Um mini-guia para acompanhar o Wydad Casablanca x Al-Hilal pelo Mundial de Clubes
Wydad e Hilal prometem uma partida com muitos atrativos, para definir quem encarará o Flamengo na semifinal do torneio

O Mundial de Clubes começou na última quarta-feira, com a vitória do Al-Ahly sobre o Auckland City na primeira fase classificatória do torneio. Porém, a sensação de que a competição realmente pega fogo se inicia a partir das quartas de final. Campeões de África, Ásia e América do Norte e Central iniciam suas jornadas para definir quem desafiará europeus e sul-americanos. E a promessa é de uma partida de grandes dimensões para o “Mundo Árabe” neste sábado, em Rabat. Wydad Casablanca e Al-Hilal farão um embate de gigantes regionais, no qual o vencedor estará no caminho do Flamengo.
Há uma clara empolgação ao redor do Wydad. Os alvirrubros vêm de uma temporada excelente, com a conquista da Champions Africana e também do Campeonato Marroquino. O WAC atuará no país, diante de sua vibrante torcida, e carregará consigo o clima positivo dos marroquinos após a participação histórica na Copa do Mundo. O clube era comandado por Walid Regragui até alguns meses atrás, afinal. Mas não que o Al-Hilal também não se beneficie dessa expectativa. Os alviazuis trazem a base da Arábia Saudita que derrotou a Argentina na Copa, complementada por uma série de estrangeiros renomados. Como a Champions Asiática mudou seu calendário, a equipe chega ao Mundial por ter sido campeã continental em 2021. Mesmo assim, conta com um elenco que dominou o futebol local nos últimos anos.
Há vários elementos para se aguardar um jogo bem legal em Rabat. São clubes tradicionais, de torcidas eletrizantes e bons destaques dentro de campo. Abaixo, preparamos um mini-guia. O pontapé inicial acontece às 11h30 deste sábado, horário de Brasília, com transmissão do SporTV e da Cazé TV.

História no continente
Wydad Casablanca
Maior campeão de Marrocos, com 22 títulos da liga, o Wydad Casablanca também se acostumou a fazer grandes campanhas na Champions Africana. O momento de maior representatividade do clube começa na virada dos anos 1980 para os anos 1990, de muita força do país no contexto internacional. A inédita taça dos alvirrubros veio em 1992. Já a retomada do WAC como potência na África aconteceu a partir de meados da década passada. Um aviso veio com o vice em 2011, antes que os sucessos na Champions se tornassem consecutivos. O time foi campeão em 2017, encerrando o jejum de 25 anos, antes de repetir o feito em 2022. Desde 2016, o clube de Casablanca ainda possui mais um vice na Champions e outras três aparições em que caiu nas semifinais. Nas competições secundárias, o WAC venceu a Recopa Africana de 2002 e a Supercopa de 2018.
Al Hilal
O Al-Hilal é o maior vencedor da Champions Asiática, embora a hegemonia tenha se consolidado apenas recentemente. De qualquer maneira, os sucessos vão desde os primórdios do torneio, com vices em 1986 e 1987, até a taça inédita em 1991. Os alviazuis ainda levaram Recopa Asiática e Supercopa Asiática nos anos 1990, enquanto se sagraram novamente na Champions em 2000 – ano em que também comemoraram a segunda Supercopa. Já em 2002, pintou mais uma Recopa no museu dos sauditas. O Hilal atravessou um jejum incômodo nos torneios continentais depois disso, que incluiu várias campanhas mais curtas na Champions, além dos vices em 2014 e 2017. O esperado tri aconteceu em 2019, com o tetra logo confirmado em 2021.

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História no Mundial
Wydad Casablanca
O Wydad Casablanca decepcionou em sua única participação no Mundial de Clubes, em 2017. A equipe caiu logo nas quartas de final. Os marroquinos deram trabalho para o Pachuca, mas perderam na prorrogação por 1 a 0. Já na decisão do quinto lugar, também foram derrotados pelo Urawa Red Diamonds, por 3 a 2. Assim, os alvirrubros entram em campo com a responsabilidade de buscar a primeira vitória do clube no torneio – pressionados por aquilo que o rival Raja aprontou em 2013.
Al-Hilal
O Al-Hilal disputará seu terceiro Mundial nas últimas quatro edições. E as impressões sobre os sauditas são positivas. Em 2019, a equipe derrotou o Espérance por 1 a 0 e deu trabalho na semifinal contra o Flamengo, que só no segundo tempo virou para 3 a 1. Na decisão do terceiro lugar, os sauditas empataram com o Monterrey por 2 a 2 e foram derrotados nos pênaltis. Em 2021, mais um papel honroso do Hilal. A equipe enfiou 6 a 1 sobre o anfitrião Al-Jazira nas quartas e também endureceu contra o Chelsea, que ganhou num magro 1 a 0 a semifinal. Só não deu para levar o bronze de novo, com os 4 a 0 do Al-Ahly.

Desempenho recente
Wydad Casablanca
O Wydad Casablanca aparece na perseguição aos líderes no Campeonato Marroquino. O time soma 32 pontos, dois a menos que o FAR Rabat. Os alvirrubros perderam o confronto direto, apesar das nove vitórias em 16 compromissos. O WAC levou três dos últimos quatro troféus da liga. Já na campanha na Champions Africana, apesar de um susto, o Wydad se garantiu na fase de grupos. Perdeu a ida da última etapa preliminar para o Rivers United, na Nigéria, mas depois enfiou 6 a 0 em Casablanca. A etapa principal do torneio continental começará na sequência de fevereiro.
Al-Hilal
O Al-Hilal oscilou um pouco mais do que de costume na atual temporada do Campeonato Saudita. Os alviazuis ocupam a terceira colocação, com 32 pontos, dois pontos atrás do líder Al-Nassr. De qualquer maneira, a hegemonia recente na liga nacional é inquestionável: são cinco dos últimos seis troféus da competição. Atualmente o Hilal está invicto há dez rodadas no Sauditão, com cinco vitórias e cinco empates. Em compensação, foi eliminado na semifinal da Supercopa Saudita contra o pequeno Al-Fayha.

Destaques no elenco
Wydad Casablanca
O Wydad Casablanca contou com três jogadores que participaram da epopeia de Marrocos na Copa do Mundo. O goleiro Ahmed Reda Tagnaouti teve menos destaque, como terceira opção na posição, mas possui uma história vitoriosa no clube, com cinco títulos no Campeonato Marroquino. Yahia Attiyat Allah, por sua vez, chega com moral depois da Copa. O lateral esquerdo precisou substituir Noussair Mazraoui e foi muito bem, inclusive pela assistência no gol da vitória contra Portugal. Já a maior referência é o volante Yahya Jabrane, capitão do WAC. O veterano entrou pouco na Copa, mas é o principal jogador em atividade no país. Possui chegada ao ataque, potência física e foi fundamental na conquista da Champions Africana. Sem pintar no Catar, o herói do Wydad na Champions Africana de 2022 foi o meia Zouhair El Moutaraji, autor dos dois gols na final contra o Al-Ahly. Olho também no camisa 10 Aymane El Hassouni, que não disputou a Copa, mas vem em boa sequência pelos alvirrubros.
O Wydad possui ainda um número significativo de estrangeiros, alguns deles mais conhecidos. Inclusive investiu em reforços de fora para o Mundial. A contratação mais controversa é a do zagueiro Djamel Benlamri, num momento de relações rompidas entre Argélia e Marrocos. O beque de 33 anos tem passagem pelo Lyon e foi titular dos argelinos na conquista da Copa Africana de Nações em 2019. Já no ataque, as expectativas ficam para a compra do camaronês Didier Lamkel Zé. Apesar do histórico de indisciplina, o centroavante vestiu a camisa de vários clubes da Europa, com maior destaque à sua passagem pelo Royal Antuérpia.
Outra aquisição da temporada é o atacante senegalês Bouly Junior Sambou, que começou fazendo gols na Champions Africana. Já o ponta Muaid Ellafi está há mais tempo no elenco, importante tanto no WAC quanto na seleção da Líbia. Vale dizer ainda que alguns dos destaques do time vencedor da Champions foram vendidos nos últimos meses. O atacante Guy Mbenza era a principal referência ofensiva e assinou com o Al-Tai, da Arábia Saudita. Já na zaga, o promissor Achraf Dari seguiu ao Brest e foi mais um com história no clube presente na ascensão de Marrocos durante a Copa do Mundo.

Al-Hilal
O Al-Hilal formava a base principal da Arábia Saudita na Copa do Mundo. Natural, então, que vários destaques da seleção também despontem no clube. Uma referência na defesa é o zagueiro Ali Al-Boleahi, um dos melhores em campo na vitória sobre a Argentina. Os laterais Saud Abdulhamid e Nasser Al-Dawsari também jogaram a Copa, embora o setor tenha o desfalque de Yasser Al-Shahrani, ótimo lateral esquerdo que fraturou a mandíbula no Catar. Também vale a menção ao goleiro Mohammed Al-Owais, que foi o titular dos sauditas no torneio, mas frequenta a reserva do veterano Abdullah Al-Mayouf no clube.
O meio-campo do Al-Hilal conta com o ótimo Mohamed Kanno, grata surpresa dos sauditas na Copa e um dos melhores de sua posição no torneio. Também presentes na Copa, outras opções por ali são Abdullah Otayf, Abdulelah Al-Malki e o veterano Salman Al-Faraj. Já o ataque demanda mais cuidado, a começar por Salem Al-Dawsari. Autor do golaço contra a Argentina, o ponta é uma referência técnica do Hilal há anos e costuma aparecer bem nas competições internacionais pelo clube. Já o centroavante é o oportunista Saleh Al-Shehri, que também balançou as redes dos argentinos na estreia e costuma vir bem do banco de reservas.
O que torna o Al-Hilal mais forte, de qualquer maneira, é a mescla com estrangeiros. Titular da Coreia da Sul na Copa, Jang Hyun-soo é titular na zaga. O esteio na cabeça de área é o colombiano Gustavo Cuéllar, velho conhecido dos flamenguistas. Já o ataque reúne cinco estrangeiros, o que leva Salem Al-Dawsari até a ser recuado algumas vezes. Michael e André Carrillo são atletas mais leves para as pontas, enquanto Moussa Marega e Odion Ighalo garantem mais presença física. Ainda há Luciano Vietto entre as boas possibilidades. Matheus Pereira, que tinha sido um reforço caro ao ser trazido do West Brom, foi emprestado recentemente ao Al-Wahda, dos Emirados Árabes Unidos.

Treinador
Wydad Casablanca
O Wydad Casablanca conquistou a Champions Africana sob as ordens de Walid Regragui. O técnico deixou o clube para fazer história com Marrocos, mas, apesar da base montada, sua sucessão não vem sendo tão simples. Hussein Ammouta foi o escolhido como seu substituto, responsável pelo título continental do Wydad em 2017 e também pelo título do Campeonato Africano de Nações com Marrocos em 2020. Porém, durou só 11 partidas. O comando atualmente está nas mãos de Mehdi Nafti. O tunisiano foi um jogador importante de sua seleção, mas ainda tenta emplacar como treinador, com trabalhos em vários times das divisões de acesso da Espanha. É uma incógnita na casamata do WAC.
Al-Hilal
O Al-Hilal não costuma ter grande paciência com seus treinadores. No entanto, ganhou estabilidade desde que buscou Ramón Díaz de volta. O veterano argentino, personagem histórico no comando do River Plate, dirigiu os alviazuis pela primeira vez entre 2016 e 2018. Ganhou o Campeonato Saudita e foi vice da Champions Asiática. Sua volta aconteceu em fevereiro de 2022, para substituir Leonardo Jardim. E renovou as glórias em Riad, ao faturar o último troféu do Campeonato Saudita. Seu aproveitamento na atual passagem é ótimo, com 28 vitórias em 38 compromissos.

Ídolo histórico
Wydad Casablanca
Maior goleiro da história de Marrocos, Badou Zaki é uma figura extremamente identificada com o Wydad Casablanca. O arqueiro despontou no clube a partir de 1978, aos 21 anos. Conquistou logo de cara o título nacional e consolidou sua imagem como um dos melhores jogadores do país, com outros troféus. O ápice de sua carreira aconteceu em 1986. O arqueiro do WAC foi convocado para a Copa do Mundo e fechou o gol na campanha dos Leões do Atlas até as oitavas de final. Foi eleito o melhor jogador em atividade na África, mas também virou alvo da cobiça de clubes europeus e se transferiu ao Mallorca, onde também virou ídolo. Voltou depois ao Wydad como técnico, com quatro passagens entre 1995 e 2013.
Al-Hilal
A grande referência do Al-Hilal em sua história vitoriosa é o atacante Sami Al-Jaber, um dos maiores talentos do Oriente Médio em todos os tempos. O ídolo nacional vestiu a camisa alviazul de 1989 a 2007, apenas com uma rápida passagem pelo Wolverhampton em 2000, sem muito sucesso. Sua lista de conquistas inclui cinco troféus do Campeonato Saudita e dois da Champions Asiática, além de duas Recopas Asiáticas. Também foi muito vitorioso pela seleção, com um troféu da Copa da Ásia, além da presença em quatro Copas do Mundo. Depois de se aposentar, voltou como técnico e também presidente do Hilal.

Ídolo recente
Wydad Casablanca
A imagem que Walid Regragui deixou no Wydad Casablanca é muito forte. O treinador passou menos de um ano com os alvirrubros, mas foi responsável por uma das temporadas mais espetaculares da agremiação. Conquistou a Champions Africana e o Campeonato Marroquino, enquanto a tríplice coroa escapou com o vice na Copa de Marrocos. A sua postura à beira do campo, muito vibrante, aumentou ainda mais sua adoração pelos torcedores. Entretanto, a oportunidade na seleção marroquina era irrecusável. Foi quando todo o país pôde festejar também o técnico, por seus claros méritos na inesquecível caminhada até as semifinais da Copa do Mundo.
Al-Hilal
Bafétimbi Gomis foi um dos jogadores que mudaram a história recente do Al-Hilal na Champions Asiática. O centroavante fez a diferença nos dois títulos dos alviazuis nos últimos anos. Em 2019, ele simplesmente arrebentou no torneio continental: terminou eleito o melhor jogador e também foi o artilheiro, com o direito ao gol que selou a conquista. Também seria importante em 2021, como artilheiro do Hilal na campanha, mas não mais do torneio. O francês permaneceu quatro anos em Riad, com 116 gols em 154 partidas, antes de retornar ao Galatasaray no meio da temporada passada.

Personagem brasileiro
Wydad Casablanca
O Wydad Casablanca teve dois técnicos brasileiros em sua história. O mais recente foi o carioca José Dutra, que dirigiu os alvirrubros em 2010. Já o nome mais notável é o de Jorvan Vieira. O caxiense dirigiu o WAC por um breve período em 1984, sem grande feitos. No entanto, em sua passagem pelo país, também se tornou assistente de José “Mehdi” Faria na seleção marroquina. Acabaria se tornando uma figura essencial no sucesso dos Leões do Atlas na Copa de 1986, em sua caminhada até as oitavas de final. Depois, Vieira rodou por vários clubes e seleções árabes, com destaque ao título da Copa da Ásia de 2007 à frente do Iraque.
Al-Hilal
A lista de brasileiros no Al-Hilal é ampla. Os alviazuis já tiveram no comando técnico figurões como Zagallo, Rubens Minelli, Valdir Espinosa, Candinho, Paulo Amaral, Joel Santana, Sebastião Lazaroni, Oscar, Nelsinho Baptista, Antônio Lopes, Toninho Cerezo, Marcos Paquetá e ainda outros. Já a lista de jogadores inclui Dé Aranha, Roni, Sérgio Soares, Somália, Leandro Ávila, Giovanni, Thiago Neves, Digão e Carlos Eduardo. Nenhum deles com a estatura de Roberto Rivellino. O meia desembarcou em Riad no ano de 1979, consagrado como herói da seleção brasileira, com uma proposta salarial sete vezes maior do que ganhava no Fluminense. Em partes, Riva representa para a Arábia Saudita o que foi Pelé aos Estados Unidos, como um pioneiro rumo à profissionalização mais ampla da liga local. Ficou três temporadas, com títulos da liga e da copa, até se aposentar em 1981.

A torcida
Wydad Casablanca
O Wydad Casablanca possui a seu favor um dos grupos de ultras mais fantásticos do planeta. algo que reflete a tradição de um clube formado como resistência árabe nos tempos de colonialismo francês – embora o Wydad seja mais próximo da monarquia vigente em Marrocos do que o rival Raja Casablanca, o que marca uma oposição importante entre ambos.
Al-Hilal
A torcida do Al-Hilal é uma das maiores da Ásia. A atmosfera nas partidas dos alviazuis está entre as mais vibrantes da Champions Asiática, notável especialmente pelos espetáculos durante as entradas dos times. O Hilal é especialista em mosaicos, que se repetiram em decisões e grandes ocasiões continentais nos últimos anos. Também foram os torcedores alviazuis que auxiliaram no ambiente da seleção saudita durante a última Copa do Mundo.




