O que mudou no Al-Hilal desde a outra semifinal de Mundial contra o Flamengo, em 2019
O Al-Hilal segue com uma base muito parecida com aquela de 2019, mas diversos estrangeiros mudaram e os desfalques pesam dessa vez
São pouco mais de três anos desde que Flamengo e Al-Hilal se enfrentaram pela primeira vez na história. Foi justo na semifinal do Mundial de Clubes de 2019, numa partida bastante significativa sobretudo aos rubro-negros, em seu retorno à competição internacional depois de 38 anos. E os brasileiros prevaleceram, embora desde o princípio estivesse claro que os sauditas poderiam dificultar. De fato, aconteceu: a virada por 3 a 1 seria construída apenas no segundo tempo, depois que os alviazuis foram para o intervalo com a vitória parcial. Há muito em comum entre aqueles dois times, mesmo com esse hiato entre as partidas. Entretanto, também com novas mudanças nos desafiantes asiáticos.
É importante notar que o Al-Hilal não chega exatamente como o vencedor da Champions Asiática na temporada. Com a mudança no calendário da competição, que vai concluir sua atual edição em 2023, os sauditas mantiveram o direito de disputar o Mundial de maneira cumulativa. Foram para o Mundial de 2022 (o atual) com a passagem que também valeu o ingresso no Mundial de 2021 (realizado no início do último ano). Mas, embora a coroa não seja nova, não dá para dizer que os alviazuis necessariamente enfraqueceram, mesmo que o time se sugerisse em ritmo mais forte naquela campanha de 2019.
Abaixo, separamos uma lista de seis mudanças no Al-Hilal em relação ao outro time que enfrentou o Flamengo e que podem influenciar a nova ocasião:

Um momento diferente
Quando chegou ao Mundial de Clubes em 2019, o Al-Hilal estava num momento de êxtase parecido com o do Flamengo. Os alviazuis haviam acabado de conquistar a Champions Asiática, com o título selado em 24 de novembro, um dia depois da final da Libertadores. Foi o último participante do torneio da Fifa confirmado naquele ano e desembarcava no Catar com uma dose de empolgação grande, pelo hiato de quase duas décadas sem faturar o título continental até então. Líder do Campeonato Saudita, o Hilal ainda vinha num “clima de mata-mata”, já que a liga nacional acabou paralisada durante as finais da Liga dos Campeões contra o Urawa Red Diamonds, que ocuparam o mês de novembro. Depois disso, foco total no Mundial.
Atualmente, o cenário é diferente. O Al-Hilal não disputava um mata-mata internacional desde o Mundial passado. A edição vigente da Champions Asiática concluiu sua fase de grupos em abril de 2022 e os mata-matas se iniciarão apenas neste fevereiro de 2023. Já a campanha no Campeonato Saudita também não é totalmente dominante. Apesar da sequência de dez partidas de invencibilidade dos alviazuis, são cinco empates, que mantêm o time na terceira colocação. A eliminação na semifinal da Supercopa Saudita, no último mês, ficou aquém das expectativas. E também a estreia do Mundial foi difícil, embora se esperasse mesmo um duelo parelho contra o Wydad Casablanca, anfitrião do torneio.

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As novas experiências
Uma vantagem do Al-Hilal em relação ao Flamengo é que o clube ainda retornou ao Mundial mais uma vez neste intervalo de três anos. E a campanha dos sauditas na competição da Fifa em 2021/2022 foi inclusive mais expressiva do que em 2019. Daquela vez, os alviazuis passaram raspando contra o Espérance nas quartas de final e, depois da derrota para o Flamengo, perderam o bronze nos pênaltis para o Monterrey. Já em 2022, o Hilal aplicou uma assombrosa goleada por 6 a 1 no anfitrião Al-Jazira e fez também o Chelsea suar na semifinal. Romelu Lukaku marcou no magro triunfo por 1 a 0. O único problema é que o bronze escapou, agora com goleada do Al Ahly por 4 a 0 na decisão do terceiro lugar.
Estar acostumado ao Mundial de Clubes é algo que tende a oferecer sua ajuda ao Al-Hilal. Foi o que aconteceu principalmente na partida contra o Wydad Casablanca. Apesar do primeiro tempo difícil, os sauditas melhoraram na segunda etapa e conseguiram buscar o empate por 1 a 1, antes de selarem a classificação nos pênaltis. Superaram um adversário que vinha apoiado pela torcida da casa e tinha o ambiente a seu favor. O Flamengo também possui sua experiência anterior no Mundial, o que quebra o fator “novidade” para ambos. Entretanto, ter encarado o Chelsea nesse intervalo é um diferencial aos sauditas.

A Copa do Mundo dos sauditas
O Al-Hilal era a base principal da seleção da Arábia Saudita na Copa do Mundo, inclusive com boa parte dos jogadores titulares da equipe durante a fase de grupos. Os heróis da vitória por 2 a 1 sobre a Argentina na estreia podem ser os mesmos a complicar a situação dos adversários no Mundial de Clubes. É uma experiência em altíssimo nível bem recente e que tende a também garantir um pouco mais de tarimba aos alviazuis numa competição deste nível.
Em relação ao jogo contra o Wydad, cinco dos seis sauditas que pintaram como titulares no Al-Hilal disputaram a Copa do Mundo. A exceção ficou por conta do goleiro Abdullah Al-Mayouf, que havia se aposentado da seleção, mas tinha jogado antes a Copa de 2018. Os laterais Saud Abdulhamid e Nasser Al-Dawsari não estavam no time do Mundial de 2019, enquanto o zagueiro Ali Al-Boleahi é um dos remanescentes daquela campanha. Já a grande estrela continua sendo o meia Salem Al-Dawsari, autor do golaço contra a Argentina e que ganhou ainda mais notoriedade nos últimos três anos, mesmo tendo marcado contra o Flamengo da outra vez. Mohamed Kanno, outro a brilhar na Copa do Mundo, estará suspenso contra o Fla. E ainda há opções no banco, sobretudo o atacante Saleh Al-Shehri, que entrou contra o Wydad e tinha marcado diante da Argentina.

Os estrangeiros
As maiores mudanças no elenco do Al-Hilal nestes últimos três anos aconteceram em relação aos estrangeiros que compõem o elenco. O zagueiro sul-coreano Jang Hyun-soo permanece como referência na zaga. Já o meio-campo preserva Gustavo Cuéllar como esteio na cabeça de área, após sua chegada em 2019. O time ainda conta com André Carrillo, um jogador experiente e incisivo. De resto, todos os outros jogadores extracomunitários nos alviazuis mudaram. E não se nega uma perda em relação aos que saíram, sobretudo pela importância de Bafétimbi Gomis no recente bicampeonato asiático.
Gomis não está mais no Al-Hilal desde o início de 2022. O centroavante foi excepcional em sua passagem pelo clube, com ótima média de gols e papel decisivo sobretudo na Champions de 2019. Entretanto, decidiu voltar para o Galatasaray antes mesmo do Mundial passado. Da mesma maneira, Sebastian Giovinco se despediu do clube neste intervalo, embora sua estadia não tenha sido tão expressiva quanto no Toronto FC. Quem também saiu foi o meia-atacante Carlos Eduardo, vencedor da Bola de Bronze como terceiro melhor jogador do Mundial em 2019. O paulista era uma referência do Hilal e vinha em fase avassaladora, mas aceitou outras propostas de clubes árabes a partir de 2020 e desde o último ano defende o Botafogo. Mais um a partir foi o atacante Omar Khribin, ídolo da seleção síria que era opção para o segundo tempo na época.
A legião estrangeira atual do Al-Hilal dá mais vigor ao ataque. Moussa Marega possui uma ótima bagagem na Europa, nos tempos de Porto, e é um jogador de enorme presença física. Da mesma maneira, o comando de ataque ganhou a adição de Odion Ighalo, até valorizado por sua curta estadia no Manchester United. Michael virou uma aposta brasileira, destacado pela metade final de sua passagem pelo Flamengo, e serve como alternativa de habilidade na ponta. Já Luciano Vietto ficou no banco contra o Wydad, mas entrou muito bem e ajudou a mudar a partida. Embora não tenha explodido na carreira como se esperava, é o mais completo dos atacantes. Vale mencionar ainda Matheus Pereira, que foi a grande aposta do Hilal quando trazido do West Brom na temporada passada. Todavia, não emplacou em Riad e atualmente está emprestado ao Al-Wahda.

O treinador
O Al-Hilal possui alta rotatividade entre os seus treinadores. Dessa maneira, era esperado que o comandante não fosse o mesmo nesses três anos. E não se nega o papel que Razvan Lucescu desempenhou na afirmação continental dos alviazuis no atual ciclo. O romeno assumiu o cargo em junho de 2019, após levar o PAOK ao título do Campeonato Grego e encerrar um jejum de 34 anos. Logo de início, o novo comandante conseguiu a arrancada na Champions Asiática e conquistou o troféu que escapou por 19 anos das mãos dos alviazuis. E seria um bom trabalho, com a quarta colocação do Mundial de Clubes, que rendeu ainda o título do Campeonato Saudita em 2019/20. O filho de Mircea Lucescu saiu apenas em fevereiro de 2021, com uma sequência ruim no Campeonato Saudita e as eliminações nas copas nacionais num intervalo de pouco mais de dois meses.
Depois disso, o Al-Hilal demorou para acertar a mão em seu técnico. Apostou em Rogério Micale, que durou apenas 13 partidas no cargo. Depois foi comandado interinamente pelo angolano José Morais, antigo assistente de José Mourinho, por cinco compromissos. Uma sequência maior só foi obtida por Leonardo Jardim após agosto de 2021. O português conquistou o novo título da Champions Asiática, mas não fazia boa campanha no Campeonato Saudita. Deixou o cargo em fevereiro de 2022, após a goleada do Al Ahly por 4 a 0 na decisão do terceiro lugar do último Mundial.
Por fim, o Al-Hilal alinhou o retorno de Ramón Díaz. O histórico comandante do River Plate já tinha passado pelos alviazuis outra vez, entre 2016 e 2018. Foi um trabalho expressivo, porque rendeu a conquista do Campeonato Saudita em 2016/17, que iniciou a atual hegemonia nacional e encerrou um hiato de seis anos sem o troféu. Mesmo com a derrota na final da Champions Asiática em 2017, o argentino manteve certo prestígio e teve aproveitamento superior a 70% dos pontos. Sua volta também auxiliou nessa reputação.
O Al-Hilal era o quarto colocado do Campeonato Saudita quando Ramón Díaz reassumiu em fevereiro de 2022. O treinador venceu as 12 primeiras partidas, numa guinada que valeu o título da liga em 2021/22 e também classificou o time aos mata-matas da Champions Asiática de 2022/23. Seu aproveitamento na segunda passagem chega a 77%, mas os empates recentes até atrapalharam essa sequência. Por enquanto, ele tenta recuperar terreno no Campeonato Saudita em uma disputa bastante parelha. Outro problema é que, das três derrotas que sofreu em 40 partidas até o momento, duas foram para o modesto Al-Fahya, na final da Copa do Rei Saudita de 2021/22 e na semifinal da Supercopa Saudita de 2022/23.

Os desfalques
O Al-Hilal tinha apenas um desfalque quando enfrentou o Flamengo em 2019: o capitão Salman Al-Faraj, nome importante na condução do meio-campo alviazul. Curiosamente, ele também não está presente em 2023. O armador acumula lesões em sua carreira e não entra em campo desde a Copa do Mundo, quando se machucou na estreia contra a Argentina. No entanto, os sauditas possuem outras ausências, e até mais sentidas. O lateral Yasser Al-Shahrani é uma das principais armas do time pelo lado esquerdo, com muita capacidade no apoio ofensivo e ótimo entendimento com Salem Al-Dawsari. É mais um desfalque acumulado da Copa do Mundo, desde que fraturou a mandíbula contra a Argentina.
A estreia do Mundial de Clubes custou a presença de Mohamed Kanno. O meio-campista ascendeu no Al-Hilal depois daquela semifinal de 2019 e tinha feito uma Copa do Mundo excelente. Seria decisivo na estreia contra o Wydad, com o gol de pênalti que determinou o empate, mas recebeu o cartão amarelo e provavelmente deixará um rombo no meio-campo para o encontro com o Flamengo.
Não dá para dizer que o Hilal não conta com um time forte sem os quatro ausentes, porque o elenco tem opções suficientes, sobretudo no setor ofensivo. Mesmo sem Al-Shahrani na lateral, seu substituto é também o reserva imediato na lateral da seleção da Arábia Saudita, Nasser Al-Dawsari. É fato que os alviazuis poderiam contar com um time ainda mais qualificado do que aquele que escalará contra o Flamengo. Mas, apesar dos pesares, não deixa de ser um oponente que merece respeito.



