A memória costuma ser cruel com alguns grandes jogadores de futebol. A camisa da seleção brasileira e o sucesso em clubes populares, tantas vezes, é o passo para a imortalidade. Ainda assim, as lembranças fazem recortes. Heróis acabam menos aclamados do que deveriam, por uma seletividade que foge de sua alçada e mesmo da história que construíram. João Cardoso defendeu o Grêmio em um período imponente do clube, no início da década de 1960, mas ficou pouco tempo para se notabilizar. Sua grandeza e sua trajetória são mais bem preservadas na Argentina, onde passou a maior parte da carreira. O Newell’s Old Boys o recorda com carinho. Mas quem realmente sustenta o legado do atacante é o Racing, agradecido por tudo o que João Cardoso ofereceu em Avellaneda. Se La Academia pôde se proclamar como o primeiro argentino time campeão do mundo, após faturar a Libertadores em 1967, deve bastante ao gaúcho de Uruguaiana. E não se esqueceu do ídolo neste domingo, quando, aos 79 anos, o veterano faleceu.

O futebol sempre guiou a vida de João Cardoso, desde a infância em Uruguaiana. Cabulava as aulas para bater sua bola nas ruas da cidade, mesmo sabendo que a surra do pai, administrador do mercado municipal, era certa. “Pode me bater, mas um dia eu vou jogar no Grêmio”, dizia, conforme contou à Revista Brasileiros e ao site Impedimento em 2008. A ascensão do rapaz seria meteórica. Destaque em uma olimpíada militar durante o tempo de serviço no exército, ganhou uma chance de atuar pelo Esporte Clube Uruguaiana. Ficou por lá durante três meses, até chamar atenção justamente do Grêmio, em amistoso contra os tricolores realizado na cidade. O atacante de 20 anos agradou tanto que, semanas depois, já fez suas malas para a capital. O pai ainda tentou impedir a mudança, permitida apenas diante da intervenção da mãe.

O Grêmio atravessava um dos períodos mais gloriosos de sua história. O time pentacampeão gaúcho dominava as competições regionais e ganhava projeção nacional. O garoto, porém, seria mero coadjuvante. Disputar o posto de centroavante titular não era nada fácil, em tempos de Gessy e Juarez no elenco tricolor. Muitas vezes precisava ser improvisado como ponta, e isso quando recebia um espaço no elenco principal, tantas vezes limitado aos aspirantes. Apesar do bom início pelo clube, com três gols nos três primeiros jogos pelo Campeonato Citadino de 1959, acabou um pouco mais restritos aos amistosos em 1960. “Na verdade, eu era reserva do ataque inteiro, então sempre conseguia jogar, porque alguém não podia. Mas por causa do Juarez, que era um grande centroavante e titularíssimo, eu acabei jogando muito pela ponta direita”, contou ao site da Esporte Fabico, em 2010.

O melhor momento de João Cardoso no clube do coração aconteceu em 1961. Entre março e junho daquele ano, o Grêmio fez sua primeira excursão pela Europa. Disputou jogos em dez países diferentes. Acumulou 12 vitórias, quatro empates e oito derrotas. O atacante entrou com frequência nas partidas e anotou 12 gols durante a jornada. Auxiliou o time a conquistar o Troféu Internacional de Atenas, derrotando o Panathinaikos por 4 a 1. Já o duelo mais simbólico aconteceu em Estrasburgo, onde o Tricolor encarou o Real Madrid em amistoso no Estádio de la Meinau. O esquadrão pentacampeão europeu passaria o carro sobre os brasileiros, com dois gols de Ferenc Puskás na goleada por 4 a 1. Coube a Cardoso anotar o tento de honra. “O avante Cardoso deu insano trabalho aos homens da extrema defesa espanhola e, mercê de sua atuação primorosa, foi o autor do tento de honra dos brasileiros”, escreveu o jornal O Dia, em nota baseada na Agência France Presse

“Nós jogamos com tudo que a gente tinha. Tomamos quatro, mas jogamos com tudo”, contou ao Globo Esporte, em 2017, se regozijando mais pelo chapéu que deu em Alfredo Di Stéfano. “Foi uma bola comprida, ia sair fora de campo, e o Di Stéfano veio para disputar comigo. Aí consegui dar um chapeuzinho nele. Quando voltei, estava ele parado com as mãos na cintura e me disse: ‘Qué malo!’. O balãozinho no Di Stéfano! Pelo amor de Deus! Dar um balãozinho naquela fera, ele ficar te olhando e te xingar ainda!”.

João Cardoso voltou da Europa esperando que o bom rendimento o colocasse como titular nas competições nacionais, mas permaneceu sem prestígio com o técnico Foguinho. Seria negociado com o Newell’s Old Boys no início de 1962, aos 23 anos. Jogaria na segunda divisão do Campeonato Argentino, mas em uma equipe repleta de brasileiros, em tempos nos quais as agremiações argentinas se reforçavam constantemente com atletas do país vizinho. Mesmo sem conhecer direito o futebol argentino, o jovem transformou as perspectivas de sua carreira com os leprosos. Não à toa, guardou uma gratidão especial pelo clube até o fim da vida, dizendo-se torcedor dos rosarinos pela maneira como foi acolhido. “O Newell’s acreditou em mim, que era desconhecido na Argentina. Eu tinha sido trocado, como se troca um cacho de banana”, apontou, ao Impedimento.

Foram quatro bons anos de João Cardoso em Rosário. O atacante estava no time do Newell’s que retornou à elite do Campeonato Argentino em 1963, após uma disputa nos tribunais com a AFA, que havia impugnado a promoção dos leprosos dois anos antes. Já a atuação mais célebre aconteceu no clássico contra o Rosario Central, dentro do Gigante de Arroyito. Definiu o triunfo por 1 a 0 em 1965 – que, de 1956 a 1980, foi o único dos leprosos na casa dos rivais. “Foi escanteio, o Aguirre chutou e dei um pulo, uma cabeçada. Foi uma grande retranca, o Central era muito superior, favorito. A tática era ‘dez para atrás e Joao à frente’ – o argentino não fala o til. O Gironacci, goleiro do Newell’s, pegou tudo o que era bola e, milagrosamente, conseguimos um escanteio”, afirmou, em entrevista concedida ao Futebol Portenho em 2015.

A reputação de João Cardoso era tão grande no futebol argentino que, em 1966, ele arrumaria as malas para Avellaneda. Porém, defenderia antes o Independiente, então bicampeão da Copa Libertadores. A estreia do gaúcho não poderia ser mais impactante: com golaço e assistência nos 2 a 0 sobre o Boca Juniors, abafando o som da torcida na Bombonera. Também tentou o tri continental com o Rojo, anotando dois gols no quadrangular semifinal, mas quem avançou à decisão foi o River Plate. Seu momento mais doloroso ocorreu neste período, justamente contra o Boca. Sofreu uma séria lesão no pé, que atravancou sua progressão na nova equipe.

“Eu estava no auge da minha carreira, quando me lesionei e, dali, não joguei mais bosta nenhuma”, contou, ao Futebol Portenho. “Quase perdi o pé”. A recuperação foi árdua e o atacante engordou no período, além de sofrer outras lesões menores em seu retorno. Enquanto tentava recuperar a forma, acabou vendido ao rival Racing: “A transferência para o Racing foi discreta e tranquila, fui vendido normalmente, sem problema nenhum. Quando vieram [o pessoal do Racing] falar comigo, já estavam acertados com o Independiente. Naquela época, até a rivalidade entre os clubes era normal. Quando a imprensa soube, eu já estava contratado pelo Racing”. Era um jogador de “rapidez e potência em doses similares”, como definiria o próprio Racing, em sua nota de despedida.

Cardoso se juntava a um time que desejava e começava a igualar os feitos do Independiente. La Academia acabara de faturar o Campeonato Argentino de 1966, sustentando uma histórica invencibilidade de 39 partidas. No entanto, o técnico Juan José Pizutti necessitava de um substituto a Jaime Martinoli, que se lesionara. O gaúcho vestiria a camisa albiceleste justamente para a Libertadores de 1967, juntando-se a uma linha de frente lendária. Aberto na ponta direita, compôs o quinteto ao lado de Humberto Maschio, Norberto Raffo, Juan Carlos Cárdenas e Juan José Rodríguez. Em outros setores, ainda apareciam ídolos do porte de Agustín Cejas, Roberto Perfumo e Alfio Basile.

O Racing protagonizou uma verdadeira maratona naquela Libertadores, em tempos nos quais o torneio continental possuía intrincados regulamentos. La Academia enfrentou um hexagonal na fase de grupos, antes de alcançar o quadrangular semifinal. Cardoso contribuiu com dois gols na primeira etapa do torneio, até que os racinguistas superassem o Universitário nos critérios de desempate para se confirmarem na decisão. Pegariam o Nacional do Uruguai. “Era uma loucura. Tu eras maltratado, xingado, apedrejado. No campo, te atiravam pedra, garrafa. A polícia, em vez de cuidar da gente, batia também”, relembrou, ao Impedimento.

O grande tento da carreira de João Cardoso aconteceu justamente naquela final, no mais importante dos três jogos. O empate sem gols prevaleceu tanto no Cilindro quanto no Centenario. Assim, os oponentes foram obrigados a se enfrentar no Estádio Nacional de Santiago, em 29 de agosto de 1967. A história pendeu ao lado albiceleste graças ao atacante brasileiro. Quando o relógio marcava 14 minutos, os argentinos ganharam uma cobrança de falta no lado esquerdo da área. A bola centrada veio pedindo para ser cabeceada e Cardoso, inteligentemente, deu um leve desvio cruzado. Acertou a lateral da rede do veterano Rogelio Domínguez e correu para o abraço. Raffo ampliou pouco antes do intervalo, enquanto o Bolso só descontou na reta final do segundo tempo, com Milton Viera. O triunfo por 2 a 1 possibilitou a maior glória racinguista. “Aqueles três jogos foram incríveis. Eu diria que, em cada partida, os dois times jogaram por 15 minutos e brigaram por 75. Então, quando vencemos o terceiro jogo, além da emoção da conquista havia também o alívio por não termos mais que brigar”, recontou, ao Esporte Fabico.

Até porque ‘El equipo de José’ não parou por ali. Meses depois, o Racing disputou o Mundial Interclubes contra o Celtic. João Cardoso viu do banco de reservas a derrota por 1 a 0 em Glasgow, mas se tornou titular no reencontro em Avellaneda. La Academia deu o troco com o triunfo por 2 a 1 e forçou o desempate em Montevidéu. Cardoso vestiu a camisa 8 na partida que garantiu o título aos racinguistas, com a vitória por 1 a 0. Juan Carlos Cárdenas anotou o gol decisivo no início do segundo tempo, graças a um chutaço de fora da área, que frustrou a torcida nas arquibancadas. Os 50 mil uruguaios presentes estavam dispostos a intimidar os argentinos. Aquele confronto, ainda mais que os dois anteriores, seria lembrado pelas brigas entre os times, pelas confusões entre torcedores e por outros episódios regados de violência. Nada menos que seis atletas foram expulsos no terceiro encontro, sendo quatro escoceses. Reverenciado pela qualidade técnica, o time albiceleste superou a maior das batalhas para se consagrar como campeão do mundo. Seria aplaudido em todo o país, inclusive pelos rivais.

Cardoso, além do mais, tinha uma visão simples sobre a magia do maior Racing de todos. “A chave sempre é conservar a bola o maior tempo possível e depois fazer com ela algo produtivo. Todos falam do Barcelona, não? E o que fazem? Têm a bola o tempo todo. Não largam. Não inventemos coisas, meu amigo, que não existem”, afirmou em 2011, em entrevista à Página 12, com uma pitada de bom humor. “As pessoas analisam, analisam e analisam como jogou tal equipe ou como jogou aquela outra. Para mim é mais fácil. Ganhamos do Celtic. Conseguimos a Intercontinental. Sabe o que eu sou? Sou campeão do mundo. Volte aqui quando quiser”.

Cardoso permaneceu no Racing até 1968, brilhando ainda em amistoso contra o Bayern de Munique, que inaugurou a iluminação do Cilindro. Defendeu o Náutico na sequência, antes de encerrar a carreira no Newell’s Old Boys. Tinha apenas 30 anos quando decidiu se despedir do futebol e voltar para Porto Alegre, onde mantinha suas raízes. Até tentou ser treinador, mas teve apenas uma efêmera passagem pelo Cruzeiro de Porto Alegre. Longe dos gramados, trabalhou no Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais, onde se aposentou. E que o futebol não fizesse mais parte de sua rotina, o passado do veterano preservava sua importância. Seja em Rosário ou em Avellaneda, permaneceu como um nome bastante lembrado.

A maior prova da idolatria a João Cardoso no Racing aconteceu em 2007. Naquele ano, o clube reuniu seus antigos campeões para comemorar os 40 anos do título da Libertadores e do Mundial. Ao lado dos velhos companheiros, o gaúcho recebeu um enorme reconhecimento dos torcedores no Cilindro, antes de um jogo contra o Boca Juniors. Depois disso, o ex-atacante continuou oferecendo um sorriso no rosto a quem desejasse ouvir suas histórias. Faleceu neste domingo, causando os pesares não apenas nos torcedores de seus clubes, mas também em todos aqueles que puderam conhecer suas façanhas.

Como o Racing escreveu sublimemente, em sua carta de despedida: “O Racing Club, por intermédio de sua comissão diretiva, envia suas respeitosas condolências tanto aos familiares quanto aos amigos e se põe em pé para aplaudir uma figura que perdurará para sempre nas páginas mais gloriosas de sua história e no coração de sua torcida. […] Do mesmo modo que sempre se recordou de João, hoje o Racing lamenta de maneira inevitável sua perda, mas enaltece a memória de alguém que permanecerá para sempre e de maneira inquestionável dentro das páginas mais gloriosas da história acadêmica. Como fez ao longo deste inesquecível 67 com a bola nos pés, hoje Cardoso tocou definitivamente o céu com as mãos, ascendido pelos ventos da eternidade. O Racing se despede com lágrimas nos olhos, mas ao mesmo tempo com um sorriso cheio de emoção e um sentido aplauso, enquanto diz em voz alta: ‘Até sempre, João'”.