Mundial de Clubes

Uma instituição ao Tigres e ao futebol mexicano, Tuca Ferretti disputará a 29ª final da carreira – e a mais importante de todas

Um dos grandes méritos do Tigres é a experiência de sua equipe. Os 11 titulares contra o Palmeiras na semifinal do Mundial passavam dos 27 anos e cinco deles estão acima dos 31. Além da tarimba, o entrosamento também faz a diferença aos felinos. Seis desses jogadores chegaram a Nuevo León há pelo menos cinco anos. Nahuel Guzmán, Guido Pizarro e André-Pierre Gignac tinham sido titulares já na decisão da Libertadores de 2015, contra o River Plate. Esta base conquistou quatro títulos no Campeonato Mexicano e disputou quatro finais da Concachampions até levantar o tão esperado título. Uma engrenagem solidificada também pelo mesmo mentor, Tuca Ferretti, um gigante no México que alcança o ápice do reconhecimento além das fronteiras neste Mundial.

A grandeza de Tuca Ferretti no futebol mexicano começou a ser construída em seus tempos de jogador. Irmão de outros dois atletas do Botafogo, o atacante revelado pelos alvinegros passou por Vasco e Bonsucesso até deixar o Brasil em 1977. Iniciou a caminhada mexicana no Atlas, com o qual chegou a ser rebaixado, mas virou ídolo mesmo do Pumas UNAM, contratado pelo lendário Bora Milutinovic – que se aposentou como meio-campista do clube e logo virou treinador. Num dos times mais populares do país, conquistou não só o Campeonato Mexicano, como também duas vezes a Concachampions. É um dos jogadores com mais troféus na história da agremiação e também o segundo maior artilheiro. Tuca defendeu os felinos de 1978 a 1985, voltando ainda para pendurar as chuteiras em 1991, quando ergueu o título da liga nacional pela segunda vez. O veterano, inclusive, anotou o gol decisivo no segundo jogo da final contra o rival América.

Já assistente técnico nessa época, Tuca Ferretti começou sua história como treinador logo depois de deixar os gramados. Passou cinco anos à frente do Pumas, em período no qual também foi auxiliar da seleção mexicana na Copa de 1994. Já em 1996, assumiu o Chivas Guadalajara e ficou por quatro anos no Rebaño Sagrado, faturando seu primeiro título nacional. A relação com o Tigres começou em 2000, quando o dinheiro da Cemex (a companhia de cimento que é dona do clube) já pingava em Nuevo León. Com uma equipe repleta de jogadores da seleção local, os felinos alcançariam o vice-campeonato, mas ainda sem o troféu tão esperado. Uma derrota ao rival Monterrey nas semifinais da Liga MX encerrou sua primeira passagem pelos auriazuis em 2003.

Tuca saiu para ser campeão da Concachampions com o Toluca ainda em 2003. Dirigiria depois, em passagens mais curtas, o Morelia e o próprio Tigres, sem repetir os êxitos. Mas a história vitoriosa garantiria uma quarta passagem pelo Pumas entre 2006 e 2010. O brasileiro conseguiu ser campeão pelos felinos também à beira do campo, levando o Clausura em 2009. Todavia, existia uma ligação que não havia se encerrado com o Tigres. O retorno a Nuevo León aconteceu em maio de 2010, quando os auriazuis corriam riscos de rebaixamento. A partir de então, se iniciaria a década dourada do clube.

A conquista do Apertura de 2011 tem enorme representatividade ao Tigres, por encerrar um jejum de quase três décadas sem o troféu do Campeonato Mexicano. Seria um passo fundamental também à idolatria por Tuca Ferretti e à sua longevidade. O clube nem sempre seria tão competitivo na primeira metade da década, chegando apenas a uma nova final em 2014, quando perdeu para o América. Ainda assim, permanecia o respaldo ao veterano e a confiança no que conduzia em Nuevo León. A partir de 2015, a história se transformaria, com a sequência de glórias.

A contratação de Gignac é decisiva, já que o centroavante potencializou o time de Tuca Ferretti – tantas vezes classificado como um técnico defensivista e muito apegado aos seus jogadores preferidos. O Tigres contava com uma grande liderança dentro de campo e uma arma para o treinador. Os felinos se consagraram com boas referências na defesa, volantes de ótimo equilíbrio, velocidade pelos lados do campo e uma dupla de ataque bem entrosada. Diferentes nomes acompanharam Gignac, mas o francês não perdeu o protagonismo, e passou a conduzir os auriazuis aos títulos.

É verdade também que o Tigres se tornou dependente demais das individualidades. Nem sempre oferece tanta dinâmica dentro de campo e por vezes carece de mais velocidade para executar seu jogo. Contudo, Tuca Ferretti sempre conseguiu tirar o melhor de seus jogadores nos momentos decisivos e virou um bicho papão nos mata-matas da Liga MX. A partir do Apertura de 2015, foram quatro taças e um vice no campeonato nacional. O reconhecimento dos mexicanos e a gratidão do técnico ao país também levaram Tuca a dirigir interinamente duas vezes a seleção local. Faturou, inclusive, a Copa Ouro em 2015.

Faltava a Concachampions, na qual o time sempre chegava longe, mas ficava no quase. Indo além da Libertadores de 2015, o Tigres batia contra a parede na final continental. Apesar do domínio doméstico, foram três derrotas para mexicanos nos anos anteriores – contra América, Pachuca e o rival Monterrey. A espera se encerraria apenas em 2020, contra o Los Angeles FC, numa campanha que nem foi a mais convincente dos felinos. Mas que, em contrapartida, apresentou o time no ápice de sua experiência e ainda capaz de render em alto nível. É o que se repete com êxito no Mundial de Clubes, com a inédita decisão ao representante mexicano, depois de 14 tentativas frustradas.

Tuca Ferretti disputará sua 29ª final desde que iniciou a carreira como treinador. Levou 18 títulos nas 28 anteriores. Apenas com o Tigres, são 12 taças em 22 tentativas, incluindo também competições secundárias. O Bayern de Munique é favoritíssimo para a partida no Catar, mas não se pode negar o tamanho da instituição que Tuca representa no futebol mexicano. O comandante muitas vezes é cercado pelo folclore, especialmente por sua personalidade forte e pelos episódios de fúria em treinamentos ou coletivas – algo que se reduziu nos últimos anos. Todavia, aos 66 anos, pouquíssimos técnicos sabem os atalhos aos troféus como ele.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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