*Por Irlan Simões

No dia 26 de maio, o Fantástico apresentou uma longa reportagem sobre o Cruzeiro, onde denunciava uma série de irregularidades cometidas pela atual gestão do clube mineiro. Sem entrar no mérito da longa lista de atividades ilegais – como pagamentos irregulares, contratos fraudados, negociações ilegais sobre direitos econômicos de jogadores e pagamentos exorbitantes para dirigentes –, o caso do Cruzeiro é uma ótima oportunidade para discutir algo mais profundo:  a importância da democratização dos clubes no Brasil.

Destaco esse tema, em meio a tantos elementos de discussão, porque não há dúvidas de que parte considerável dos clubes brasileiros está sendo vitimada pelos mesmos tipos de tenebrosas transações. São práticas irregulares encobertas (ou mantidas na obscuridade) por relações de favorecimento mútuo, que se reproduzem graças à estrutura política concentradoras, restritivas e fechadas dos clubes brasileiros.

Na maioria dessas instituições, muitas vezes centenárias, apenas um punhado de sócios possui direitos políticos – portanto, com a permissão de discutir e definir seus rumos. O acesso à “cidadania do clube” é difícil e custoso, estabelecido a partir várias barreiras ao torcedor comum, que se vê ainda mais distanciado dos órgãos decisórios da instituição.  

Associações civis, como são os clubes esportivos brasileiros, são formadas por três órgãos que reproduzem propostas republicanas: Conselho Diretor (executivo), Conselho Deliberativo (legislativo) e Conselho Fiscal (judiciário). Em tese, esses órgãos são independentes e deveriam equilibrar as forças no clube, garantindo a existência de contra-poderes – tanto capazes de fiscalizar e investigar possíveis atos de má gestão, quanto de formar oposições propositivas e empenhadas em promover melhorias.

Décadas após o processo de massificação dos clubes brasileiros, o que se vê é uma estrutura que ainda remonta aos tempos do futebol amador, onde apenas um punhado de sócios possui direitos políticos. No Flamengo, isso custa 15 mil reais. No Cruzeiro, só torna-se um “cidadão” após a indicação de pessoas que já estão dentro do clube. Uma lógica que faz com que os órgãos (poderes) desses clubes sejam compostos historicamente pelas mesmas pessoas, ou pelas mesmas facções que negociam entre si o poder dentro das instituições.

Basta analisar a situação do Cruzeiro pelo seguinte viés: Wagner Pires de Sá foi eleito com 235 votos, contra 200 da atual oposição (a mesma que hoje denuncia as irregularidades), compondo um colegiado de menos de mil pessoas, que representam uma massa de quase 90 mil sócios-torcedores.

Essas facções presentes dentro dos clubes raramente quebram um acordo de cavalheiros que garante um pedaço do bolo para cada um. Mas foi o que ocorreu na Raposa: sufocado e sem acesso a documentos, o Conselho Fiscal (judiciário) renunciou e agora promove o ataque ao grupo da situação. Denunciaram também que diversos membros do Conselho Deliberativo (legislativo) foram agraciados com presentes, jantares e bajulação, de modo a aprovar um empréstimo de 300 milhões de reais – altamente prejudicial aos cofres do clube – no início de 2019. Mais de 200 conselheiros do Cruzeiro são “natos”, isto é vitalícios, que não precisam ser eleitos e cujo título é transmitido por gerações.

Isso acontece mesmo após a larga difusão dos planos de sócios-torcedores nos anos 1990, que traziam uma proposta de aproximação do torcedor comum da instituição – sem, no entanto, ter correspondência real aos seus direitos políticos. A ideia surgia em um contexto de proposição de uma nova receita e de desmobilização das torcidas organizadas, que teve sucesso por dois motivos principais: a facilitação do acesso aos ingressos, mas, principalmente, à sensação que transmitia de pertencimento.

Arrisco dizer que o Novo Código Civil, que entrou em vigor em 2003, pode ter provocado um avanço nas discussões da competência das modalidades de associação dos torcedores. Se por um lado se propunha a ser um mero pacote de ingressos promocionais para toda a temporada, o caráter “associativo” desses planos (às vezes presente nos estatutos dessas instituições) provocava discussões quanto aos direitos desses associados em assembleias do clube, incluindo aí as eleitorais.

Sugiro essa questão por perceber os anos 2000 como um momento histórico de crescimento das discussões sobre a participação dos sócios-torcedores nos clubes, e a consequente democratização dessas instituições. Aqui está ainda a nível de hipótese, demandando uma pesquisa mais aprofundada com os atores que estiveram presentes nessas discussões, uma vez que estava em xeque a distinção dos clubes esportivos dentre o conjunto geral de associações civis, podendo esses respeitarem ou não as novas normas de eleição direta para dirigentes.  

Poucos clubes de grande e médio porte no Brasil autorizam os seus sócios-torcedores a participar de suas eleições. Internacional, Grêmio – já destacando aqui o pioneirismo dos clubes gaúchos nesse processo –, Bahia, Vitória, Santos, Fluminense, Athletico Paranaense, Coritiba, Náutico, ABC e mais uns poucos promovem a inserção do torcedor comum associado na discussão política do clube.

Em distintos graus, esses clubes autorizam o sócio-torcedor a votar no presidente que mais lhe agrada e, em alguns casos, a compor ele mesmo uma chapa para o Deliberativo (legislativo) e Fiscal (judiciário), ou mesmo se candidatar a presidente. Vale destacar que não há um padrão dentro desses clubes, tendo alguns deles restrições problemáticas quanto à composição do Conselho Deliberativo não-proporcional – isto é, formado integralmente por membros da mesma chapa (e, portanto, pouco contestador frente à gestão eleita na ocasião).

Em suma, em clubes aristocráticos como o Cruzeiro, os sócios com direitos políticos falam eternamente entre si, sobre si e para si. Em clubes democráticos, como os citados, a conversa precisa ser feita com dezenas de milhares de sócios aptos a votar. Em clubes onde não restam um punhado de sócios com controle político sobre a instituição, a possibilidade de formação de oposições reais e fiscalizadoras (e não apenas facções descontentes) é muito maior e mais viável.

Esse efeito é real até na punição aos maus gestores, como serve de exemplo o caso recente do Internacional, onde o segmento de torcedores de arquibancada do Conselho Deliberativo foi responsável por acionar o Ministério Público para investigar as irregularidades cometidas pela gestão Píffero. Um movimento impensável no velho modelo de troca de favores entre poucos sócios.

Democratizar os clubes de futebol no Brasil é dar ao seu torcedor o poder de decisão, tornando mais legítima uma gestão em curso; e é garantir maior poder de fiscalização sobre a gestão de recursos de quase meio bilhão de reais. Democratizar os clubes de futebol é dotar a instituição de debates concretos sobre seu futuro, é empoderar os órgãos fiscalizadores e quebrar a lógica dos conchavos e amiguismos que geram aberrações como o que ocorreu ao Cruzeiro.

Democratizar os clubes de futebol é, portanto, uma alternativa muito mais concreta e viável ao controle dos maus gestores, abrindo a possibilidade de destituição através da escolha coletiva dos sócios. Mais seguro do que a mera transformação em empresas (ou a transferência da competência da gestão do futebol, como propõe um modelo recente), de forma alguma imunes a esquemas de corrupção e má gestão, como podemos detectar em diversos países europeus, como Itália, Espanha, França, Portugal e Inglaterra.

Irlan Simões é criador do podcast Na Bancada (www.nabancada.online), pesquisador (LEME/PPGCom/UERJ) e autor do livro “Clientes versus Rebeldes – Novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno”.