O testemunho de Lord Triesman, antigo presidente da Football Association, ao parlamento britânico em 2011 poderia muito bem ser adaptado por Francis Ford Coppola. O relato do dirigente sobre as negociações para que a Inglaterra recebesse a Copa do Mundo de 2018 lembravam as cenas de O Poderoso Chefão. O dirigente, de fato, precisou pedir a benção aos “padrinhos” da Fifa. Alguns exigiam dinheiro, outros perguntavam o que ele poderia oferecer. Mas ninguém superou a vaidade de Nicolás Leoz, então presidente da Conmebol.

O mandatário não queria necessariamente aumentar a sua fortuna – que já estava gorda após décadas de propina, algo comprovado pouco tempo depois. Acima de tudo, o paraguaio desejava massagear o seu próprio ego. Àquela altura da vida, o octogenário ambicionava a honra de ver seu nome condecorado da maneira mais nobre possível. E poucas pomposidades competem com o título de cavaleiro da Ordem do Império Britânico. Sim, Leoz pediu para se tornar “Sir Nicolás Leoz”. Em troca, a Inglaterra teria seu voto como sede à Copa de 2018.

O complemento desta história soa como galhofa, mas não se duvida da excentricidade da cartolagem que controlou o futebol mundial por tanto tempo. Segundo o jornalista Andrew Jennings, um dos aliciadores de Leoz ainda cochichou algo no ouvido de Lord Triesman. Disse que o voto seria certo caso a Football Association resolvesse rebatizar a Copa da Inglaterra. A simples menção a uma renomeada “Copa Sir Nicolás Leoz” é o símbolo máximo da mentalidade gananciosamente fértil do paraguaio e de seus comparsas na Conmebol / Fifa.

O mais anedótico é que aquela nem era a primeira vez que Nicolás Leoz pedia para ser “Sir”. Em 2007, quando a Inglaterra apenas estudava a possibilidade de se candidatar como sede à Copa do Mundo, o paraguaio manifestara o seu sonho de princesa. Entrou em contato com um deputado britânico para passar alguns dias em Londres e conversar sobre a honraria. O político rechaçou a conversa e apontou que não era desta maneira que as coisas funcionavam no país.

Nicolás Leoz nunca realizou o desejo de se tornar “Sir”. No máximo, emprestou o seu nome ao troféu do Superclássico das Américas, um carinho de seus amigos Ricardo Teixeira e Julio Grondona. Porém, quando a corrupção à frente da Conmebol e da Fifa realmente veio à tona, ele perdeu até a homenagem em uma avenida costeira na cidade de Coquimbo. O único reconhecimento que prevaleceu foi na alcunha do estádio do Libertad, seu curral eleitoral, que permitiu a escalada de poder.

Nesta quarta-feira, Nicolás Leoz faleceu aos 90 anos. Respeito à família e aos amigos prestados, o futebol não sentirá falta de sua figura. Jornalista e professor, começou a se envolver com o esporte na década de 1950, após estudar Direito. Primeiro fez parte do Tribunal de Justiça da Confederação Paraguaia de Basquete, antes de assumir o Libertad em 1968. O dirigente subiu de posto e presidiu a Associação de Paraguaia de Futebol em dois mandatos a partir de 1971. Graças à amizade com gente como João Havelange, ganhou o apoio para encabeçar a Conmebol em 1986. Permaneceu por intermináveis 27 anos à frente da confederação, período marcado pela estagnação e pela dilapidação do futebol no continente, em que ele mesmo arquitetou o propinoduto. Seria brindado pelos amigos com o cargo vitalício. Caiu antes disso, em 2013, sem mais quem o segurasse.

Oficialmente, Leoz saiu de cena na Conmebol por conta da saúde frágil. Mas sua decisão também parecia bastante conveniente, para dizer o mínimo, já que ao mesmo tempo as denúncias de corrupção contra a sua gestão se tornavam mais concretas. Enquanto presidiu a entidade, o paraguaio ganhou homenagens, honrarias e títulos pessoais. Sobretudo, embolsou dinheiro para manter a roda de sujeira do futebol em movimento. Chegou à cifra dos milhões de dólares faturados com esquemas obscuros de suborno, beneficiando-se da Conmebol e do posto como membro-executivo da Fifa.

Já em 2015, durante o estouro do Fifagate, Leoz também se safou da prisão graças à sua saúde. Com compromissos médicos em Assunção, não estava em Zurique no momento em que outros cartolas de sua laia terminaram detidos. O governo americano chegou a pedir a extradição do paraguaio, protegido pelo governo de seu país. Ao final, precisou passar os últimos anos de sua vida em prisão domiciliar, não tão distante das riquezas que o futebol já lhe garantira da maneira indevida.

A Conmebol não é exatamente melhor sem Nicolás Leoz. Mudaram as faces, mas velhos problemas e conluios permanecem. Ainda assim, vai demorar um tempo para que algum de seus sucessores supere a imagem corrupta e degradada do aspirante a “Sir”. Foi-se o último Rei do Paraguai. Viveu bem por aquilo que o futebol lhe deu, a despeito e às custas do próprio futebol sul-americano.