Mundial de Clubes

Para o Liverpool, Mundial é (ou deveria ser) chance de título inédito e de alimentar cultura vencedora

Há em Melwood, centro de treinamentos do Liverpool, a parede dos campeões. Uma dessas coisas meio místicas que fazem parte da sua cultura, como a placa “This is Anfield” na saída dos vestiários. Nela constam os principais títulos que o clube conquistou. Foi engraçado quando Jürgen Klopp contou que perguntou a James Milner e Jordan Henderson, antes da Supercopa da Europa contra o Chelsea, como as pessoas julgavam aquele torneio. E a resposta foi: “É um troféu de verdade. Está na parede”.

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O que não está na parede é o Mundial de Clubes e, se o Liverpool o vencer no Catar, talvez ele não seja inserido imediatamente. Talvez apareça diretamente no novo mural do quartel-general para o qual o clube se mudará na próxima temporada. Talvez não deem a mínima para ele. Não há muita informação sobre isso. Fato é que o torneio da Fifa, contando a antecessora Copa Intercontinental, é o único troféu de relevância que o clube mais vencedor da Inglaterra ainda não conquistou.

É curioso como alguns títulos demoraram para chegar a Anfield. A primeira Copa da Inglaterra saiu apenas em 1964/65 e, por se tratar do campeonato mais antigo do mundo, a demora foi longa. A Copa da Liga, desprezada tanto por Bill Shankly quanto por Bob Paisley, apareceu no gabinete de troféus vermelho apenas em 1980/81, 21 anos depois de sua criação. E, claro, o Liverpool ainda não conquistou a Premier League.

No caso do Mundial de Clubes, abriu mão das duas primeiras oportunidades ao abdicar da vaga em 1977 e 1978. Em 1981, já com a Toyota organizando jogo único no Japão, foi derrotado pelo Flamengo, com os jogadores admitindo que não levaram a partida muito a sério e que ficaram surpreendidos com a qualidade do adversário. Perdeu também do Independiente, em 1984, e do São Paulo, em 2005.

A campanha que começa nesta quarta-feira, é uma chance de ganhar o título inédito e talvez a última no atual formato antes de a missão ficar mais difícil. A partir de 2021, o torneio será disputado a cada quatro anos (ou seja, haverá menos Mundiais para serem conquistados) e terá 24 clubes (portanto, com mais concorrência europeia).

Mas não é apenas para completar a prateleira, ou melhor, o mural de troféus, que o Liverpool poderia se beneficiar de uma campanha triunfante no Catar. Outrora principal potência da Inglaterra, o clube desaprendeu a vencer na década de noventa. Houve títulos esparsos, mas nunca um período contínuo de conquistas e disputas que recriasse em Anfield a cultura vencedora que Shankly fundou e passou a Paisley, que passou a Joe Fagan, que passou a Kenny Dalglish e se perdeu com seus sucessores.

Quando chegou ao Liverpool, Jürgen Klopp disse que o seu principal desafio era transformar céticos em confiantes, o que aconteceu até que rápido, mas o primeiro dividendo concreto dessa confiança – a Champions League de 2019 – demorou para chegar. Agora, esse espírito precisa ser alimentado com novas conquistas, menos importantes como as Supercopas da Europa e da Inglaterra, ou, para alguns, o Mundial de Clubes, ou a mais desejada de todas no momento, a Premier League.

Dar a volta olímpica é viciante, e conseguir sair de condições adversas para terminar a história correndo em volta do gramado com o troféu em mãos faz com que os jogadores acreditem que isso sempre será possível, independentemente da situação. Essa sede por glória e essa confiança estão por trás desse conceito abstrato que clubes grandes possuem nos melhores momentos das suas histórias e que às vezes faz com que eles sejam campeões quase que por inércia.

E ele precisa ser alimentado. “É importante uma ‘cultura de vitórias’ porque cada prêmio que vencemos é importante, então tentamos atacar cada competição que jogamos”, disse o assistente técnico do Liverpool, Pep Ljinders, à revista oficial dos Reds. “Seria incrível ser campeão do mundo. Não são muitos grandes times que têm a chance. É uma marca, um carimbo do forte progresso ao longo de muitos anos”.

Fala-se muito sobre qual importância o Liverpool dará ao Mundial. Houve uma discussão parecida, às vésperas da Supercopa da Uefa. No fim, jogou para valer, como fez também na Supercopa da Inglaterra, quando ligou o turbo no segundo tempo e quase virou contra o Manchester City, que acabou campeão nos pênaltis.

Claro que há uma diferença de contexto, por serem duas competições com as quais clubes ingleses estão mais acostumados, e pelas duas finais terem sido clássicos nacionais, mas também pode ter a ver com a resposta de Klopp quando questionado sobre o que o clube deveria fazer para construir em cima de uma temporada que terminou com o título europeu: “Continuar ambiciosos. Não tenho dúvidas, está claro que precisamos fazer isso”.

Em entrevista ao site da Fifa, Klopp disse, em novembro, que os rapazes “querem jogar o Mundial” e que o torneio “será grande para nós, 100%”.  Agora no Catar, provavelmente ele e jogadores repetirão o discurso, que tem algo de burocrático, de respeitar a competição que os fez a desviar a atenção de objetivos mais importantes. Não faria sentido viajar milhares de quilômetros para adotar a postura de “não queria estar aqui” e tirar o pé de todas as divididas, até porque precisa justificar a provação à qual submeteu os seus garotos nas quartas de final da Copa da Liga e tem uma vantagem confortável na Premier League.

Klopp dificilmente mandará alguém ao sacrifício – até onde se sabe o único jogador com problemas físicos que viajou foi Wijnaldum – e seu time não encarará o Mundial como uma final de Champions League, como não fez em Wembley ou em Istambul no começo da temporada, mas o Liverpool está em uma posição de sua história em que há uma chance razoável de que haja também um fundo de verdade no discurso com ares protocolares de querer disputar todas as competições com a mentalidade de vencê-las.

O clube renasceu sob o comando de Klopp. Com relativa rapidez, voltou a ser temido, mas demorou um pouco mais para conseguir vencer. E agora que o fez, não pode deixar a bola cair. Precisa aprender a continuar vencendo, a ser campeão em série, como no auge da sua história, e a única receita para isso é a prática.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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