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BBC revela esquema de tráfico de africanos para jogar futebol na Ásia

Se a Fifa considerava um problema o assédio do Barcelona a atletas jovens de outros países e por isso puniu o clube catalão limitando sua ação no mercado de transferências, o que dizer de um time que tira uma série de garotos de seu país, fazendo mil promessas e entregando apenas condições de trabalho deploráveis? Segundo reportagem investigativa da BBC, é isso o que o Champasak United, do Laos, está fazendo com garotos da África Ocidental. Ao todo, 23 menores de idade, incluindo atletas de apenas 14 e 15 anos, foram levados para o país asiático e forçados a assinar contratos. Desses, seis ainda permanecem no clube.

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A ida dos jogadores menores de idade para o Champasak aconteceu por intermédio de Alex Karmo, ex-jogador da seleção liberiana e capitão do time de Laos à época da viagem dos garotos. Diante da inexistência de categorias de base nestes países da África Ocidental, sobretudo a Libéria, os garotos acreditaram nas promessas de que chegariam a Laos e teriam onde se desenvolver. Ao chegar no país, no entanto, os meninos teriam sido obrigados a firmar contratos longos, de até seis anos de duração, e teriam descoberto que na verdade não há estrutura nenhuma de formação. “É uma academia fictícia, que nunca foi estabelecida legalmente. É uma ‘academia’ sem treinador nem médico. Karmo era o técnico, o empresário, tudo. Era um absurdo completo”, explicou à BBC Wleh Bedell, promotor esportivo liberiano que, também enganado por Karmo, levou os jogadores até Laos.

A inexistência de uma categoria de base não foi a única quebra de expectativa que os garotos enfrentaram ao chegar a Laos. Ao acertar com o clube, os rapazes receberam a promessa de que teriam um salário regular, acomodação aceitável e refeições garantidas. Mas segundo Bedell e alguns dos garotos que conseguiram retornar à Libéria, a história é bem diferente. “Foi muito ruim, porque não dá para 30 pessoas dormirem em uma sala”, revelou Kesselly Kamara, de 14 anos, que, junto com os outros atletas vindos da África, dormia no chão do Estádio Champasak, em que a equipe manda seus jogos. Segundo Kamara, o local sequer tinha janelas, o que dificultava o sono: “É difícil viver em um lugar sem janelas. Fica muito difícil de dormir, porque você fica pensando na vida.”

Alguns dos que já retornaram à Libéria disseram à BBC que mal eram alimentados, raramente recebiam e não tinham assistência médica, mesmo tendo contraído malária e tifóide por causa das condições de estadia. Um deles chegou a comparar as condições à escravidão. Com a bagagem histórica de quem sobreviveu a um conflito civil, o promotor esportivo Bedell foi contundente ao descrever o local em que os atletas são acomodados no Champasak: “Os jogadores estão neste lugar selvagem, que lembra os tempos de guerra civil na Libéria, quando as pessoas deixaram suas casas e foram deslocadas para abrigos”.

Segundo a Fifpro (Federação Internacional dos Jogadores de Futebol Profissionais), uma das responsáveis pela pressão exercida sobre o Champasak há três meses – que resultou na liberação de 17 dos garotos –, Alex Karmo e Phonesavanh Khieulavong, presidente do clube, foram aqueles que apresentaram aos garotos os contratos. O mandatário do time nega que algum acerto contratual tenha sido feito com menores de idade, mas reconhece que conta com um garoto da Guiné, de apenas 16 anos, em seu elenco. Bedell desmente Khieulavong e afirma que outros cinco garotos liberianos ainda estão no time, vivendo sob condições “deploráveis e perturbadoras”.

Todos os seis que permaneceram o fizeram por escolha, ainda que indireta, como é o caso de um deles cuja mãe vê no clube de Laos a chance de seu filho construir uma carreira. Mas se a vontade deles fosse diferente, sua situação ainda seria complicada, já que estão impossibilitados de deixarem o estádio porque seus vistos de trabalho venceram e seus passaportes estão sob posse do clube. Mesmo a expectativa de receber novos vistos de trabalho é uma alternativa difícil, pelo fato de serem menores de idade.

Stephane Burchkalter, dirigente da Fifpro, expressou sua perplexidade com a situação específica dos garotos africanos e disse ter receio de que seja apenas a ponta do iceberg. “Essa situação é muita séria. É chocante para a Fifpro que um clube de Laos, que, com todo o respeito, é um país muito pequeno em termos de futebol, consiga atrair jogadores menores de idade da Libéria sem que a Fifa note”, comentou. Estima-se que 15 mil jogadores adolescentes são levados da África Ocidental a cada ano, muitos deles ilegalmente. Por esse número alto, é bem possível que o temor de Burchkalter seja justificado. Em meio a todo o turbilhão de coisas com que tem tido que lidar, a Fifa precisará encontrar um tempo para cooperar na solução também desta questão, especialmente após a repercussão que a investigação da BBC deverá ter.

Via BBC

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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