A Atalanta se despede de sua epopeia na Champions League. O final não cumpriu o sonho imaginado pelos bergamascos, com a virada dramática do Paris Saint-Germain nos acréscimos em Lisboa. Nada que apague, porém, a boa atuação da equipe de Gian Piero Gasperini e toda a longa caminhada que este ápice na competição continental representa. A Dea coloca um ponto final amargo nessa história, mas sabe que estará novamente no torneio em 2020/21, dando a impressão de que poderá repetir as boas campanhas. Ainda que possua um grande mentor, os méritos dos Orobici são coletivos e além das quatro linhas – algo que se reforçou nesta quarta.

As virtudes da Atalanta ficaram expressas no Estádio da Luz, sobretudo durante o primeiro tempo. A marcação agressiva dificultou muito ao Paris Saint-Germain e as únicas preocupações dos italianos nos 45 minutos iniciais se concentraram em Neymar. Além do mais, foi o time que os torcedores bergamascos estão acostumados a ver no ataque: veloz em suas transições, muito organizado, aproveitando as aparições dos homens que chegam de trás e explorando a amplitude do campo. O trabalho com a bola é excepcional, sobretudo pela maneira como a Dea busca o gol com coragem. Mas é sem ela que tamanha potência se complementa.

O tento veio num ótimo lance da Atalanta, atacando em massa e oferecendo muitas opções à jogada. Duván Zapata deu um bocado de sorte ao disputar a bola e servir uma assistência involuntária para Mario Pasalic. O croata, de qualquer forma, estava livre pelo lado direito e finalizou com muita qualidade. O camisa 88 é um desses “achados” do clube, que se encaixam tão bem à filosofia de jogo: não vingou no Chelsea ou no Milan, mas virou um nome importante em Bérgamo e se saiu muito bem nesta temporada.

A Atalanta não criou tantas chances claras em Lisboa. A defesa do PSG teve uma boa atuação e Keylor Navas também operou seus milagres. Todavia, a eliminação não se concentra apenas nas dificuldades da Dea para ampliar sua vantagem. As casualidades também atrapalharam. Primeiro, pela própria ausência de Josip Ilicic, dispensado do time para resolver problemas pessoais na Eslovênia. Depois, pela lesão de Papu Gómez no início do segundo tempo, custosa pelos lampejos do armador e também por sua participação na pressão sem a bola. E, depois de cinco alterações, Remo Freuler se contundiu também. O limite dos Orobici ficava bem claro.

Durante a reta final da partida, a Atalanta mudou seu jogo natural e recuou. Tinha mesmo que se proteger, especialmente quando Kylian Mbappé dobrou o perigo ao lado de Neymar. O atacante começou a explorar mais os espaços às costas da zaga e criava problemas que estariam mais expostos caso os italianos mantivessem sua estratégia agressiva. Os dois tentos saíram em lances nos quais o corredor surgiu pelo lado direito da marcação. E, por mais que Luis Muriel tenha errado o domínio nos minutos finais, era difícil esperar que os bergamascos segurassem o resultado com mais uma prorrogação pela frente.

A Atalanta sai frustrada, mas, pelo contexto, não deixa de ser heroica. É um time que supera as expectativas semana após semana e, mesmo com um orçamento massivamente inferior, conseguiu ficar a minutos de derrubar o Paris Saint-Germain. Faltou fôlego, assim como faltou sorte em detalhes. Mas não dá para reservar os clichês de que o treinador tem culpa, ou de que o time sentiu a pressão, ou ainda de que faltou competência. Os franceses têm mais armas; os italianos têm mais organização. Foi possível sustentar a vantagem enquanto a estratégia tinha condições para dar certo, o que se perdeu com o passar dos minutos.

“O maior lamento é que chegamos tão perto e pensamos que realmente poderíamos realizar esse feito extraordinário. A satisfação é a de termos feito uma grande campanha na Champions, melhorando constantemente contra as melhores equipes da Europa. Eu apenas posso agradecer aos rapazes pelo que fizeram nesta temporada. Decepciona porque ficamos muito perto. O PSG tem alguns dos melhores jogadores do mundo, Mbappé e Neymar, que a certa altura deram vida ao time. Poderíamos ter tomado o gol antes, de um jeito que poderia até ter sido melhor, porque perder nos acréscimos dói mais. Fizemos tudo o que podíamos, no fim de uma série de jogos muito difíceis e exaustivos, então só posso agradecer aos jogadores”, analisou Gasperini.

“A Champions é uma competição muito especial e li há algum tempo que Mourinho disse que é uma disputa de detalhes. Detalhes fazem a diferença quando os jogos são tão equilibrados e podem ir para um lado ou para o outro. Apesar de tudo, chegamos aos 90 minutos na frente. Estávamos bem preparados para as bolas paradas e poderíamos ter feito melhor em alguns contra-ataques, mas, de novo, são detalhes. As pessoas em Bérgamo celebrarão de qualquer maneira, por nosso sentimento de pertencimento, pelo time dar tudo o que podia. Não temos necessariamente dinheiro, mas temos ideias e paixão. Isso é um poço sem fundo e seguiremos aproveitando no futuro. Queremos melhorar na próxima temporada – talvez não em resultados, o que é difícil, mas como time”, finalizou.

Gasperini deverá seguir em frente na Atalanta. Também é difícil imaginar um desmanche da equipe, especialmente quando muitos de seus destaques possuem uma idade relativamente elevada. E, depois do melhor desempenho do clube na história da Serie A, dá para repetir o bom papel na Champions. Obviamente, o sorteio é sempre essencial no torneio continental. Além de um grupo que permitiu a recuperação, a Dea também se deu bem ao pegar um Valencia em crise – e destroçá-lo. A maneira como bateu de frente com o PSG, e como faz isso repetidamente contra os principais times da Itália, reforça a capacidade. A equipe de Gasperini não é daquelas que se encolhem contra as potências, e essa ousadia poderá render mais.

Talvez o lamento maior em torno desta eliminação é a alegria que a vaga nas semifinais poderia render a Bérgamo. A cidade virou epicentro da pandemia, inclusive por influência das arquibancadas lotadas, e conviveu com a calamidade por semanas. As famílias se reconstroem e, ainda que nada apague a dor das perdas, a Atalanta ainda significa uma motivação diferente à população da cidade. Os Orobici unem. Era esse o discurso de muitos no clube, inclusive. Não foi possível buscar a vitória e a classificação, que reforçaria as condições da surpresa em almejar a final. Mas não é a derrota que reduz o orgulho por aquilo que os bergamascos sentiram ou a paixão para seguir em frente. A Atalanta simboliza a sua gente, assim como um ideal de futebol. E o trabalho excepcional, tanto na gestão quanto no campo, saem valorizados desta Champions.