Exemplo de lealdade, disciplina e regularidade no futebol carioca e brasileiro da década de 1940, Jayme de Almeida é nome lendário no Flamengo, clube do qual vivenciou o dia-a-dia por 20 anos e ao qual serviu nas mais diversas funções. O médio-esquerdo que teria completado 100 anos no último sábado tem um currículo e tanto: foi titular do time do primeiro tri estadual rubro-negro entre 1942 e 1944, sendo capitão nas duas últimas conquistas. Exerceu o mesmo posto na seleção carioca e se colocou como nome de destaque na seleção brasileira. Penduradas as chuteiras, teve ainda participação decisiva no surgimento da melhor geração da história do futebol peruano. Um gigante cuja trajetória – desconhecida para muitos – merece ser resgatada.

Jayme de Almeida nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro, mas se mudou ainda muito novo com a família para Belo Horizonte. Filho de um ferroviário logo aposentado e de uma dona de casa, viu a família crescer até o 13º rebento. Destes, só dois (além dele) seguiram carreira. Bráulio foi goleiro no futebol mineiro e Tião, bem mais moço, esteve pelo Flamengo nos anos 1950. Mas entre as mulheres, destacou-se Lélia – a antropóloga e intelectual de referência internacional nas questões feministas e afro-brasileiras Lélia González.

O próprio Jayme era um personagem diferenciado entre seus pares. O futebol entrou em sua vida por acaso. Quando garoto, admirava o abolicionista José do Patrocínio. Numa era em que a maioria dos atletas mal se preparava para a vida após a bola, Jayme conciliou o auge de sua carreira no Flamengo com a graduação em Comércio numa instituição carioca. E era um dos raros jogadores a manter boas relações com o temperamental botafoguense Heleno de Freitas, com quem compartilhava o gosto pela leitura de autores como Dostoiévski.

Mario Filho, um dos pais fundadores da crônica esportiva brasileira, dedica algumas páginas de seu célebre livro “O Negro no Futebol Brasileiro” para falar de Jayme de Almeida. Na obra, o autor relembra o jogador como “incapaz de dar um pontapé”, assemelhando-se a “um Gandhi jogando futebol”. “Quando se queria citar um jogador modelo”, escreve Mario, “só um nome acudia a todas as bocas: Jayme de Almeida”. Sintetizando todas as simbologias que utilizara, o jornalista acrescenta: “Tudo nele rescendia à limpeza, à bondade, à lealdade”.

Outro popular cronista do futebol carioca daquele período, Vargas Netto mencionaria Jayme em uma crônica publicada em sua coluna no Jornal dos Sports em novembro de 1947: “No football eu lhe poderei citar o preto Jayme, do Flamengo. É um homem que tem finura inata. Já me haviam dito, e eu tive ocasião de observar. Muito branco precisa aprender com ele e não sei se conseguirá! Jayme possui o senso da responsabilidade e a compreensão para todos os detalhes. É um homem de alma limpa. Esse é o resumo”, exaltou o jornalista gaúcho.

O início no futebol mineiro

Sua carreira profissional teve início em Belo Horizonte, como centromédio no extinto Sete de Setembro, em 1938. No ano seguinte, chegou a ser cobiçado pelo Vasco, mas recusou a oferta por não se considerar apto a atuar num grande centro. Acabaria se transferindo para o Atlético no fim de 1939. No Galo, formaria a linha média com os “halfs” laterais Cafifa e Bigode e chegaria a disputar os jogos que marcaram a inauguração do Pacaembu, em abril de 1940. Não demoraria a atrair as atenções de Corinthians e São Paulo, mas não houve acerto.

Ainda naquele ano, seria convocado pela Seleção Brasileira do técnico Ademar Pimenta para os treinos visando ao Campeonato Sul-Americano na Bolívia, que acabaria cancelado. Em setembro, viria ao Rio de Janeiro para disputar um jogo em homenagem a Julio Castillo, atacante argentino do Flamengo recém-falecido. Foi quando, na busca por um substituto a curto ou mesmo médio prazo para o veterano centromédio Carlos Volante (também argentino), o clube rubro-negro começou a observar o jogador, até decidir que ele seria o substituto ideal.

Em março de 1941, o Flamengo manifestou interesse na contratação de Jayme. O Atlético botou preço: 20 contos de réis, soma expressiva para a época e que constava na cláusula de liberação do jogador. “Está certo”, respondeu o Flamengo, que logo remeteu o cheque. Porém, qual não foi a surpresa dos dirigentes rubro-negros quando chegou uma comunicação do Banco Comércio e Indústria notificando que em Belo Horizonte o clube mineiro se recusara a aceitar o depósito, alegando não ter “nenhuma negociação” em andamento com os cariocas.

Em seu canto, Jayme olhou para sua situação: apesar do passe valorizado, ganhava pouco no Galo (250 mil réis mensais) e seus salários estavam em atraso há vários meses. Pensou em sua família: com o pai aposentado, ele se tornara o arrimo de 13 irmãos e dependia de seus ganhos com o futebol. Além de tudo, era torcedor do Flamengo e, agora sim, sentia-se pronto para tentar a sorte na grande vitrine do então Distrito Federal – a maior do futebol brasileiro na época. Agir de modo intempestivo não era de seu feitio. Mas ele assim o fez.

O médio deixou para trás o Atlético – cujo presidente, Cassildo Quintino dos Santos, favorável à negociação e sob pressão da diretoria, apresentara sua renúncia em meio ao imbróglio – e tomou sozinho um trem para o Rio. O estardalhaço que se seguiu na imprensa não tinha nada a ver com o jeito calmo e discreto do jogador. Até vir à tona o motivo pelo qual os mineiros não queriam aceitar o depósito: um antigo credor do Galo havia penhorado o dinheiro, o qual só não receberia caso o clube recusasse o cheque. Fim do impasse, negociação selada.

Na Gávea, reinventando a posição

Contratado no fim de março, Jayme impressionou desde sua chegada à Gávea, ditando o ritmo dos treinos mesmo atuando entre os reservas. E, após alguns amistosos, já era o dono da posição quando da estreia do time no Campeonato Carioca de 1941, desbancando o antigo titular Volante na posição de centromédio. Destaque do jogo e autor de um gol nos 5 a 2 sobre o Madureira, em 4 de maio, ele seguiu na equipe pelas duas próximas partidas. O que ninguém esperava, porém, era que Volante voltasse à velha forma e recuperasse a posição.

Jayme foi então para a reserva, mas após um breve retorno atuando na linha de frente como meia-esquerda, voltaria de vez ao time em outra posição, a de médio-esquerdo, no lugar de outro veterano, Artigas. Nesta posição, ele disputaria os três últimos jogos da campanha, incluindo o célebre Fla-Flu das “bolas na Lagoa”, que definiu o título em favor dos tricolores. Líder durante boa parte do certame, o Flamengo perderia o fôlego no terço final e seria superado. Mas o novo titular impressionara de tal forma que se tornaria intocável no posto.

Aqui cabe um parêntese para esclarecer de vez a posição em que Jayme atuava. Ao contrário do que muitos já escreveram, ele não era lateral-esquerdo. Pouco antes de sua chegada, o técnico rubro-negro Flávio Costa já havia começado a implementar no time a chamada “diagonal”, sua versão adaptada do sistema WM, já hegemônico na Europa, mas até então pouco utilizado no Brasil, onde ainda vigorava o obsoleto esquema da “pirâmide” – no qual, de fato, os médios pelos lados tinham funções e posicionamentos semelhantes às dos laterais modernos.

Já a diagonal pegava o desenho do WM (numericamente, um 3-2-2-3) e transformava o quadrado composto pelos dois médios e dois meias numa espécie de losango ligeiramente torto. Nesse formato, Jayme era o vértice pela esquerda, o apoiador que marcava o armador adversário e, vez por outra, somava-se ao quinteto ofensivo como um sexto atacante. Algo como um atual segundo homem de meio-campo, elo entre os setores defensivo e ofensivo, responsável pela perfeita fluência do jogo. Função a qual ele executava com elegância, sobriedade e eficiência.

O “Scratchman” levanta os seus primeiros títulos

Ainda que entrasse e saísse do time em vários momentos ao longo da campanha no Carioca, o jovem de 21 anos exibira um futebol tão destacado que logo chegaria à Seleção Brasileira antes mesmo de ter passado pelo “scratch” carioca. Convocado pelo técnico Ademar Pimenta – o mesmo que dirigira o Brasil na Copa do Mundo de 1938 – para o Sul-Americano em Montevidéu, inicialmente para a reserva do corintiano Brandão, centromédio e capitão do time, ele logo teria chance como titular na goleada de 5 a 1 sobre o Equador, em 31 de janeiro.

Cinco dias depois, no empate em 1 a 1 com o Paraguai, entraria aos dez minutos de jogo e teria boa atuação: “Não estranhou um só momento. Sempre desembaraçado, sempre com um jogo de boa fatura. Deu assim uma robusta prova de sua capacidade técnica”, avaliou o Jornal dos Sports. No geral, seu desempenho seria aprovado. Entre o primeiro e o último jogo de Jayme pelo Brasil a Seleção faria 20 partidas, das quais o médio rubro-negro atuaria em 15. Se as Copas do Mundo de 1942 e 1946 tivessem sido disputadas, ele seria nome certo.

No mesmo ano que marcou sua estreia pelo Brasil, Jayme também levantaria seu primeiro título carioca pelo Flamengo, iniciando um histórico tricampeonato. O time rubro-negro chegou a virar o turno seis pontos atrás do Fluminense, mas empreendeu uma arrancada impressionante nas duas etapas seguintes, somando 34 pontos em 36 possíveis. O caneco veio com um empate em 1 a 1 diante dos tricolores em Laranjeiras, num jogo que marcou também a estreia da Charanga Rubro-Negra, a primeira do Brasil, liderada por seu quase xará Jayme de Carvalho.

Autor de dois gols naquela campanha, um deles encerrando a goleada de 4 a 0 sobre o Botafogo pelo terceiro turno – Jayme atuou em todas as partidas. Com efeito, o médio-esquerdo iniciaria ali uma impressionante sequência: dos 145 jogos de Carioca disputados pelo Flamengo entre 1942 e 1948 (ou seja, em sete temporadas), ele ficaria de fora de apenas um. E além de onipresente no time, também se tornaria cada vez mais parte do clube, vivendo seu dia-a-dia na Gávea e zelando pelo estádio e pela concentração.

“Basta dizer que lá [na Gávea], nada se faz, levanta-se ou deita abaixo sem o seu visto. É ele quem dá as ordens: quem providencia a lavagem da roupa, o café, o almoço, o jantar, a ceia, tudo, tudo para os ‘cracks’. O único rádio que se ouve nos dormitórios dos jogadores é de sua propriedade”, relatava a coluna “Um por um” da revista semanal O Globo Sportivo, que definia Jayme como “de boa índole, calmo, sério – quase impenetrável”. O texto mencionava ainda que o jogador era o “único responsável” por sua família (“são treze ao todo”). Isso aos 22 anos.

Ainda naquele ano de 1942, Jayme viria com o Flamengo exibir seu futebol ao público paulistano em dois momentos, fazendo sete partidas ao todo sem perder nenhuma. Primeiro em março, na disputa da chamada “Quinela de Ouro”, torneio que reuniu o trio de ferro da capital paulista e a dupla Fla-Flu, no qual os rubro-negros venceram o São Paulo (2 a 1) e empataram com Corinthians (1 a 1), Palestra Itália (2 a 2) e Fluminense (0 a 0). Depois, voltaria em outubro para derrotar o rebatizado Palmeiras (2 a 1), o Corinthians (4 a 2) e empatar com o São Paulo (3 a 3).

Suas atuações no Pacaembu novamente chamaram tanto a atenção que, em fevereiro de 1943, o São Paulo chegou a sondar sua contratação junto ao Flamengo. Mas o técnico Flávio Costa se recusou a abrir mão de seu “craque número 1” da temporada anterior – numa equipe que, é bom lembrar, contava com nomes como Domingos da Guia e Zizinho – não estava à venda. E logo ele levantaria outra taça, a do Torneio Relâmpago, competição curta (como o nome indica) disputada pelos cinco grandes clubes da cidade do Rio como aperitivo para o Carioca.

Capitão do tri rubro-negro

Prestigiado, e como retribuição por sua dedicação, Jayme também seria apontado como o novo capitão do time, tomando a braçadeira de Domingos da Guia. E como tal ele outra vez participaria de todos os jogos do Flamengo (agora 18, com a extinção do terceiro turno) na campanha rumo ao bicampeonato carioca. O time sofreu apenas uma derrota (para o America na Gávea, na quarta rodada), venceu todos os adversários pelo menos uma vez e registrou duas vitórias expressivas sobre o Botafogo: 4 a 1 em General Severiano e 4 a 2 na Gávea.

Mas o resultado mais marcante viria na penúltima rodada contra o Vasco, no jogo que deixou os rubro-negros com a mão na taça. O arquirrival ainda tinha chances de título e já contava com vários jogadores que formariam dali a alguns anos o lendário “Expresso da Vitória” (Rafanelli, Argemiro, Djalma, Ademir, Isaías, Lelé, Chico). Mas o Fla foi simplesmente arrasador e aplicou uma surra de 6 a 2, sua maior goleada sobre os cruzmaltinos na história do clássico. E a conquista seria confirmada uma semana depois com um 5 a 0 no Bangu na Gávea.

A reta final daquela campanha marcou ainda a chegada do centromédio paraguaio Modesto Bria, trazido do Nacional de Assunção, e que estreou no Fla-Flu do returno, a cinco rodadas do fim do certame. Ali, pela primeira vez, seria escalada a “linha média” (com o perdão do desenho tático) que se tornaria uma das mais célebres não só do Flamengo como do futebol brasileiro, Biguá-Bria-Jayme, que seguiria intacta na equipe rubro-negra por boa parte dos anos 1940 e anteciparia outra que marcaria época na década seguinte, Jadir-Dequinha-Jordan.

Individualmente, Jayme foi um dos destaques do Fla na conquista de 1943. Sobre ele, escreveu o Correio da Manhã na coluna “Crônica”: “Dois nomes merecem os louvores do Flamengo pelo muito que contribuíram para a vitória, e estes são Flávio Costa e Jayme de Almeida. (…) Jayme, o médio esquerdo e capitão do time, foi o elemento mais eficiente e regular. Foi o esteio da defesa onde há outros elementos ótimos, e a sua atuação técnica e disciplinar foi acima de qualquer expectativa. Um jogador perfeito neste nosso futebol tão cheio de imperfeições”.

Como capitão do campeão carioca, era natural que Jayme exercesse o mesmo papel no “scratch” do então Distrito Federal que jogaria a seguir o Brasileiro de Seleções. Os paulistas venceram os dois primeiros jogos da final no Pacaembu. Mas os cariocas retrucaram com duas contundentes vitórias no Rio – 3 a 0 e 6 a 1 – e levaram o título com um 2 a 1 no quinto jogo, também na capital federal. Jayme, porém, ficou de fora das duas últimas partidas, com o tornozelo fraturado após receber um grosseiro pontapé do ponta-direita são-paulino Luizinho Mesquita.

Recuperado da lesão, ele se prepararia para encarar em 1944 a campanha mais difícil daquele primeiro tricampeonato carioca do Flamengo. O time, que desde o ano anterior já não contava com o aposentado ponta-direita argentino Agustín Valido, também perdeu a impositiva presença de Domingos da Guia, vendido ao Corinthians. E durante a campanha também se veria desfalcado do ponta-de-lança Perácio, recrutado pela Força Expedicionária Brasileira para combater na Itália na Segunda Guerra Mundial – para onde também foi Bráulio, irmão de Jayme.

Com tantas baixas, o Flamengo fez campanha irregular na metade inicial da competição e virou o turno na quarta colocação. Chegou a estar cinco pontos atrás do líder (então o Fluminense) e até apontado pela imprensa como fora da briga pelo tricampeonato, mas arrancou na reta final. Na penúltima rodada, ganhou o reforço de Valido, afastado há dois anos do futebol profissional, e, com ele, aplicou uma incrível goleada de 6 a 1 sobre os tricolores. O último adversário era o Vasco, com quem dividia a liderança, em jogo marcado para o Estádio da Gávea. 

O Fla tinha vários problemas. Valido, destaque contra o Fluminense, passara a semana decisiva com febre alta. O ponteiro Vevé sofria de dores crônicas no joelho esquerdo. Bria estava às voltas com um lumbago (dor lombar). E Pirillo tinha orquite, uma inflamação nos testículos. Todos eles entraram em campo com suas dores para enfrentar o Vasco. Jayme se desdobrou pelos colegas: teve atuação irrepreensível premiada com uma das poucas notas 10 do jogo pelo Globo Sportivo. E Valido cabeceou para marcar o gol do título a quatro minutos do fim.

O melhor da América do Sul

Na sequência do tri carioca – o primeiro da história do Flamengo – viria mais um Brasileiro de Seleções. E tendo novamente Jayme como capitão, os cariocas alcançaram o bicampeonato em outra melhor de cinco jogos contra os paulistas. O torneio também ajudaria a preparar o “scratch” nacional para o Campeonato Sul-Americano Extra a ser disputado em Santiago no começo do ano seguinte. Com uma equipe fortíssima e o rubro-negro como médio-esquerdo titular, o Brasil teria ótimas chances de encerrar seu jejum na competição que vinha desde 1922.

A partida de estreia seria contra a Colômbia (o primeiro confronto com os cafeteiros na história), e os brasileiros venceriam por 3 a 0 com Jayme anotando seu primeiro e único gol pela Seleção, fechando a contagem ainda na primeira etapa com um chutaço de fora da área no rebote de um chute de Zizinho. Em seguida, o time bateu a Bolívia (2 a 0) e impressionou ao impor ainda no primeiro tempo um categórico 3 a 0 ao forte Uruguai de Obdulio Varela, Roque Máspoli, Roberto Porta, Atílio Garcia e Schubert Gambetta, dirigido pelo lendário José Nasazzi.

Lesionado contra os uruguaios, Jayme passou a semana como dúvida para a partida diante da Argentina. Titular inquestionável, no fim das contas acabou escalado nitidamente sem condições físicas. Disto se aproveitaram os adversários. Capengando em campo, não teve como conter o meia-direita “Tucho” Méndez, que apareceu para marcar os dois primeiros gols argentinos. Pouco depois de Heleno descontar para o Brasil, ainda no primeiro tempo, Jayme foi substituído. Não podia mais continuar. Minutos mais tarde, Méndez fechou a contagem em 3 a 1.

A lesão o tiraria da goleada de 9 a 2 sobre o Equador (até ali a maior aplicada pela Seleção em sua história), mas na última partida, contra os anfitriões chilenos, ele estaria de volta e teria papel importante na vitória por 1 a 0. Ao desarmar o ponta Piñero e entregar a bola a Jair Rosa Pinto, ele iniciaria a jogada do único gol do jogo, marcado por Heleno de Freitas, após cruzamento de Ademir de Menezes. O Brasil, que vencera cinco de suas seis partidas, teria de se contentar com o vice-campeonato. Mas Jayme, mesmo assim, sairia coberto de honra.

Ao fim da competição, jornalistas de todos os países participantes do certame se reuniram para eleger a seleção do torneio, o que equivaleria a apontar os melhores da América do Sul em cada posição naquele ciclo. E Jayme foi nomeado, indiscutivelmente, o melhor médio-esquerdo “pela sobriedade, pela alta noção do que faz, pelo sentido prático da marcação e do ataque”, conforme o texto do Globo Sportivo. Na votação, ele superara o argentino Bartolomé Colombo e formaria a linha média com os também portenhos Carlos Sosa e Ángel Perucca.

Além disso, Jayme – e a Seleção Brasileira – só precisariam esperar até o fim daquele ano para ter sua revanche contra os argentinos nos jogos que valeram pela Copa Roca, troféu o qual não era conquistado pelos brasileiros desde 1922. Na primeira partida, no Pacaembu, a Albiceleste venceu por 4 a 3 em jogo cheio de reviravoltas. Mas na segunda, em São Januário, o Brasil arrasou a equipe de Mario Boyé, Adolfo Pedernera, René Pontoni, Rinaldo Martino e Ángel Labruna por impiedosos 6 a 2, com Jayme fazendo a assistência para o sexto tento, de Ademir.

As vitórias alternadas forçaram um terceiro jogo, novamente em São Januário, na antevéspera do Natal de 1945. E o Brasil voltou a vencer, desta vez por 3 a 1, ficando com a taça a qual nunca mais perderia. No mês seguinte, quase emendando uma competição na outra, a Seleção estaria novamente em campo disputando primeiro a Copa Rio Branco no Uruguai e, em seguida, mais um Sul-Americano, desta vez em Buenos Aires. Seriam as duas últimas participações de Jayme no escrete – que ainda não era o canarinho, já que usava camisas brancas.

Pelo primeiro torneio, em Montevidéu, o Brasil sofreu uma derrota apertada por 4 a 3 e empatou o segundo jogo em 1 a 1, deixando a taça com os anfitriões. Mas daria o troco na Celeste no Sul-Americano, devolvendo os 4 a 3 num jogo marcado pela violência dos uruguaios, que tiraram três jogadores brasileiros de campo lesionados. Um deles seria Jayme, que levou uma rasteira do meia uruguaio José María Medina e, ao cair no gramado, levou um pisão do mesmo adversário. Teve de ser substituído aos 30 minutos de jogo e foi desfalque contra Paraguai e Chile.

Para seu azar, voltou para fazer o que seria sua última partida pela Seleção num ambiente ainda mais carregado. O jogo contra a Argentina no Monumental de Núñez (no qual os donos da casa precisavam apenas de um empate para conquistar o título) foi uma guerra, com invasão de campo por parte de torcedores, que chegaram a espancar o ponta-esquerda Chico. O jogador vascaíno foi retirado de campo desacordado e – bizarramente – expulso pelo árbitro uruguaio Nobel Valentini, o mesmo que apitara o confronto no Sul-Americano anterior.

Jayme também não completou a partida. Levou um pontapé e teve de ser substituído ainda no primeiro tempo. Encerraria ali seu ciclo na seleção brasileira, mas ainda participaria pela última vez do Brasileiro de Seleções pela equipe do Distrito Federal, sagrando-se tricampeão no torneio de 1946 em outra final vencida sobre os paulistas e só disputada em março do ano seguinte. O restante da carreira de jogador seria dedicado exclusivamente ao Flamengo. O clube, no entanto, começava a vivenciar um declínio naquela segunda metade da década.

O fim da carreira com dignidade

O time tricampeão carioca se desmantelava aos poucos. Valido se aposentara de vez após o gol histórico sobre o Vasco. Zizinho sofreria duas fraturas na perna em 1946 e 1947, ficando de fora de campanhas quase inteiras. Pirillo seria vendido ao Botafogo em 1948. Outros, como Perácio, o goleiro Jurandyr e o ponta-esquerda Vevé, aos poucos sairiam de cena. E o técnico Flávio Costa seguiria para o Vasco – que montara um esquadrão – em 1947. O trio Biguá, Bria e Jayme é que se mantinha intacto, e era muitas vezes o termômetro da equipe.

Jayme fez uma excelente temporada de 1946, ano em que, para a surpresa geral, o Vasco esteve longe do bicampeonato e os outros quatro grandes terminaram empatados após turno e returno, obrigando a realização de um quadrangular em ida e volta para apontar o campeão (que seria o Fluminense). O médio-esquerdo rubro-negro chegou a ser eleito o craque do primeiro turno e ganhou elogios rasgados do técnico tricolor Gentil Cardoso, para quem o jogador se equiparava em brilho aos velhos ídolos Domingos da Guia e Leônidas da Silva.

Em maio de 1948, Jayme venceria o concurso de popularidade promovido por um fabricante de balas (um dos muitos certames deste tipo organizados na época). Mas a honraria mais simbólica de sua carreira viria em novembro do ano seguinte, quando foi um dos primeiros atletas no país a ser agraciado com o Prêmio Belfort Duarte, instituído pelo Conselho Nacional do Desporto em 1946 para homenagear os jogadores que passassem pelo menos dez anos sem terem sido expulsos de campo, tendo disputado pelo menos 200 partidas. Uma ode à disciplina.

Aquela temporada de 1949 seria sua última como jogador do começo ao fim. Mas, já minado por lesões, ele atuaria em apenas sete dos 20 jogos do time no Carioca – queda sensível de ritmo para quem, entre 1942 e 1948, só ficara de fora de uma partida. Participaria, porém, da famosa vitória sobre o Arsenal por 3 a 1 em maio, numa excursão dos Gunners ao Brasil. Seu último jogo de competição (no qual entrou no lugar de Bria) seria a goleada de 6 a 2 sobre o Corinthians, em 22 de dezembro, em partida que já valeu pelo Torneio Rio-São Paulo de 1950.

O adeus definitivo viria num amistoso com o Goytacaz em Campos, no feriado de 1º de maio de 1950, quando o médio, aos 29 anos, já se desligara do elenco. Naquele mesmo mês, uma extensa matéria da revista Esporte Ilustrado relembrava os grandes nomes da posição que passaram pela Seleção (Martim, Afonsinho, Zezé Procópio, Brandão) e avaliava os novatos (Danilo, Bauer, Eli, Rui, Brandãozinho), antes de arrematar afirmando que Jayme havia sido “o mais completo” da posição no país: “Uma das maiores glórias do futebol nacional”, exaltava o texto.

Tornado um patrimônio do Flamengo, Jayme de Almeida passou a comandar as categorias de base rubro-negras tão logo pendurou as chuteiras. Ajudou a formar futuros ídolos como Índio e Zagallo até ser recrutado para auxiliar Flávio Costa, trazido de volta do Vasco no início de 1951 para comandar a equipe principal. Naquela altura, no entanto, ele próprio já acumulava nada menos que quatro passagens (todas rápidas) à frente do time, incluindo duas em que conciliara os postos de jogador e treinador, em janeiro de 1946 e em dezembro de 1947.

Quando Flávio deixou o cargo, no fim de 1952, foi Jayme quem fez a ponte até a chegada do paraguaio Manuel Fleitas Solich, em abril do ano seguinte. E conquistou um título nesse processo: em Buenos Aires, um Fla conquistou um quadrangular internacional enfrentando Boca Juniors, San Lorenzo e o velho rival Botafogo. Nos anos em que o “Feiticeiro” reinou na Gávea, Jayme era seu braço direito e também o assistente do Departamento de Futebol. E, quando o técnico saiu para dirigir o Real Madrid, em meados de 1959, Jayme foi efetivado no comando.

O Flamengo, porém, vivia período de transição após a saída de alguns jogadores e a ascensão de outros vindos da base, como Carlinhos. Com isso, os rubro-negros estiveram longe de brigar pelas primeiras posições no Carioca daquele ano, tendo especial dificuldade nos clássicos. Mas antes de deixar o cargo, Jayme ainda comandaria a equipe no ponto alto daquela campanha, uma sensacional goleada sobre o Botafogo, então o líder do certame, dirigido por João Saldanha e que alinhava Garrincha, Nilton Santos, Quarentinha, Amarildo e Paulo Valentim.

Os rubro-negros estavam mordidos pela derrota por 2 a 1 no primeiro turno, obtida, segundo os jogadores, com uma bola que não entrou. Mas o troco viria com estilo. Naquela tarde de 25 de outubro, o Alvinegro abriu o placar com Quarentinha, mas o Fla empatou um minuto depois com Henrique e virou ainda no primeiro tempo com Babá. Na etapa final, veio a avalanche: Henrique, Babá, Luís Carlos e Dida elevaram o placar a 6 a 1, antes de Joubert e Quarentinha serem expulsos e de Paulinho Valentim diminuir para o rival no último minuto. 

Enquanto era superintendente no Departamento de Futebol do Flamengo, Jayme assumiu ainda a empreitada de dirigir a Associação Beneficente de Veteranos Cariocas. A entidade tinha como objetivo organizar partidas entre veteranos com arrecadação revertida aos antigos craques mais necessitados. “Creio que já encontramos grande movimento de solidariedade mesmo entre os novos. Eles afinal entendem que um dia serão veteranos”, comentou o velho ídolo rubro-negro à revista Manchete Esportiva em entrevista de 1956.

Lenda também no futebol peruano

Em julho de 1961, Jayme deixaria a Gávea após 20 anos ao embarcar para Lima, onde comandaria o Alianza. No clube mais popular do Peru, levantaria os títulos de 1962, 1963 e 1965, tornando-se o treinador mais vezes campeão nacional pelo clube na era profissional. E ainda promoveria uma geração muito talentosa de garotos que fariam história na seleção blanquiroja: foi Jayme quem lançou no clube futuros ídolos como Teófilo Cubillas e Julio Baylon, além de consolidar na equipe nomes como Pedro Pablo “Perico” León e Victor “Pitín” Zegarra.

Segundo técnico que mais comandou os blanquiazules na história, Jayme também teve resultados expressivos em amistosos. Em 1966, bateu o Botafogo de Jairzinho, Gérson, Afonsinho e Manga por 3 a 1. No ano seguinte, goleou por 6 a 1 um Independiente já bicampeão da Libertadores, treinado pelo brasileiro Oswaldo Brandão e contando com nomes como Pastoriza, Santoro, Pavoni e Bernao. Chegou ainda a dirigir um combinado peruano que bateu o Real Madrid de Puskás e Gento por 3 a 2 em 1965, numa excursão merengue a Lima.

Em 1966, Jayme passaria de treinador a supervisor (cargo já desempenhado no Flamengo), ainda que volta e meia retornasse ao comando do time – numa dessas últimas passagens, em 1970, lançaria outro talento da base, o meia César Cueto. Em janeiro de 1971, um combinado Alianza-Deportivo Municipal co-dirigido por ele e pelo ex-jogador Roberto “Tito” Drago derrotaria o Bayern de Beckenbauer, Maier e Gerd Müller por 4 a 1. No ano seguinte, ele se mudaria para o pequeno Defensor Arica, o qual não conseguiria salvar do descenso.

Seu último trabalho seria como superintendente no Deportivo Municipal, em 1973. No dia 17 de maio daquele ano, Jayme de Almeida faleceria em Lima vitimado por uma trombose cerebral em consequência de um derrame sofrido dias antes. Tinha 52 anos. Sua morte comoveu o meio esportivo no Peru e no Rio de Janeiro – onde seu filho, também chamado Jayme, preparava-se para ser promovido ao elenco principal do Flamengo. O mesmo clube no qual ele se tornara um símbolo de cavalheirismo e do qual se tornara emblema por 20 anos.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.