Mundial de Clubes

Por que o futebol não engrena de vez nos EUA, sede do Mundial e da próxima Copa?

Prestes a receber a Copa do Mundo de Clubes e a de seleções, EUA ainda sofrem para fazer do "soccer" uma paixão

Em 14 de julho, em Miami, a primeira Copa do Mundo de Clubes, o novo Mundial da Fifa, terá início. O primeiro jogo será Inter Miami x Al Ahly. O torneio, que reúne 32 clubes de todos os continentes, será um bom ensaio para a Copa do Mundo de seleções, que os EUA receberão, em 2026, com México e Canadá.

Além do time de Lionel Messi, Seattle Sounders e Los Angeles FC representarão a MLS no torneio.

As duas copas são mais uma tentativa conjunta dos EUA e da Fifa de transformar o futebol em um esporte mais representativo no país em que modalidades e ligas mais movimentam dinheiro no planeta.

Essa nova tentativa reprisa o que aconteceu nos anos 1990, quando os EUA também receberam a Copa do Mundo de 1994. Na época, os americanos viviam o nascimento da MLS. E a Copa era a parte do instrumental de propaganda da liga. Até deu certo, mas não totalmente como se esperava.

Se o futebol engrenar nos EUA, investidores, empresas de marketing esportivo, de equipamentos, mídia e uma infinidade de players adjacentes só tem a ganhar — sem contar a Fifa, que vai expandir seus tentáculos no maior mercado possível. Só falta combinar com o público norte-americano.

Isso porque, 30 anos depois da primeira tentativa, por mais que a MLS já tenha se desenvolvido um pouco, e que nomes com o peso de David Beckham, do City Group e da Red Bull tenham se juntado à liga como operadores de equipes, o futebol não consegue competir com os outros esportes em termos de popularidade.

E isso se deve a uma série de fatores.

“Não sei para quem torcer”

Em 2018, a consultoria de branding inglesa Hall & Partners conduziu um estudo no mercado norte-americano para tentar entender o fenômeno. Tendo como universo de amostragem apenas fãs de esportes, a pesquisa perguntou: “Por que você não gosta do futebol?”. As cinco respostas que resumem a opinião dos entrevistados foram:

  1. Outros esportes são mais relevantes para a cultura americana.
  2. Estou satisfeito com os outros esportes a que assisto.
  3. Não sinto paixão por nenhum time ou não sei para que time torcer.
  4. Os jogos são muito lentos / não são empolgantes o suficiente.
  5. Não conheço nenhum dos grandes nomes do futebol.

A conclusão é meio óbvia, mas vale reforçar: O norte-americano médio não foi ensinado a gostar do “soccer“.

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O fator patriótico nos EUA

Torcedor com a bandeira dos EUA (Foto: Imago)

A Universidade de Syracuse, no Estado de Nova Iorque, também se debruçou sobre o tema. E teve conclusões parecidas, mas que aprofundaram um pouco mais a questão. Segundo o artigo acadêmico do jornalista Paul Confio, o patriotismo também entra no balaio de explicações.

Durante boa parte do século XX, o futebol teve pouquíssima visibilidade na mídia americana. As principais partidas do planeta não eram transmitidas nem reprisadas, tampouco destacadas nos programas esportivos. Essa ausência nas telas impediu a formação de uma base sólida de fãs e contribuiu para a ideia de que o futebol era irrelevante no contexto esportivo nacional.

Além da mídia, as instituições educacionais americanas contribuíram para limitar a expansão do futebol. As escolas e universidades passaram a ser “donas” da formação esportiva, com cada vez mais força e popularidade, a partir dos anos 1960. E o futebol, caro aos imigrantes, não era praticado nesses ambientes, já que a maior parte dos forasteiros não cursa ensino superior nos EUA.

Foi só nos anos 1980 que as escolas secundárias, as high schools, passaram a incluir o futebol no currículo, sendo abraçado principalmente pelas meninas.

Tal movimento acabou levando, lentamente, o futebol às universidades, ainda de modo muito incipiente. Mas essa exclusão temporal tão longa foi reforçada por correntes ideológicas patrióticas, que promoviam esportes considerados “verdadeiramente americanos” como símbolo de identidade nacional.

Como inserir ‘breaks’ comerciais?

Outro grande desafio veio do modelo de negócios da televisão americana. Diferente de outros esportes, o futebol oferece poucas oportunidades naturais para intervalos comerciais. Isso dificultou sua aceitação por emissoras e anunciantes, tornando o esporte menos atraente economicamente.

Enquanto isso, o desenvolvimento da MLS foi priorizado em vez da promoção de ligas europeias, onde o futebol já era altamente valorizado e mais bem praticado. Essa aposta no modelo doméstico, embora importante para a estruturação do esporte, limitou o acesso dos americanos ao alto nível do futebol internacional, contribuindo para o distanciamento cultural.

Por tudo isso, o futebol ganhou nos EUA a imagem de “esporte infantil”, “feminino” ou “de imigrantes”. Essa percepção dificultou sua aceitação como modalidade esportiva adulta de prestígio. Embora o futebol continue crescendo em número de praticantes e popularidade entre os jovens, ele ainda tem uma longa jornada para conquistar seu espaço.

Torcedores do Seattle Sounders em jogo da MLS
Torcedores do Seattle Sounders em jogo da MLS. Foto: IMAGO

Uma liga com formação deficitária de atletas no país do Mundial

Em entrevista ao podcast “Smartless”, David Beckham, cujo Inter Miami vai enfrentar o Palmeiras em 25 de junho, falou sobre sua chegada aos EUA como jogador, ainda em 2007, para atuar no Los Angeles Galaxy.

— Naquela época, eu fui muito criticado, inclusive como atleta, por me juntar à MLS. A liga não era como hoje. Havia apenas 14 times (nota: hoje são 30). O contrato da TV não era bom. Mas eu via uma oportunidade de negócios. Então, quando vim jogar, já atrelei minha chegada à possibilidade de ser dono de um time — revelou.

— No fim do dia, é muito difícil ficarmos do mesmo tamanho do beisebol, do futebol americano e do basquete. As coisas são como são. Mas eu creio que tenhamos uma oportunidade real com o futebol na MLS — disse.

Ele não estava errado. Está em vigor desde 2023, um contrato de dez anos da Apple com a liga, pelos direitos de transmissão. O valor pelo período bate em US$ 2,5 bilhões — R$ 13,99 bilhões.

Um dos pontos de evolução que Beckham vê é o fato de hoje todos os clubes contarem com algum tipo de categoria de base.

— Quando cheguei aqui, perguntei aos comissários da liga como era a formação, e ele me disse que não existiam categorias de base. Eu expliquei que, sem isso, não havia como evoluir — disse o inglês.

Na visão de Matheus Rocha, um dos coordenadores de conteúdo da Trivela, há outros problemas ligados à MLS que impedem o futebol de se tornar mais relevante, mesmo com a implantação da base. Até porque, muitos atletas das categorias de base, em paralelo, disputam o futebol universitário e chegam à MLS com 23 anos.

— Os jogadores saem muito tarde do futebol universitário para o profissional. E o futebol universitário tem regras muito diferentes, enfrentamentos de baixo nível e torneios relativamente pequenos durante os anos que deveriam ser os principais anos de crescimento dos jogadores — diz.

— Isso acaba fazendo com que os jogadores cheguem à MLS num patamar abaixo de jogadores que chegam a outras ligas, e acaba diminuindo o nível técnico geral — completa.

Orçamento baixo

O problema do nível técnico é agravado pelo baixo orçamento dos clubes. Atualmente, o teto salarial anual dos times é US$ 5,9 milhões, algo próximo de R$ 30 milhões anuais.

Mesmo com a possibilidade de contratar três jogadores acima desse teto — os “atletas designados” — tal valor não é suficiente para formar equipes com estrelas de nível internacional, com raras exceções. Ou veteranos, normalmente longe de seus melhores momentos, atraídos aos EUA mais por outras questões do que pelos desafios em campo.

É esse nível técnico mais baixo, decorrente de tantas questões, o que faz o futebol nos EUA se tornar desinteressante, num círculo vicioso e distante do público adulto.

O norte-americano, como reforça o estudo da consultoria Hall & Partners, é muito centrado na sua própria cultura. Mas, ao mesmo tempo, embora tenha pouca afinidade com a modalidade, é capaz de discernir quando um jogo é bom ou ruim — ou, no mínimo, bom de assistir.

Com jogadores e partidas de nível técnico questionável, poucas estrelas, atletas com formação deficiente e pouca tradição cultural, como culpar o público pela falta de apreço pelo soccer? E como fazer um esporte engrenar sem um público cativo?

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.

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