Mundial de Clubes

O pequenino Hienghène honrou sua presença no Mundial, ao segurar o Al Sadd e só cair na prorrogação

O Al Sadd cumpriu a sua obrigação e se classificou às quartas de final do Mundial de Clubes. No entanto, a vitória moral na abertura do torneio da Fifa foi do Hienghène Sports, o pequenino representante da Oceania. Tudo bem, falar em “vencedor moral” não garante a alegria de ninguém que perdeu dentro de campo. Ainda assim, os neocaledônios podem manter a cabeça lá no alto, orgulhosos pelo desempenho em Doha. Os azarões dificultaram muito aos anfitriões e cederam a derrota por 3 a 1 apenas na prorrogação. Noite gigantesca a uma equipe amadora, sediada em uma comuna de 2,5 mil habitantes.

Treinado por Xavi, o Al Sadd tinha badalação ao seu redor. O clube conquistou o Campeonato Catariano com média de 4,5 gols marcados por partida e alcançou as semifinais da Champions Asiática, caindo apenas para o Al Hilal. Porém, esse poderio não se viu em campo. Foi uma equipe extremamente nervosa na hora de definir o jogo e um tanto quanto frouxa. Mesmo os destaques individuais não funcionaram. Eleito melhor jogador em atividade na Ásia em 2019, Akram Afif viveu uma terrível atuação.

Desde os primeiros minutos, ficou claro que o Al Sadd não teria uma vida tão fácil contra o Hienghène, o vencedor da Champions da Oceania. A equipe neocaledônia demonstrava um nível razoável de organização defensiva e passou a apostar nos lançamentos longos rumo ao seu ataque. Por mais que os catarianos seguissem a cartilha de Xavi, confiando mais na troca de passes, não conseguiam penetrar tanto na área. Era uma partida morna, em que os nanicos levavam mais perigo quando chegavam.

Antoine Roine era um azougue pelo lado esquerdo do ataque do Hienghène. Autor do gol do título na Champions com um chute do círculo central, o ponta partia em velocidade e encabeçava as principais jogadas dos neocaledônios. Ele chegou a virar uma acrobacia aos 18 minutos, forçando a defesa do goleiro Saad Al-Sheeb. O artilheiro Bertrand Kai era outro que tentava dar mais vigor à frente, mas sem tanto espaço no miolo da zaga.

O Al Sadd achou seu gol aos 25 minutos, quando deixou de tocar tanto a bola. O cruzamento da esquerda desviou no meio do caminho e apenas o matador Baghdad Bounedjah acreditou no lance. Diante do goleiro, não perdoou. O problema é que os catarianos pararam depois disso. Não forçaram para construir um placar mais elástico, que poderia dar tranquilidade ao segundo tempo. Aos 38, a equipe da casa até viu um gol anulado. Bounedjah cobrou falta com força, Rocky Nyikeine rebateu e Afif assinalou no rebote, mas um impedimento interferindo a visão do goleiro anulou a jogada. Era pouco.

E se o Hienghène procurava uma bola para causar problemas, os nanicos a encontraram logo aos três minutos do segundo tempo. Após um passe espetado, Roine ganhou da marcação no corpo e, de frente para Al-Sheeb, não teve problemas para vencer o goleiro. O árbitro causou uma confusão desnecessária e precisou revisar o lance no vídeo, mas acabou validando o tento. Depois disso, a tensão pesou de vez contra o Al Sadd. Os catarianos criaram um caminhão de chances e incrivelmente não empatavam.

Nyikeine também começou a aparecer. O goleiro não segurava uma bola sequer, mas passou a operar os seus milagres. Aos 18 minutos, Gabi soltou um petardo e o arqueiro rebateu o chute desviado, que ainda triscou na trave. Logo depois, Nyikeine espalmou uma bola escorada por Bounedjah e Hassan Al-Haydos anotou no rebote, mas o camisa 10 estava impedido e o lance terminou anulado. O Al Sadd quase toda hora tentava um drible a mais ou um passe arriscado, insistindo nos erros. O Hienghène era heroico.

Outro destaque dos neocaledônios era o lateral Joseph Athale. O cabeludo se desdobrava para salvar os lances dentro da área e quase marcou o seu aos 33, numa bomba da intermediária que o goleiro Al-Sheeb desviou com a ponta dos dedos. O defensor ainda adiaria a vitória do Al Sadd com duas bolas afastadas em cima da linha. O Hienghène sentia o cansaço e passou a ficar mais recuado nos instantes finais. Tinham sorte porque os catarianos martelavam e falhavam demais na pontaria, com uma coleção de finalizações risíveis de Afif.

A prorrogação começou e o Al Sadd pressionava mais. O problema era mesmo concluir na meta, com uma quantidade alarmante de gols perdidos. A vitória só começou a se abrir aos nove minutos, quando o árbitro assinalou um discutível recuo de bola a Nyikeine. O tiro livre indireto foi cobrado quase na marca do pênalti e Abdelkarim Hassan enfiou o pé na bola, com um chute potente que passou no meio da barreira, formada em cima da linha.

Só então o Al Sadd teria um pouco mais de calma, e abriria a diferença no segundo tempo extra. Athale salvou sua terceira em cima da linha e Bounedjah mandou no travessão. Nyikeine também negou mais uma vez o tento de Afif. Por fim, o terceiro viria aos oito minutos, num contragolpe. Ró-Ró recebeu livre dentro da área e mandou o chute forte para superar o goleiro. A partir de então, o duelo se arrastou ao apito final. Os catarianos respiraram, mas sabem que precisam melhorar muito.

O Monterrey não será tão frágil nas quartas de final. Com a postura desta quarta, o Al Sadd corre risco de ser goleado. O time foi muito mal no ataque, apesar do domínio, e tomou sustos nos raros ataques dos azarões. Por outro lado, o Hienghène sai valorizado. A esperada diferença técnica não se provou tão gritante e o esforço dos neocaledônios valeu 30 minutos a mais no Mundial de Clubes. A mera participação já tinha enorme valor simbólico aos nanicos. E a forma como encararam um adversário muito mais rico deve render festa no retorno dos jogadores ao país. Honraram a oportunidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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