O Liverpool foi ao Catar com problemas. Dejan Lovren e Joel Matip, dois zagueiros, nem viajaram, e Wijnaldum entrou no avião com problemas físicos. Para piorar as coisas, Virgil Van Dijk nem foi relacionado para a semifinal contra o Monterrey porque estava doente. E mesmo com tantos desfalques que não podia controlar, decidiu acrescentar mais alguns poupando Trent Alexander-Arnold, Sadio Mané e . Resultado: o remendo que entrou em campo sofreu demais contra um ótimo adversário e correu sério risco de ser o primeiro europeu a precisar disputar a prorrogação nas semifinais do Mundial. Os titulares, porém, saíram do banco e, nos minutos finais, resolveram: de Arnold para Firmino, e o marcou um encontro com o Flamengo, no sábado, com a vitória por 2 a 1.

Klopp arriscou duas vezes. Natural pensar em rodar o elenco, em meio a uma maratona de jogos e com outros objetivos na temporada, mas poupar três dos seus principais jogadores em uma escalação que já estava muito desfalcada fragilizou todo o seu sistema. A principal característica do time vermelho é a pressão ao portador da bola que começa desde os atacantes. Com Jordan Henderson e James Milner precisando compor a linha defensiva, Adam Lallana precisou jogar desde o início no meio, e Xherdan Shaqiri foi titular no ataque, ao lado de Origi e Salah.

Lallana e Shaqiri não são preguiçosos, mas não exercem pressão como muitos de seus colegas, nem tem imposição física. Isso somado a dois meias na linha defensiva ao lado do zagueiro mais jovem do elenco principal, e de uma intensidade abaixo da habitual, o Liverpool sofreu demais com as transições rápidas do , especialmente aquelas que envolveram Dorlan Pabón nas costas de Robertson, curiosamente o único titular incontestável da retaguarda que esteve em campo desde o começo.

Na frente, a criação no primeiro tempo dependeu mais de Salah, um pouco à direita da área de atuação de Firmino, tentando dar sequência às jogadas. E funcionou. O egípcio deu um lindo passe para a infiltração de Naby Keita, e o placar foi aberto aos 12 minutos. No entanto, logo na sequência, a defesa não conseguiu afastar uma falta cobrada à área, e Funes Mori conseguiu o empate, no rebote de Alisson.

Salah conseguiu descolar outro lindo passe para a chegada de Milner, que parou na perna esquerda de Barovero. O Monterrey respondeu com Pabón chegando pela direita e batendo cruzado com força. Alisson fez uma linda defesa. Em jogada parecida, deu o tapinha na hora certa para desviar um cruzamento rasteiro de Pabón à segunda trave. A roubada de carteira de Salah em Nicolás Sánchez poderia ter gerado uma situação de perigo não fosse a ótima recuperação do zagueiro-artilheiro dos mexicanos. Chamberlain deu bom passe para outra infiltração de Keita, mas, desta vez, Barovero saiu na hora certa e conseguiu abafar.

O Liverpool havia feito um primeiro tempo em ritmo abaixo ao que está acostumado e assim continuou depois do intervalo, com o Monterrey frequentemente chegando com perigo. Alisson precisou fazer uma grande defesa em cobrança de falta de Pabón, que também perdeu uma ótima oportunidade, depois de uma bola que cruzou a área vermelha. No outro lado, o melhor foi uma jogada boa de Keita que parou em Barovero.

O segundo risco que Klopp correu foi demorar para colocar seus principais jogadores em campo, no momento em que estava mais do que claro que o jogo estava complicado. Mané entrou aos 23 minutos, Arnold aos 30 e Firmino apenas aos 40. Em outros jogos enroscados desta temporada, o Liverpool de repente engatou uma quinta marcha e fez um abafa tão grande que conseguiu resolver a situação, mas, contra o Monterrey, sequer tentou.

Tanto que o gol da vitória saiu meio que de repente, quando a prorrogação já parecia inevitável, e mostrou exatamente a diferença que a ausência dos poupados estava fazendo. Arnold deu um daqueles cruzamentos conscientes que já estão virando sua marca registrada. Um passe rasteiro na primeira trave, que Firmino apenas desviou para garantir a vitória.

As decisões de Klopp são compreensíveis diante do contexto, mas ele riu demais na cara do perigo. Poderia muito bem ter precisado jogar uma vexatória prorrogação, pela diferença de orçamentos e times, o que anularia muitos dos efeitos do descanso, ou mesmo ser eliminado, não fossem grandes defesas de Alisson nos momentos certos. Mas, no fim, deu certo, apesar de uma atuação muito ruim, como o aluno que virou a noite jogando videogame e passou na prova por meio ponto.

Agora, sufoco para trás, a situação para a final é diferente. Alguns de seus principais jogadores estão mais descansados, Van Dijk talvez retorne e o desafio é outro. Mas, em qualquer cenário, o Liverpool terá que se esforçar mais para vencer o Flamengo e conquistar seu primeiro título mundial.

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