Há recordes no futebol que parecem insuperáveis. E assim são os 1.132 minutos invictos de Jairo, número imbatível a um goleiro no Brasileirão desde 1978. O então camisa 1 do Corinthians passou 11 partidas consecutivas sem ser vazado pela competição. Viu outros excelentes arqueiros disputarem o campeonato a partir então, nenhum deles capaz de fechar a meta por tanto tempo. O recorde talvez não seja eterno, mas eterniza a qualidade do Pantera Negra, um dos melhores de sua posição no país durante a década de 1970. O catarinense gravou o seu nome no Parque São Jorge, mas foi ainda maior no Coritiba. Além de outras sequências invictas memoráveis no Coxa, possui uma marca histórica especial: nenhum outro jogador vestiu mais vezes a camisa alviverde do que ele. Gigante (no sentido literal e no figurado) que enfrentou diferentes barreiras durante a carreira, o que não o impediu de construir sua fama. Deixou saudades e boas lembranças, que se tornaram mais comoventes nesta quarta-feira. Aos 72 anos, Jairão faleceu vítima de um câncer, contra o qual lutou durante os últimos meses.

Nascido em Joinville, Jairo deslanchou no futebol graças a uma rifa. Ganhou uma bola de couro e se tornou intocável nas peladas – mas por ser dono da pelota, não exatamente por sua habilidade. De qualquer maneira, não havia um lugar mais natural àquele grandalhão do que o gol. Seus braços enormes e o 1,94m de altura facilitavam bastante o trabalho de proteger a meta. Mais do que tamanho, o rapaz unia segurança e agilidade. Iniciou sua trajetória na base do Caxias local (que posteriormente se fundiria para dar origem ao Joinville Esporte Clube) e, aos 16 anos, já treinava com o time profissional. O garoto que cresceu em uma família de oito irmãos e fez sua formação técnica como mecânico logo deixou seu emprego numa fábrica de geladeiras. O esporte era seu futuro.

A história de Jairo no futebol começaria a ganhar novo patamar a partir de 1969. Aos 22 anos, o catarinense se destacou em amistosos contra o São Bernardo e o Grêmio, considerado o melhor em campo durante ambas as partidas. Atraiu o interesse do Fluminense e seria levado ao Rio de Janeiro, ao lado do atacante Mickey. Permaneceria na reserva, mas já realizava um sonho, se juntando ao time treinado por Telê Santana.

Jairo estava no elenco que conquistou duas edições do Campeonato Carioca e também a Taça Roberto Gomes Pedrosa em 1970. Nas Laranjeiras, podia aprender ainda mais os segredos da posição: afinal, tinha ao lado Félix, goleiro campeão do mundo com a seleção brasileira. O tricampeão se tornou um tutor ao companheiro de ofício e pode contribuir ao seu desenvolvimento. “Félix gostava muito de mim e eu aprendi muito com ele. Sempre que o jogo estava garantido, ele dava um jeito de ter algum problema no joelho para eu entrar. O pessoal já sabia e, no banco, brincavam: ‘Vai lá Jairo, que o Félix resolveu ficar machucado’. E assim eu ganhava o bicho integral. Ele me ajudou muito. Tanto ensinando quanto me dando esta força para que eu reforçasse o meu orçamento”, contaria Jairo em 2013, durante entrevista à Tribuna do Paraná.

As convocações de Félix à Seleção concediam uma brecha maior para Jairo atuar. Todavia, logo o banco de reservas seria um local hostil ao catarinense. Zagallo chegou ao Flu e o jovem bateu de frente com o treinador campeão do mundo. Ao ser rebaixado como terceira opção na posição, Jairão questionou o veterano e acabou deixado de lado. Sem bater com o santo do comandante, o arqueiro desejava novos ares. Por indicação de um dirigente tricolor, retornaria ao Sul e assinaria com o Coritiba. No Alto da Glória, também teria que disputar posição com Célio, em ótima forma. Sem problemas: o Pantera Negra brigaria pela titularidade e logo a tomaria, usando a singular camisa 46 – em referência ao ano de seu nascimento.

A estreia de Jairo no Coritiba aconteceu em fevereiro de 1972. O clube fazia um amistoso contra a seleção do Zaire e empatou por 3 a 3. Segundo suas próprias palavras, foi um início “desastroso” e, mesmo sem ter culpa nos gols, a torcida passou a questionar “se a diretoria não tinha trazido por engano um jogador de basquete, não um goleiro”. Diante das contestações, o novato esquentou o banco e ficou três meses sem atuar. Entretanto, voltou a ganhar uma oportunidade durante uma excursão pela Europa, na qual a equipe terminou condecorada com a Fita Azul, e tomou conta da posição. Depois, auxiliaria na conquista do Campeonato Paranaense. Em 18 partidas, o paredão sofreu apenas seis gols. Além disso, nesta mesma época, sustentou uma invencibilidade de 933 minutos sem buscar a bola no fundo das redes – marca que também permanece como recorde do clube quase 50 anos depois. Erguia-se “A Muralha de Ébano”, como os coxa-brancas gostavam de exaltar Jairão.

Uma das maiores marcas de Jairo, aliás, era o treinamento incessante. Passou a se dedicar plenamente aos exercícios específicos para se aprimorar como goleiro, sobretudo para corrigir deficiências na saída de gol e nas bolas rasteiras. Deixava o campo extenuado, mas logo veria os resultados em seu desempenho nos jogos. “Treinei duro. Enfrentei dificuldades devido ao meu tamanho, mas caprichei nas bolas rasteiras e aprendi. Também não esqueci os exercícios coordenados pelo Odilon, meu treinador de goleiros, para aprimorar meus reflexos e ganhar agilidade. Enfim, para saber o que um goleiro tem que fazer lá dentro”, analisou em 1974, à Placar.

O Campeonato Paranaense passou a ser dominado pelo Coritiba naquela época. Jairo chegou com o time campeão estadual no ano anterior. Ajudaria os alviverdes a emendarem o hexa, participando dos cinco títulos seguintes – e quase sempre sendo decisivo ao Coxa. Reputação que não demorou a ultrapassar os limites do Paraná. Em 1973, a equipe conquistou o Torneio do Povo, competição nacional que reunia as maiores torcidas de diferentes estados. O Pantera Negra não apenas foi um dos protagonistas da campanha, como também passou a ser aclamado como um candidato à seleção brasileira. Teria que esperar um pouco mais.

O racismo, afinal, era um entrave para Jairo. Ele era um goleiro negro no país de Barbosa, vítima de uma ignorância que condenou craques de luvas apenas pela cor da pele. A Muralha de Ébano tinha margens menores aos erros. Da mesma maneira como arrebentar no Coritiba nem sempre era suficiente para a camisa amarela. Foram anos sendo cotado às convocações, sem que elas realmente acontecessem.

Em março de 1973, por exemplo, a Placar apontou dois goleiros negros como possibilidades à Seleção: Neneca, do América Mineiro, e o próprio Jairo, do Coritiba. O catarinense se sentia lisonjeado, como declararia à revista: “É, já ouvi muito jornalista falando nisso, até o Saldanha. Claro que tenho esperanças e sei que minha oportunidade está neste Brasileiro. Por isso estou fazendo uma força danada. Para quem colecionava figurinhas do Gilmar e gostava de ir ao cinema, não para ver bangue-bangues, mas o Veludo, que eu tanto admirava, parece que começo a ver realizados todos os meus sonhos”. Veludo, seu ídolo, havia sido justamente o último arqueiro negro a defender a meta da equipe nacional, no já longínquo ano de 1954.

Os clamores se ampliavam ano após ano, diante das atuações grandiosas do catarinense no Paraná. A chance de Jairo veio, enfim, em 1976. Em abril, era ele o goleiro do Brasil na Copa Rio Branco, torneio anual disputado contra o Uruguai. Deu sua contribuição na vitória por 2 a 1. O time de Osvaldo Brandão balançou as redes com Zico e Rivellino, em escalação que ainda contou com Roberto Dinamite, Enéas e Gil. Um duelo normalmente lembrado pela briga generalizada no Maracanã, mas que significaria bastante ao seu camisa 1. A Muralha de Ébano rompia o hiato aos arqueiros negros, o primeiro na meta da equipe nacional desde seu adorado Veludo.

Convocado a outras partidas, inclusive pelas Eliminatórias, Jairo não voltaria a jogar pelo Brasil. Em compensação, o trabalho renderia frutos meses depois. Em dezembro de 1976, chegou ao Corinthians. Aos 30 anos, podia exibir sua excelente forma na capital paulista. Por conta da grande fase de Tobias, só estreou em abril do ano seguinte. E enfrentou dificuldades em sua adaptação no Parque São Jorge, não apenas por isso. Sua primeira sequência aconteceu na malfadada campanha pela Libertadores de 1977 e os resultados ruins geraram cobranças. Além disso, o Pantera Negra encarava um drama pessoal em casa. Sua esposa perdeu um bebê e precisou passar um tempo internada.

“A gente sente medo, ou receio, nos primeiros tempos, nos primeiros momentos de uma situação. Mas depois a gente não sente mais. Não pode sentir. Nem mesmo da vida em si. E eu acho que não preciso ter medo de nada, porque sempre procuro fazer as coisas certas, sem prejudicar ninguém, um colega de profissão ou um estranho. E é por isso que as coisas acabam dando certo para mim. Quando se age com honestidade, sempre dá certo. É muito importante a gente não desejar a desgraça dos outros”, declararia à Placar, em setembro de 1978, refletindo sobre os problemas em seu desembarque a São Paulo.

Foi justamente Osvaldo Brandão, de volta ao Corinthians, quem começou a ampliar o espaço de Jairo. E o goleiro teria a sua importância na conquista do Paulistão de 1977, que rompeu o agonizante jejum de 23 anos aos alvinegros. A partir do fim do primeiro turno, disputou 15 partidas naquela campanha, ficando sem tomar gols em 10 delas. Além disso, também atuou no segundo jogo das finais contra a Ponte Preta. Tobias foi mais presente no campeonato, mas isso não diminuía a contribuição da Muralha de Ébano para que o tabu tivesse o seu tão aguardado fim.

Brandão começou a revezar seus goleiros na meta do Corinthians, o que se seguiu em 1978. E a falta de sequência se refletia em desconfiança, com críticas aos dois candidatos à posição. Nos primeiros meses daquele ano, a diretoria agiu de maneira bem contestável com Jairo. Ofereceu uma renovação de seu contrato, mas por apenas três meses e sem aumento do salário, “como um teste”. Pois a resposta não tardaria, sobretudo no Brasileirão.

Logo Jairo conseguiu atingir a sua sequência histórica na competição. De um jogo contra o Londrina a outro contra o Botafogo, vieram os 1.132 minutos inigualáveis. À medida que as rodadas iam se somando, havia mais pressão sobre o Pantera Negra, com a árdua missão de superar os 1.057 minutos registrados por Leão em 1973, pelo Palmeiras. Romperia o feito, com o justo auxílio de uma defesa muito qualificada, na qual atuavam Zé Maria, Ademir, Moisés e Wladimir. “O segredo era a união. Nos dávamos muito bem. Além disso, tínhamos um time coeso, um cobria o erro do outro. Isso facilitava muito”, declarou o veterano, em entrevista à Agência Estado em 2014. Nomes como Acácio, Rogério Ceni e Marcelo Grohe até rondaram mil minutos depois disso. Ninguém que tenha batido a façanha, mesmo 40 anos depois.

O recorde permitiu que Jairo conseguisse seu merecido aumento em cinco minutos de conversas com os dirigentes. E o Pantera Negra iniciaria 1979 como titular absoluto do Corinthians. Daria sua contribuição na conquista de mais um título paulista, segurando a Ponte Preta nas finais do estadual. Já o momento mais difícil aconteceu em 1980, justamente numa visita ao Coritiba pela terceira fase do Brasileirão. Os alviverdes venceram por 1 a 0, graças a uma bomba de Vilson Tadei de fora da área. Vicente Matheus criticou publicamente o arqueiro, dizendo que ele pegaria a bola se estivesse no gol – mas com um tom que soou como preconceito pela cor da pele do seu funcionário. Em resposta, no jogo seguinte os alvinegros golearam o Grêmio por 5 a 0. Na comemoração, graças a uma ideia dada por Sócrates, os companheiros correram até a outra área para abraçar Jairão. A torcida, por sua vez, comemorava cada bola recuada ao seu paredão.

As rusgas com o presidente levaram Jairo a ser repassado ao Náutico em 1981. Terminou sua história no Corinthians com 189 partidas disputadas e 144 gols sofridos. Em Recife, ainda se colocaria novamente entre os melhores goleiros do Brasileiro. De qualquer forma, não demoraria a retornar ao Coritiba, em 1983. Já não seria titular absoluto ao longo desta segunda passagem, à beira de completar 40 anos. Mas, assim como fez Félix, auxiliaria na ascensão de Rafael Camarotta como seu sucessor. Apesar do protagonismo do colega, Jairo daria sua contribuição na conquista do Brasileirão de 1985. Rafael estava suspenso para o primeiro jogo contra o Atlético Mineiro nas semifinais e a Muralha de Ébano evidenciou toda a sua idolatria no Couto Pereira. Jogou demais e garantiu a vitória por 1 a 0. Após o empate sem gols no Mineirão, os alviverdes se confirmaram na inesquecível final contra o Bangu. Mais uma vez Jairão deu a volta olímpica.

Jairo ainda conquistou o Paranaense em 1986 com o Coritiba. O Pantera Negra permaneceu no Alto da Glória até 1987, chegando à marca de 410 partidas pela agremiação, mais do que qualquer outro futebolista na história alviverde. Depois, passou pelo futebol mineiro, defendendo América e Atlético de Três Corações, antes de pendurar as luvas com a camisa do Trespontense em 1991. Que a ascensão tenha demorado um pouco, não se negava a grandeza do que construiu o goleiraço. Foram três títulos nacionais ao longo da carreira, além de significativos nove estaduais. Na década de 1970, a única temporada em que o arqueiro terminou sem uma taça importante foi a de 1978.

Aposentado como jogador, Jairo continuou trabalhando no futebol. Era preparador de goleiros e chegou mesmo a voltar ao Coritiba, recebendo os dignos aplausos da torcida no Alto da Glória. As homenagens não cessavam ao homem de sorriso aberto, sempre solícito para atender quem o reconhecesse, mas consciente de sua luta ao longo da vida. Nos últimos meses, contaria com o apoio daqueles que vibraram com seu futebol, para tentar sobreviver a um tipo raro de câncer nos rins. Diante dos altos custos de seu tratamento, no fim de 2018 foi lançada uma vaquinha para bancar os gastos, com a contribuição de Corinthians e Coritiba. Nada mais justo ao ídolo. No entanto, a batalha acabou perdida nesta quarta. Momento de mais tributos ao Pantera Negra, tão emotivos quanto aqueles que recebeu em vida.