honrava o passado da Velha Senhora, sobretudo o pentacampeonato dos anos 1930, e logo se tornaria uma marca aos demais clubes do Calcio. Além do mais, o sucesso do Trio Mágico impactou na própria popularidade da Velha Senhora. Em meio à recuperação econômica da Itália e do fluxo migracional de sulistas ao norte industrializado, o deslumbramento provocado pelo timaço contribuiu para expandir o número de juventinos pelo território nacional. Um sucesso que continuaria nas temporadas seguintes.

O Trio Mágico se manteve ativo até 1960/61, quando Boniperti se aposentou. Neste intervalo, a Juventus conquistou o bicampeonato da Copa da Itália e, depois da quarta colocação na Serie A 1958/59, também o bicampeonato nacional nos anos posteriores. Os lamentos ficaram apenas para as fracas campanhas continentais, especialmente pela goleada por 7 a 0 sofrida contra o Wiener na primeira fase da Copa dos Campeões de 1958/59. John Charles deixou o clube em 1962, retornando ao Leeds. Já Sívori ficaria até 1965, com tempo de faturar a Bola de Ouro em 1961 e mais uma Copa da Itália em seu último ano. Neste momento, o legado da trinca de ases já estava na história.