Mundial de Clubes

Com grande participação de Rafael Carioca, a imponência do meio-campo do Tigres foi uma das chaves à inédita decisão

Quando precisou apresentar um pouco mais de futebol no Mundial de Clubes, diante do Palmeiras, o Tigres realizou uma excelente partida do ponto de vista tático. André-Pierre Gignac, mais uma vez, seria decisivo com o gol de pênalti que definiu o placar de 1 a 0 e representou bastante perigo a Weverton nesta semifinal. No entanto, o equilíbrio no meio-campo dos felinos também seria fundamental. Tuca Ferretti ganhou a partida por ali, com uma marcação muito sólida e uma capacidade de criação pelos lados exibida sobretudo no primeiro tempo. Rafael Carioca teve uma atuação acima da média. Com méritos evidentes, os mexicanos alcançam sua primeira decisão na história do Mundial.

Por fase recente, o Tigres talvez não fosse o melhor dos representantes do México desde que a competição da Fifa passou a ser organizada seguidamente, com campanhas mais mornas no Campeonato Mexicano durante os últimos meses. Porém, os felinos contam com uma experiência em seu elenco que nenhum outro mexicano possuía no Mundial. É um grupo que atua junto há anos, e que participou de quatro decisões continentais até finalmente erguer o título inédito. Vários jogadores possuem rodagem internacional, com destaque óbvio a Gignac por seu poder de decisão. Além disso, Tuca Ferretti é um dos principais treinadores da história da Liga MX e tem enorme ascendência sobre seu grupo. Algo que se notou no Catar.

Contra o Palmeiras, o Tigres precisou atuar num ritmo mais forte do que diante do Ulsan Hyundai. Isso foi notado desde os primeiros minutos, quando a marcação se adiantou e travou o Palmeiras. A equipe de Abel Ferreira, por outro lado, preferiu especular e esperar um pouco mais o seu adversário. Permitiu o domínio dos felinos durante grande parte do primeiro tempo, e que poderia ter gerado o primeiro gol antes do intervalo, não fossem as defesas providenciais de Weverton no duelo particular com Gignac.

Para que tal estratégia desse certo, o Tigres contou com um excelente trabalho de seu quarteto no meio-campo. Tuca Ferretti dispõe de dois volantes altamente experientes. Rafael Carioca chegou ao México em 2017 e, desde então, é uma peça central ao equilíbrio dos felinos. Aos 31 anos, o camisa 5 contribuiu bastante ao funcionamento do meio neste domingo, com presença em diferentes partes da intermediária graças ao inteligente posicionamento e capacidade técnica para ditar o ritmo. Conduziu e organizou a partida dos auriazuis. Deu passes precisos, criou algumas jogadas com bolas mais longas e também travou o Palmeiras com seus duelos. Terminou como um dos melhores em campo na semifinal.

Da mesma maneira, Guido Pizarro foi ótimo para fechar o meio. O capitão é um dos jogadores mais antigos do elenco, embora tenha passado brevemente pelo Sevilla na temporada 2017/18. Com um estilo de jogo mais físico, o argentino não trabalharia tanto para a engrenagem girar quanto seu parceiro de cabeça de área. Ainda assim, teve grande papel na ocupação dos espaços e também na proteção da defesa. Deu mais segurança para atuações excelentes de Diego Reyes e Carlos Salcedo no miolo da zaga.

Já nas pontas, Javier Aquino acabou sendo um pouco mais coadjuvante pela direita. O lateral Luis Rodríguez seria mais ativo por ali. Seus cruzamentos resultaram em algumas das melhores finalizações dos auriazuis e foi dele também o passe na jogada do pênalti. Na ponta esquerda, por sua vez, Luis Quiñónes produziu com muita intensidade. Foi constante no apoio, criou boas jogadas e poderia ter terminado a partida com uma assistência. Incomodou principalmente com seus dribles, partindo para cima e aproveitando a conhecida fragilidade palmeirense naquele setor. O colombiano merece os elogios, como um dos jogadores com maior capacidade individual à disposição de Tuca Ferretti.

Na frente, Gignac demandava naturalmente mais atenções, mas o companheiro Carlos González também causou problemas. A defesa mais difícil de Weverton aconteceu exatamente numa cabeçada do paraguaio, que também sofreu o pênalti de Luan. De novo, não foi uma partida exuberante dos felinos. Porém, a efetividade os mexicanos esteve bastante expressa ao longo da noite. O time de Tuca Ferretti abriu o caminho ao resultado no primeiro tempo, o Palmeiras não corrigiu os problemas na volta do intervalo e os adversários logo conseguiram o gol. Depois disso, os vencedores da Concachampions administraram a vantagem até com certo conforto, fechando bem a cabeça de área e evitando grandes riscos, apesar da pressa alviverde.

O Palmeiras deixa a semifinal do Mundial de Clubes com mais questionamentos do que elogios. Foi uma partida bem abaixo das expectativas, sobretudo pela maneira como os alviverdes não produziram e pela postura contida durante a maior parte do jogo. O que não anula, entretanto, as virtudes do Tigres. Os felinos foram talhados às grandes partidas nos últimos anos e possuem jogadores experientes para tanto. Isso claramente pesou no Catar. Se demorou tanto para os mexicanos viverem seu momento, seja particularmente pelos vices dos auriazuis ou mesmo pelos fracassos dos compatriotas no Mundial, o time de Tuca Ferretti agarrou as chances. Não dá para dizer que foi uma surpresa, até pela imponência do Tigres neste domingo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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