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Blatter acusa Uefa de manipular sorteios e traz à tona escândalos dos anos 60 e 70 na Europa

Joseph Blatter está soltinho desde que deixou a presidência da Fifa. Deu uma longa entrevista ao jornal argentino La Nación, falou sobre Julio Grondona, ex-presidente da AFA e sua relação de anos com o cartola. E falou sobre falcatruas em sorteios. Não da Fifa, diz ele. Da Uefa. Ele acusou um ex-dirigente, Artemio Franchi, de dirigir os sorteios para beneficiar alguns times. E as acusações contra o italiano, feitas por um jornalista inglês, levantam suspeitas sobre a sua conduta. Mais: trazem à tona escândalos que surgiram nos anos 1960 e 1970, mas que nunca foram comprovados – e assim continuam, aliás.

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A pergunta do repórter argentino foi sobre o sorteio da Copa do Mundo de 2014, que teria sido bastante favorável à Argentina. Havia uma especulação sobre a relação entre Grondona e Blatter: quando ela ia bem, o sorteio era favorável aos argentinos; quando não, a albiceleste pagava o preço. Blatter, claro, negou. Mas tratou de acusar um ex-dirigente europeu de dirigir os sorteios.

La Nación: A propósito do sorteio para o Brasil 2014, que foi extremamente benévolo para a Argentina. Circulou sempre a teoria discutível que se Grondona e Blatter brigavam, a Argentina pagava com um mau sorteio. E que se estavam bem, acontecia o contrário. Você tinha esse poder?

Joseph Blatter: Só uma pessoa tinha esse poder na Europa. Artemio Franchi o fazia para o sorteio dos torneios de clubes. Eu não fiz para a Copa de 1978. Mas com a minha magia, fazia tudo. Mais uma vez: estou apenas brincando. O sorteio foi limpo até o último detalhe. Eu nunca toquei as bolinhas, coisa que outros, sim, faziam. Claro, se pode sinalizá-las, esquentando-as ou esfriando-as.

La Nación: Bolas frias e bolas quentes. Isso existe então.

Blatter: Claro que é tecnicamente possível. Não existem na Fifa, mas eu testemunhei sorteios, em nível europeu, em que isso aconteceu. Mas nunca na Fifa. Claro que pode acontecer, mas no meu caso jamais aconteceu, jamais.

La Nación: Como funciona exatamente?

Blatter: Colocam-se as bolinhas antes na geladeira. A mera comparação entre umas e outras ao tocá-las já determinas as bolas frias e quentes. Ao tocá-las já se sabe que há.

As acusações contra Franchi e com quem ele se relacionava

O italiano Artemio Franchi foi presidente da FIGC (Federazione Italiana Gioco Calcio, a Federação Italiana de Futebol) entre 1967 e 1976 e depois entre 1978 e 1980. Durante parte deste período, entre 1973 e 1983, foi o presidente da Uefa, além de membro do Comitê Executivo da Fifa entre 1974 e 1983, ano que morreu em um acidente de carro. Tinha 61 anos. Está no Hall da Fama do futebol italiano e seu nome batiza os estádios da Fiorentina e do Siena, clubes que são das cidades do seu nascimento e morte, respectivamente.

Em 1974, Artemio Franchi foi acusado pelo jornalista inglês Brian Glanville de ajudar Italo Allodi, um ex-jogador e dirigente italiano, a manipular resultados com o húngaro Deszo Solti, que era o responsável por convencer os árbitros a manipularem os resultados. Allodi, com ajuda de Franchi, teria subornado os árbitros, ou tentado subornar, para favorecerem as equipes italianas.

Três episódios se destacam na acusação feita por Glanville. Em 1964, um árbitro iugoslavo, Tesanic, não expulsou um jogador da Inter contra o Borussia Dortmund que teria agredido com chutes o adversário. Ele supostamente foi de férias para o mar Adriático com as contas pagas pela Inter. Os italianos eliminaram os alemães, depois de um 2 a 2 em Dortmund e vitória por 2 a 0 em Milão, e venceram o Real Madrid, conquistado seu primeiro título europeu.

Em 1965, o Liverpool se sentiu prejudicado pelo árbitro espanhol Ortiz de Mendibil e a indignação pela atuação do apitador foi tamanha que o zagueiro Tommy Smith o agrediu com chutes até a entrada do vestiário. O adversário tinha sido de novo a Inter. O time italiano eliminaria o Liverpool, depois de perder por 3 a 1 na Inglaterra e vencer por 3 a 0 em Milão e levantaria a taça contra o Benfica, sua segunda consecutiva.

Em 1966, um árbitro húngaro teria sido levado à residência de Angelo Moratti – presidente da Inter da época e pai de Massimo Moratti, que seria presidente do clube anos depois – e recebeu propostas de diversos presentes, na presença de Solti e Allodi. Ele não teria aceitado manipular o resultado contra o Real Madrid, na semifinal. A Inter acabou eliminada, depois de perder em Madri por 1 a 0 e empatar em Milão por 1 a 1. O árbitro nunca mais teria sido designado a nenhuma partida em nível europeu. As acusações, porém, nunca foram provadas.

Em 1973, a Juventus foi acusada de tentar subornar o árbitro português Fernando Marques Lobo na semifinal da Copa dos Campeões contra o Derby County. Soldi e Allodi foram acusados de tentar manipular o resultado do jogo. O Comitê Disciplinar da Uefa inocentou a Juventus, mas suspendeu Soldi.

As manipulações teriam favorecido os times que trabalhou, Inter (1959 a 1967) e Juventus (1970 a 1973). O favorecimento à seleção italiana teria sido, segundo as acusações, enquanto ele foi o responsável pelo centro de treinamento da Azzurra, Coverciano, entre 1974 e 1982. Ele ainda trabalharia na Fiorentina e no Napoli, que foi campeão italiano pela primeira vez no primeiro dos seus cinco anos no cargo de diretor geral no clube. Foi também nesta época que ele teve que prestar contas a tribunais esportivos e acabou inocentado das acusações.

Como se vê, há muita coisa suspeita ao se puxar o nome de Artemio Franchi e de quem ele se relacionava, ao menos segundo as acusações feitas na época. Blatter joga uma acusação séria que precisa ser investigada. Sempre houve desconfianças sobre sorteios, mas não passaram disso, ao menos nunca se conseguiu provar qualquer tipo de influência deliberada e irregular. Se houve esse tipo de manipulação de sorteio no passado, levanta suspeitas sobre o que é feito atualmente também. Contudo, é bom lembrar que se trata de Joseph Blatter. É preciso investigar, antes de tudo, até porque confiar na palavra de Blatter é como escrever na areia do mar.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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