Quando o Al Ahly desbancou os galácticos do Real Madrid num amistoso entre os “Clubes do Século”
Mais de 70 mil torcedores no Estádio Internacional do Cairo vibraram com a vitória do Al Ahly sobre o Real Madrid (de Zidane, Figo e Raúl) em agosto de 2001

É curioso pensar que Al Ahly e Real Madrid, duas potências, se enfrentarão de maneira inédita pelo Mundial de Clubes nesta quarta-feira. Os dois gigantes são os representantes mais frequentes de seus respectivos continentes, com oito participações dos egípcios e seis dos espanhóis, mas esta é a primeira vez que se encaram na competição da Fifa. Contudo, há um antecedente entre os oponentes e ele marca um grande orgulho aos Diabos Vermelhos. Em agosto de 2001, o Real Madrid foi convidado de honra num amistoso realizado no Estádio Internacional do Cairo, para comemorar a nomeação do Al Ahly como “Clube Africano do Século”. E os anfitriões fizeram a alegria da torcida: ganharam por 1 a 0 diante de um elenco merengue recheado de galácticos.
Aquele seria um ano especial para o Al Ahly. A começar pela chegada do técnico Manuel José, nome importante do futebol português, mas que se tornaria realmente lendário no Egito. A estreia do comandante aconteceu exatamente no amistoso contra o Real Madrid. E aquela vitória se tornaria um ótimo presságio do que viria a ser o trabalho. Quatro meses depois, em dezembro de 2001, Manuel José conquistou a Liga dos Campeões da África à frente do Al Ahly. Era apenas o terceiro dos dez títulos do clube no torneio, o primeiro desde 1987. Foi a partir de então que a supremacia dos egípcios no continente se iniciou. Manuel José chegou a sair e voltar do time, mas retornou para levar a Champions outras três vezes até 2008.
Dentro de campo, o Al Ahly também via o desabrochar de uma geração de grandes talentos. O clube ganhava nomes imprescindíveis para essa supremacia na Liga dos Campeões da África. O goleiro era Essam El-Hadary, maior figura da posição na história do Egito e quatro vezes campeão da Copa Africana de Nações pela seleção. A defesa contava com a eclosão do recém-contratado Wael Gomaa, futuro dono de seis troféus da Champions Africana com os Diabos Vermelhos. Outro novato a despontar era o meio-campista Hossam Ghaly, que rodou depois por clubes como Feyenoord e Tottenham, antes de retornar em diferentes passagens ao Cairo. O esteio do meio era Hady Khashaba, também capitão e nome frequente na seleção egípcia nos anos 1990. Sunday Chibuke, nigeriano que teria passagem rápida por sua seleção, aparecia na ligação. Já na frente, os gols eram anotados por Khaled Bebo, atual responsável pela base do Al Ahly.
O Real Madrid, por sua vez, também vivia um período marcante. Os merengues sucumbiram na semifinal da Champions League, diante do Bayern de Munique, mas conquistaram La Liga em 2000/01. E logo a supremacia continental seria retomada nos meses seguintes. Depois de já ter levado o título da Champions em 1998 e 2000, o clube recuperaria a Orelhuda novamente ao final da temporada 2001/02. Seria a noite mágica de Zinédine Zidane em Glasgow, com o célebre gol na decisão contra o Bayer Leverkusen.
Zidane tinha sido contratado semanas antes do amistoso com o Al Ahly, para o projeto galáctico em formação por Florentino Pérez, mas o francês já encarava as primeiras críticas pelo rendimento abaixo do esperado na pré-temporada. O Real Madrid também contava com Luis Figo, além de outras estrelas mais antigas no grupo, do porte de Raúl, Roberto Carlos, Fernando Hierro e Claude Makélélé. Porém, também era um time composto por outros atletas menos badalados. César Sánchez, Geremi Njitap, Aitor Karanka, Iván Helguera e Sávio complementavam o 11 inicial contra o Al Ahly. Guti, Santiago Solari, Albert Celades e Steven McManaman estavam entre os que saíram do banco.
A Fifa tinha apontado o Real Madrid como o “Clube do Século” (na Europa e no Mundo) em suas festividades pela virada do milênio. Seria o adversário ideal para comemorar também a escolha do Al Ahly como o “Clube do Século” na África – e isso num momento em que o rival Zamalek tinha mais troféus da Champions Africana, quatro contra dois dos Diabos Vermelhos. O Estádio Internacional do Cairo recebeu 70 mil torcedores para a ocasião e existia um clima apoteótico, com fogos de artifício e outras cerimônias para a ocasião. Já dentro de campo, os anfitriões não trataram somente como um amistoso de pré-temporada. Os egípcios se empenharam pela vitória.
O primeiro tempo ainda viu um Real Madrid mais aceso. Os merengues foram mais perigosos e rondaram o gol mais vezes, sem tanta eficiência na hora de aproveitar as oportunidades. Os atacantes vacilaram em algumas jogadas dentro da área e desperdiçaram lances abertos. Enquanto isso, El-Hadary teve mais trabalho com Roberto Carlos. O goleiro rebateu uma pancada do lateral e depois precisou rezar num tirambaço que estalou a trave. Do outro lado, as investidas do Al Ahly eram mais esporádicas, sem o mesmo nível de ameaça contra a meta protegida por César Sánchez.
O segundo tempo se transformou. O Al Ahly estava bem mais ligado na retomada da partida e começou a martelar. César salvou o Real Madrid a primeira vez, mas um contra-ataque permitiu que os Diabos Vermelhos abrissem o placar aos cinco minutos. Ghaly disparou dentro da área e driblou César. Então, rolou para trás e Sunday Chibuke só teve o trabalho de rolar às redes vazias. A comemoração contou com uma explosão de alegria nas arquibancadas, num resultado comemorado feito final de campeonato.
O Al Ahly sentiu o gosto da vitória e não parou mais. Os Diabos Vermelhos poderiam ter ampliado numa bobeira da defesa do Real Madrid, mas Alaa Ibrahim acertou a trave. A velocidade do time nos contra-ataques era imensa e pegava uma marcação bagunçada dos merengues. Bebo logo depois mandou uma bola que tirou tinta da trave, antes de encobrir César e parar no travessão. A impressão era de que os alvirrubros poderiam inclusive aplicar uma goleada. Os espanhóis ainda esbarraram outra vez no travessão, num petardo de Solari, mas não era mesmo a noite da equipe. A celebração efusiva seria dos egípcios.
Vencer um esquadrão europeu não era novidade para o Al Ahly. Os Diabos Vermelhos bateram o Benfica em 1963 e o Bayern de Munique em 1977, enquanto em 1986 desbancaram o Steaua Bucareste no ano em que os romenos levaram a Champions. Superar o Real Madrid, de qualquer maneira, tinha um sabor especial pela ocasião preparada. Aquela temporada ainda teria outro marco na história do Al Ahly, com os 6 a 1 aplicados sobre o Zamalek no Campeonato Egípcio, a maior goleada do dérbi em todos os tempos. A equipe de Manuel José nem ganhou a liga naquela campanha, mas comprovava de diversas formas como um século ainda mais grandioso se abria aos alvirrubros.



