Como era com o Corinthians e a Libertadores, agora é com o e o Mundial. O Palmeiras não tem Mundial, dizem os adversários. Muitos palmeirenses rebatem que tem, sim, lembrando a Taça Rio de 1951, atualmente não reconhecida pela Fifa – e, de toda maneira, um título muito importante. Mundial que nem o torneio intercontinental disputado entre 1960 e 2004, porém, é fato que o Palmeiras não tem. Mundial da Fifa também não. Quanto cada torcedor se preocupa com isso é pessoal. Aos que se preocupam, pode ser a última chance plausível de conquistá-lo.

A condicional é colocada apenas porque sabe-se lá o que os cartolas de Zurique decidirão fazer no futuro. Talvez em 2063 voltem atrás e mudem de ideia. Já houve até papo de retomar o torneio intercontinental. Haverá outro como o atual em dezembro de 2021, mas um bicampeonato da Libertadores é raro, embora, claro, seja possível. Acontece que o formato da Fifa que estrearia este ano e foi adiado por causa da pandemia tornará o título virtualmente impossível a um clube não-europeu, dentro do cenário atual do futebol – ou seja, enquanto os europeus continuarem ficando mais ricos que o resto do mundo em progressão geométrica.

Em jogo único, é possível minimizar as brutais diferenças econômicas. Às vezes, dar um pouco de sorte, pegar um europeu em má fase, ou que não é de fato o melhor time do continente, ou encaixar uma excelente atuação com um dia ruim do adversário. Em 90 minutos de futebol, muita coisa pode acontecer. Dentro do novo formato, com oito europeus, grupos de três, quartas de final, semifinal e final, não basta um jogo heróico. Seriam necessários pelo menos uns quatro. É tarefa para os Vingadores, não para um clube de futebol.

O palmeirense pode olhar o copo meio cheio: pelo menos terá uma última chance. O copo meio vazio é que aquele papo de pegar um europeu em má fase ou que não é de fato o melhor time do continente certamente não se aplica ao Bayern de Munique – caso passe pelo Tigres na semifinal. Tem tido alguns tropeços desde que conquistou a bolha da Champions em Lisboa. Foi goleado pelo , perdeu para o Borussia Monchengladbach, foi eliminado pelo Holstein Kiel, da segunda divisão e… é mais ou menos isso aí. De resto, ganhou quase todos os jogos, com um ou outro empate normal contra times como o RB Leipzig ou o Atlético de Madrid.

Uma vantagem de ter um treinador com experiência no futebol europeu nessas situações é quando ele está acostumado a preparar times desfavorecidos economicamente contra os gigantes. Não é tanto o caso de . Ele treinou clubes médios de dois centros secundários da Europa. Precisou enfrentar regularmente Benfica, Porto e Sporting com o Braga, e o Olympiacos com o PAOK, mas nunca disputou a fase de grupos da Champions League. Quando se aventurou na Europa, jogou contra clubes como Ajax, Hoffenheim, Olympique Marseille e Besiktas. O poder bruto de um super-clube é um desafio totalmente diferente.

A capacidade de se adaptar e preparar jogo a jogo de Abel Ferreira será mais uma vez importante porque os dois jogos, se realmente houver dois, devem apresentar cenários quase opostos. A semifinal contra o Tigres tende a ser mais travada. Mesmo contra o Ulsan Hyundai, os mexicanos não passaram muito de 53% de posse de bola. Tiveram uma das melhores defesas do Apertura do Campeonato Mexicano. Não seria surpresa se as escalações fossem diferentes: um time com mais qualidade de passe e talvez com Willian para encarar o Tigres, outro com mais velocidade para aproveitar o ponto fraco do Bayern de Munique – a linha de defesa bem adiantada.

A maturidade da garotada do Palmeiras será mais uma vez testada. Passou com nota 10 em (quase) todas as provas da Libertadores, inclusive o River Plate em Avellaneda. O meio-campo pode ser todo formado em casa, com Danilo, Gabriel Menino e Patrick de Paula, ou ganhar a companhia de um Raphael Veiga ou Zé Rafael dependendo da escalação de Abel. Gabriel Veron também pode ser uma peça chave por ser uma alternativa de velocidade a Rony, que será muito importante especialmente se houver uma final contra o Bayern de Munique.

Há muito pouco histórico de sucesso brasileiro no Mundial de Clubes sem uma atuação histórica de sua defesa, o que coloca Gustavo Gómez como um personagem importante pela sua liderança, e especialmente de seu goleiro. Candidato a entrar no concorrido panteão de lendas do gol do Palmeiras, é o tipo de goleiro com capacidade de fazer milagres em sequência, como seus antecessores Rogério Ceni e Cássio fizeram para garantir vitórias apertadas para São Paulo e Corinthians. Brilhou de maneira parecida na segunda semifinal contra o River Plate.

E fala o que quiser de , mas ele não é jogador para se deslumbrar nesse tipo de jogo. Ele é jogador que erra a dose de… hum, bravura e é expulso no primeiro tempo. Mas se acertar o tom, na intensidade em campo e na influência que tem sobre o elenco, é quem tem mais experiência em duelos contra gigantes europeus. Atuou várias vezes contra os três maiores da Itália e enfrentou Real Madrid e Barcelona 12 vezes. Taticamente, a sua ótima bola longa pode ser uma arma importante em uma eventual final contra o Bayern de Munique.

Mas além de encaixes táticos e personagens, o abismo financeiro obriga que o sucesso sul-americano no Mundial de Clubes venha por uma fórmula muito simples: um jogo perfeito de um lado, um jogo desafortunado do outro. O máximo que se pode cobrar do Palmeiras é se dar a chance de isso acontecer e ela apareceu. Justamente na hora em que as portas iam se fechando um pouco mais. Agora, é tentar aproveitá-la.

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