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Panenka, criador da cavadinha, e os 50 anos do pênalti mais incrível do futebol: ‘Certeza que iria marcar’

Ele criou um dos lances mais geniais do futebol mundial e agora revive tudo que passou desde então

O dia 20 de junho de 1976 reservou uma final histórica da Eurocopa. De um lado, a Alemanha Ocidental, que dois anos antes havia sida campeã da Copa do Mundo contra os Países Baixos de Johan Cruyff e companhia. Do outro, a Tchecoslováquia, que estava a uma cobrança de pênalti de conquistar o título inédito do principal torneio da Uefa. Antonín Panenka pegou a bola e entrou para a história do futebol.

Enquanto todos os outros jogadores escolhiam um canto para bater, o meia fez uma corrida agressiva e esperou o grande goleiro alemão Sepp Maier se antecipar para o lado esquerdo. Pouco antes de encostar na bola, o camisa 8 da seleção tchecoslovaca desacelerou a passada e bateu no meio do gol de cavadinha (termo mais conhecido aqui no Brasil). Ou melhor, à lá Panenka (como a cavadinha é conhecida na Europa).

Mais do que garantir a única Euro da história do país, o meia de então 27 anos virou sinônimo do pênalti mais ousado do esporte. Ao longo dos últimos 50 anos, nomes como Djalminha, Zinedine Zidane e Loco Abreu repetiram a cobrança de Panenka com sucesso. Por outro lado, Gary Lineker, Alexandre Pato e Brahim Díaz não tiveram o mesmo desfecho na cavadinha.

Em entrevista ao jornal “The Guardian”, o eterno camisa 8 da Tchecoslováquia relembra como revolucionou as cobranças penais. Agora com 77 anos, Antonín Panenka fala com orgulho sobre como a cavadinha se firmou como uma tradição no futebol. Mas, em tom bem-humorado, ele compartilhou sua única tristeza.

— É pura alegria ver esses jogadores cobrando meu pênalti. A única desvantagem é que não recebo nenhum direito autoral por isso — brincou o ex-meia.

Como Antonín criou a Panenka?

Antonin cobra pênalti Panenka contra Sepp Maier, durante final da Eurocopa 1976 entre Tchecoslováquia x Alemanha Ocidental (Foto: Imago/Sven Simon)
Antonin cobra pênalti Panenka contra Sepp Maier, durante final da Eurocopa 1976 entre Tchecoslováquia x Alemanha Ocidental (Foto: Imago/Sven Simon)

Se engana quem pensa que Panenka criou a cavadinha de improviso na decisão contra os alemães. Em 1974, o meia criativo do Bohemians 1905 iniciou uma competição amistosa de pênaltis com o goleiro do clube, Zdenek Hruska. Todos os dias, a dupla treinava o fundamento após os treinos.

Competitivo, Antonín Panenka fez uma aposta: se Hruska não pegasse nenhuma de suas cinco cobranças, ele teria que lhe comprar cervejas ou chocolates. Caso o arqueiro defendesse apenas um pênalti, o meia faria o pagamento. Só que Zdenek começou a se sobressair no desafio, deixando-o no prejuízo. Foi nesse momento que o camisa 8 tchecoslovaco bolou a solução genial.

— Comecei a pensar em como os goleiros tendem a cair para um lado ou para o outro, e tive a ideia de simplesmente encobrir a bola bem no meio. E funcionou imediatamente — conta Panenka.

Com as cavadinhas, o meia do Bohemians 1905 reverteu o cenário da aposta, sendo recompensado com chocolates e cervejas pagas por Zdenek Hruska, cujas guloseimas renderam alguns quilinhos a mais. E se a estratégia vinha dando certo nos treinos, Antonín Panenka decidiu ocasionalmente utilizar o estilo das cobranças penais em amistosos e jogos do campeonato nacional.

Antonín Panenka a serviço da seleção tchecoslovaca, em 1980 (Foto: Imago/Pressefoto Baumann)
Antonín Panenka a serviço da seleção tchecoslovaca, em 1980 (Foto: Imago/Pressefoto Baumann)

À época, o camisa 8 da Tchecoslováquia ainda não era reconhecido internacionalmente. Por conta disso, em meio à preparação para a Eurocopa realizada na Iugoslávia, Panenka decidiu que iria bater um pênalti de cavadinha na competição caso tivesse a oportunidade.

— Eu sempre soube que só havia uma maneira de fazer isso, simplesmente porque ninguém tinha feito antes e ninguém jamais pensaria que eu conseguiria, especialmente em uma final. Eu não tinha 100% de certeza de que marcaria. Eu tinha 1.000% de certeza — declarou o ex-jogador.

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Tchecoslováquia x Alemanha Ocidental

A final da Eurocopa no Estádio Estrela Vermelha, em Belgrado, terminou empatada por 2 a 2 após a prorrogação. A princípio, haveria uma partida de desempate, mas a Federação Alemã de Futebol fez um pedido para que o título fosse definido nos pênaltis, algo que nunca havia acontecido nos principais torneios internacionais.

Antonín Panenka argumenta que os organizadores do torneio foram influenciados dessa decisão porque a Alemanha Ocidental já tinha reservado suas férias. Bastidores à parte, ambas as seleções converteram as três primeiras cobranças, mas Uli Hoeness errou a penúltima e fez a Tchecoslováquia chegar à quinta batida dependendo de um gol para ser campeã.

Franz Beckenbauer e Sepp Maier pela Alemanha Ocidental, em 1977 (Foto: Imago/Kicker/Eissner)
Franz Beckenbauer e Sepp Maier pela Alemanha Ocidental, em 1977 (Foto: Imago/Kicker/Eissner)

A história da glória pela coragem da cavadinha já foi descrita, mas o meia também revelou que sua relação com Sepp ficou abalada por décadas. Humilhado pela Panenka, o goleiro alemão, atualmente com 82 anos, nutriu uma rixa com o camisa 8 tchecoslovaco, que hoje ri da reação do eterno rival.

— Ele (Sepp Maier) passou 35 anos sem me dirigir uma única palavra. Li alguns artigos que diziam que ele até tinha um alvo de dardos na garagem com o meu rosto desenhado. Mas agora nos damos bem — garante Antonín Panenka.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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