Encravado entre Peru e Bolívia, o Titicaca é um dos principais cartões-postais dos Andes. O lago navegável mais alto do mundo, porém, nunca tinha sido tão representativo no futebol peruano. Pela primeira vez na história do Campeonato Peruano, o departamento de Puno leva a taça nacional. A proeza é do Binacional, que traz o próprio Titicaca em seu escudo. El Puma del Sur vem em franca ascensão nos últimos anos e, neste domingo, confirmou a conquista em cima do Alianza Lima. Após a goleada por 4 a 1 na cidade de Juliaca durante a ida, a derrota por 2 a 0 no Estádio Matute não se tornou suficiente para estragar a festa dos celestes.

O Binacional é um clube bastante recente. Sua fundação aconteceu em 2010, na cidade de Desaguadero, que fica próxima à fronteira entre Peru e Bolívia. Com investimento da prefeitura, El Puma del Sur passou a registrar boas campanhas na Copa Peru, até conquistar o acesso através do torneio em 2017. Já em 2018, os celestes terminaram na oitava colocação do Torneio Descentralizado e alcançaram a classificação inédita à Copa Sul-Americana. Apenas uma prévia do 2019 histórico que os aguardava.

Sem condições de mandar seus jogos em Desaguadero, o Binacional rodou por diferentes estádios durante esta ascensão. Chegou a passar por Arequipa e Moquegua, além da própria cidade de Puno. Já neste ano, o reformado estádio da cidade de Juliaca (também às margens do Titicaca) começou a receber as partidas da equipe. Com grande apoio da torcida local e auxílio dos 3,2 mil metros de altitude dos Andes, o modesto clube fez história no Campeonato Peruano. Vencedor do Torneio Apertura em 2019, garantiu a classificação para a fase final da liga nacional. Já no Clausura, terminou com o quarto lugar.

Por ter a melhor pontuação geral entre os campeões do Apertura ou do Clausura, o Binacional se confirmou na decisão anual. Pegaria o Alianza Lima (campeão do Clausura, mas com uma pontuação menor), que derrotou na semifinal o Sporting Cristal (time de melhor campanha geral). E, antes do confronto, El Puma del Sur precisou lidar com uma tragédia. Referência na criação do time, o meia Juan Pablo Vergara sofreu um acidente fatal no início de dezembro. Capotou com seu carro, em incidente que ainda feriu outros dois jogadores dentro do veículo. Apesar do luto, os celestes preferiram não adiar a final.

Demonstrando enorme garra para superar seu drama particular, o Binacional encaminhou a conquista na partida de ida, quando encheu as arquibancadas em Juliaca e goleou o Alianza Lima por 4 a 1. Seria um jogo controverso pelas decisões da arbitragem, na primeira vez em que o VAR foi utilizado no futebol peruano. Mesmo com as contestações, os celestes construíram o placar elástico durante o segundo tempo e aproveitaram para realizar diversas homenagens a Vergara. Donald Millán, que também estava no carro, fechou o placar e não conteve o choro.

Já neste domingo, o Binacional precisava apenas administrar sua vantagem. Vergara outra vez estava presente, com seu rosto estampado nas camisas usadas pelos companheiros durante o aquecimento. Quando a bola rolou, El Puma del Sur conteve o ímpeto do Alianza. Os Potrillos abriram o placar aos 35 minutos de jogo, com o veterano Cachito Ramírez. Já aos 32 do segundo tempo, um gol contra de John Fajardo aumentou as esperanças dos anfitriões. Contudo, a reação parou por aí e os limeños viram os visitantes terminarem com o inédito título.

Durante a comemoração do Binacional, a esposa de Vergara esteve em campo junto com o bebê do casal. Além disso, os outros filhos do falecido jogador entraram em campo carregando a taça. Garantiram momentos de imensa emoção em meio aos festejos.

O Binacional se destacou principalmente por sua produtividade ofensiva ao longo da campanha. Dono da braçadeira de capitão, Millán foi a grande figura do Binacional. O rodado meia-atacante colombiano foi o vice-artilheiro do campeonato com 23 gols, assim como serviu nove assistências e terminou como o maior garçom da liga. Aldair Rodríguez, Edson Aubert e Andy Polar também tiveram importância no funcionamento do ataque, assim como o próprio Vergara. Mais atrás, o lateral Jeickson Reyes se destacou pela capacidade no apoio.

A façanha do Binacional também consagra um veterano do futebol local: o técnico Roberto Mosquera. Atacante da seleção na Copa de 1978, o treinador se colocou entre os melhores do país nesta década. Conquistou títulos e prêmios individuais à frente de Sport Huancayo, Juan Aurich e Sporting Cristal. O Binacional apostou em sua experiência a partir de setembro, após a saída de Javier Arce para o Real Garcilaso. Apesar da “fogueira” em que foi inserido, Mosquera tomou as rédeas e saiu com o troféu.

O Binacional também garante sua participação inédita na Libertadores de 2020. Desde 2008, será o sétimo clube diferente do país que fará sua estreia na competição continental. Os números indicam a abertura do Campeonato Peruano a novos concorrentes, sobretudo a clubes de investimento recente. Como não acontecia desde o Alfonso Ugarte em 1976, o departamento de Puno também retornará à Libertadores. E os celestes indicam, por sua ascensão nestes últimos três anos, que esta pode não ser uma mera exceção.