O Leste Europeu sempre manteve certa fama por produzir alguns dos melhores goleiros do mundo. Ter Lev Yashin como estandarte principal contribui bastante a essa história, mas outros tantos craques da posição também despontaram na região. A lista é extensa e inclui nomes como Frantisek Planicka, Vladimir Beara, Gyula Grosics, Jan Tomaszewski, Ivo Viktor, Helmuth Duckadam, Rinat Dasaev, Petr Cech e ainda outros que se tornaram referências sob as traves. O leste segue com sua forte escola na formação de arqueiros e todas as grandes ligas da Europa Ocidental possuem ótimos camisas 1 que saíram do lado Oriental. Dois deles se enfrentam nesta quinta-feira de Champions. Jan Oblak e Péter Gulácsi não estão necessariamente no mesmo nível, com o esloveno na prateleira mais alta de goleiros na atualidade. Ainda assim, são dois protagonistas em Atlético de Madrid e RB Leipzig, que tendem a ser decisivos em Lisboa.

Que Diego Simeone tenha formado uma das melhores defesas do planeta ao longo de seus quase nove anos à frente do Atlético, contar com bons goleiros seria uma constante em Madri. E nenhum de seus antecessores, apesar da badalação, atingiram a excelência de Oblak com os colchoneros. David de Gea e Thibaut Courtois ficaram períodos mais curtos no Atleti, seja pelo valor que o primeiro adquiriu, seja pelo empréstimo do segundo. Oblak veio para fazer a torcida esquecer os dois, por mais espetaculares que tenham sido, e para viver seu auge na equipe. Lembrar do esloveno apenas pela decisão de Champions em que ele não pegou pênaltis é ter memória curta à quantidade de serviços prestados desde então. Muitas vezes a fase dos rojiblancos só se sustentou pela quantidade de milagres operados pelo camisa 13.

Gulácsi não está no grupo restritíssimo do qual faz parte Oblak, que pode ser comparado (no máximo) com uma meia dúzia de goleiros no mundo. O que não torna o húngaro necessariamente ruim, quando figura há anos entre os melhores das metas na Alemanha, a melhor escola de arqueiros das últimas décadas. É só pegar como o rendimento do RB Leipzig na primeira divisão dependeu de seu camisa 1. Chegou à Red Bull Arena aos 25 anos, uma idade relativamente elevada para o projeto empreendido nos Touros Vermelhos. Virou um ponto de segurança na ascensão do clube e raras foram as vezes em que não esteve presente nos jogos da equipe na Bundesliga – para ser mais exato, se ausentou em somente cinco dos 132 compromissos do Leipzig desde que a agremiação alcançou a primeira divisão. De fato, virou uma liderança o RasenBallsport.

As trajetórias de Gulácsi e Oblak possuem distinções claras, embora ambos tenham surgido muito cedo como prodígios. Oblak fez sua estreia no Olimpija Ljubljana quando tinha apenas 16 anos. Inclusive na base chegou a atrair interesses de ligas maiores, com ofertas de Empoli e Fulham. Preferiu seguir se aprimorando na Eslovênia, embora o surgimento precoce como titular logo tenha o levado ao Benfica em 2010. A partir de então, rodaria por empréstimos em diversos clubes menores do Campeonato Português, ganhando sequência no União de Leiria e no Rio Ave – onde foi companheiro de outra jovem promessa, o brasileiro Ederson, atualmente no Manchester City.

Três anos mais velho, Gulácsi teve seu início no MTK Budapeste, mas nem chegou a estrear pela equipe principal. Já era conhecido muito além da Hungria e, aos 17 anos, se juntou ao Liverpool. A adaptação não foi um problema na Inglaterra, com o garoto participando de diversos títulos com o time reserva. Não à toa, assinaria um contrato permanente com os Reds após um ano de empréstimo. Mas não seria fácil ganhar o reconhecimento em Anfield para integrar os profissionais, nem mesmo com a excelente campanha dos húngaros no Mundial Sub-20 de 2009, quando Gulácsi foi um dos principais nomes rumo às semifinais do torneio. Geralmente terceira opção, o magiar precisava de tempo de jogo, o que ganharia com os empréstimos. Defendeu Hereford United, Tranmere Rovers e Hull City nas divisões de acesso, sempre cedido temporariamente.

Oblak teve sua vez no Benfica em 2013/14, quando o veterano Artur não vinha bem e Jorge Jesus resolveu dar uma chance ao garoto de 21 anos. Em apenas um semestre, Oblak colecionou atuações espetaculares na meta encarnada e acabou não só vencendo o Campeonato Português, como também foi eleito o melhor goleiro da competição – com apenas 16 aparições no torneio, mas míseros três gols sofridos. Brilharia ainda na caminhada dos benfiquistas rumo à decisão da Liga Europa, quando acabaram desbancados nos pênaltis pelo Sevilla. Mesmo com pouquíssimo tempo num clube de projeção, Oblak escancarava seu talento.

Gulácsi, ao mesmo tempo, precisou arrumar as malas de Anfield para fazer seu nome. O húngaro não chegou a entrar em campo com o Liverpool e era natural buscar novos rumos. Aos 23 anos, teria um bom destino: em 2013/14, seu contrato com os ingleses chegou ao fim e, de graça, ele pôde assinar com o Red Bull Salzburg. Ganharia a posição na potência austríaca sem muitos problemas e faturaria a dobradinha nacional em duas temporadas consecutivas. O momento seria importante para mostrar que a promessa também poderia atuar em alto nível e permitiu que ele realizasse sua estreia com a seleção principal da Hungria em 2014, embora fosse estepe do veteraníssimo Gábor Király na sequência até a Euro 2016.

Oblak saiu do Benfica logo em 2014. Acertou sua transferência rumo ao Atlético de Madrid por €16 milhões. Era um valor alto para um goleiro sem tanta rodagem no primeiro nível, mas que valia a pena pelo histórico favorável dos colchoneros na posição. Tinham revelado De Gea, antes de vendê-lo como um dos melhores prodígios da posição ao Manchester United. E conseguiram firmar por três temporadas o empréstimo de Courtois, até que ele retornasse ao Chelsea para substituir Cech. Aos 21 anos, Oblak teria a concorrência de Moyá e seria banco do arqueiro mais experiente durante quase toda a primeira temporada, pela maneira como o companheiro se saiu bem nas primeiras chances. Apenas na reta final de La Liga, com a lesão de Moyá, é que o esloveno ganhou o posto. Não sairia mais.

Gulácsi permaneceria no Salzburg até 2015, para abraçar um projeto. Deixar um time que figurava nas competições europeias para atuar na segunda divisão alemã poderia parecer naturalmente um retrocesso. Na verdade, era um voto de confiança da Red Bull, avaliando que o húngaro seria a melhor opção para acelerar o crescimento do Leipzig e garantir estabilidade na meta rumo à primeira divisão. Ele também seria reserva no início da segundona, esquentando o banco de Fabio Coltorti, veterano suíço que erguera os Touros Vermelhos desde a quarta divisão. De qualquer maneira, o novato de 25 anos assumiu a meta na segunda metade da campanha e selou o acesso com grandes atuações.

Na época em que Gulácsi era promovido à elite da Bundesliga com o RB Leipzig, Oblak disputava uma final de Champions com o Atlético de Madrid. O goleiro fazia sua primeira temporada como titular absoluto em 2015/16 e, embora tenha sido essencial à própria campanha dos colchoneros rumo à decisão, muita gente não conhecia sua capacidade. Não que o esloveno tenha se saído bem na disputa por pênaltis contra o Real Madrid, que selou mais uma decepção ao time de Diego Simeone. Mas querer colocá-lo como vilão por não ter pulado em parte das cobranças, como alguns fizeram no momento, foi um enorme exagero. Oblak, afinal, havia pegado um penal diante de Thomas Müller nas semifinais contra o Bayern. E, mais relevante, ganhou o Troféu Zamora no Campeonato Espanhol com míseros 18 tentos sofridos, igualando o recorde histórico da Liga, estabelecido por Francisco Liaño na meta do Deportivo de La Coruña em 1993/94.

Desde então, Oblak pareceu tirar forças dos questionamentos e das adversidades. Sua posição na história do Atlético de Madrid é indiscutível, tornando-se o segundo goleiro com mais aparições pelos colchoneros, atrás apenas de José Francisco Molina. E diversas marcas emblemáticas de La Liga caíram em seus pés. Foram quatro temporadas consecutivas ganhando o Troféu Zamora de goleiro menos vazado da primeira divisão, algo inédito na competição, bem como sendo eleito o melhor da posição no campeonato. O esloveno seria desbancado no Zamora apenas durante a atual temporada, por Courtois. Também seria o primeiro estrangeiro a atingir 100 partidas sem sofrer gols no Espanhol. E começou a figurar nas listas da Bola de Ouro, embora o fato de ser bem menos midiático que alguns colegas de posição o atrapalhe nestas premiações.

Enquanto Oblak chegava ao topo da Europa, Gulácsi fazia o mesmo na Alemanha. O Leipzig precisou de pouquíssimo tempo para se transformar em uma força na Bundesliga. O goleiro, paralelamente, também não esperou para se confirmar como um dos melhores em atividade no país. Depois da temporada de estreia, o húngaro se colocou no Top 5 de arqueiros na eleição da Revista Kicker por três edições consecutivas do campeonato. Recebeu o prêmio da publicação em 2017/18 e se superou em 2018/19, com números ainda mais contundentes. Passou 16 partidas sem sofrer gols pelo Campeonato Alemão e liderou a melhor defesa do torneio. Sua reputação na liga de Manuel Neuer é vasta.

E os últimos anos também serviram para que Oblak e Gulácsi ganhassem a posição em suas seleções, apesar da concorrência duríssima que encontravam. O desafio de Oblak era até maior, com Samir Handanovic em plena forma pela Internazionale. Entretanto, o processo se acelerou a partir do final de 2015, quando o veterano preferiu se aposentar da equipe nacional. Se hoje há uma esperança da Eslovênia retornar às competições internacionais, ela se concentra sobre Oblak. Foram quatro anos seguidos como o melhor futebolista do país, até perder o prêmio para Josip Ilicic em 2019. Já na Hungria, Gulácsi seria o herdeiro natural de Király após a aposentadoria do ídolo em 2016, com a Eurocopa. A competitividade dos magiares também não é das maiores, dadas as limitações da equipe. O camisa 1 sustenta nos ombros parte das expectativas, eleito o melhor futebolista do país em 2018 e 2019.

O nível de exigência costuma ser diferente a Oblak e a Gulácsi. Como o Atlético de Madrid mantém uma postura mais resguardada na defesa, o esloveno geralmente é menos exposto. O que, de qualquer maneira, não diminui sua preponderância sob as traves. O camisa 13 é excelente em suas saídas pelo alto e possui um percentual de finalizações defendidas bastante alto. Não são raros os milagres que realiza nas partidas dos colchoneros, especialmente por seu tempo de reação fantástico. Se os rojiblancos seguem com uma defesa tão segura, é porque o esloveno incute esta mentalidade. E, diante da queda do time em certos momentos nas últimas temporadas, as ambições também se preservaram altas graças às frequentes atuações inspiradas de Oblak. A própria Champions serve de exemplo: numa fase ruim do Atleti durante a virada do ano, o goleiro protagonizou uma das melhores exibições da história recente da Champions entre os goleiros, ao parar o Liverpool em Anfield.

Gulácsi, por sua vez, precisa oferecer proteção dentro da mentalidade ofensiva do RB Leipzig. Assim, encara lances no mano a mano e chutes à queima-roupa com mais frequência. E se encaixa muito bem nesse estilo, tanto por seu bom posicionamento quanto pela forma como cresce diante dos atacantes no um contra um. Além disso, sua envergadura e sua impulsão rendem intervenções espetaculares, dificilmente batido em chutes de longe. O número de jogos sem sofrer gols é alto, considerando a postura dos Touros Vermelhos. Seu melhor momento nesta Champions também viria nas oitavas de final, sem sofrer gols nas duas partidas contra o Tottenham, com algumas boas defesas que facilitaram o caminho dos alemães rumo às quartas de final.

Gulácsi talvez seja ainda mais importante ao RB Leipzig nesta quinta, com o time em busca de seu protagonista. Timo Werner tomou a contestável decisão de deixar a equipe ao final da Bundesliga para se preparar ao novo início no Chelsea e fica uma lacuna como principal rosto dos Touros Vermelhos. O goleiro, sem dúvidas, é um candidato e terá a chance de se provar num compromisso dificílimo aos alemães. Por outro lado, ninguém contesta o posto de Oblak como melhor jogador do Atlético de Madrid nos últimos anos. Não é nem questão de renome, mas de performance, que fala por si. As esperanças de título continental ganham mais sentido quando se pensa na qualidade do esloveno. Serão dois personagens centrais em Lisboa. E que, vindos do leste, mantêm resguardada uma longa tradição da região sob os paus.