Mundial de Clubes

Bayern de Munique: para aumentar a galeria de troféus

Todo clube europeu chega como favorito no Mundial de Clubes há pelo menos uma década. O caso do Bayern de Munique não é diferente. Desde o início dos anos 2000, quando a diferença financeira disparou, os europeus chegam com seleções mundiais para jogar o torneio. Os alemães ainda conquistaram o título continental de forma incontestável, vencendo simplesmente todos os jogos (ajudado pelo fato de não ter jogos de ida e volta nas quartas e na semifinal, por causa da pandemia).

O time de Hansi Flick chega à disputa sem viver uma temporada tão brilhante quanto a anterior, mas ainda como um dos grandes times do mundo e, mais uma vez, um dos favoritos a ganhar a Champions League. A motivação, sabemos, não é a mesma dos sul-americanos, africanos, asiáticos ou norte-americanos, mas ainda é um título e os bávaros sabem que qualquer resultado que não seja o título será visto como um fracasso. Um peso desnecessário em uma temporada que o time já tomou alguns chacoalhões.

É o líder da Bundesliga, mais uma vez favorito ao título, e tem o elenco completo para a disputa. Tudo indica que vai pisar no acelerador para aumentar a sua galeria de troféus.

A história de fundação

Tudo começou com uma academia de ginástica, a MTV 1879. Em uma reunião de membros, foi decidido que os jogadores de futebol ligados ao clube não poderiam se filiar à Federação de Futebol Alemã (DFB). Com isso, 11 membros da divisão de futebol deixaram o encontro e fundaram, naquela mesma noite, o Fussball-Club Bayern München. Inicialmente um clube de relevância apenas local, os bávaros só conquistariam o título da divisão sul em 1926.

A ascensão no futebol nacional

O primeiro título nacional do Bayern foi em 1932, justamente o último antes de ver Adolf Hitler assumir o poder e interferir no futebol, acabando com o profissionalismo. Os bávaros foram rotulados pelo regime nazista “clube de judeus” e o presidente, Kurt Landauer, teve que fugir do país, assim como o técnico. Muitos membros do clube foram perseguidos pelo regime. O time que tinha conseguido um título nacional reduziu de status, e tornou-se um time de meio de tabela em uma liga regional.

O clube passou por momentos de altos e baixos depois da guerra e do fim do regime nazista. O presidente exilado, Landauer, voltou do exílio em 1947 e foi novamente instaurado como presidente, posto que ele ocupou até 1951. Ele é considerado o inventor do Bayern profissional, que já era antes mesmo do regime de Hitler. Em 1955, o Bayern sofreu uma nova queda à segunda divisão. No ano seguinte, porém, conquistou a Copa da Alemanha pela primeira vez. No final dos anos 1950, o clube tinha dificuldades financeiras e quase faliu. Roland Endler, um industrial, estabilizou o time economicamente e levou a equipe para a primeira divisão em 1965 com jogadores que se tornariam históricos: o goleiro Sepp Maier, o líbero Franz Beckenbauer e o artilheiro Gerd Müller.

A Bundesliga tinha sido fundada em 1963 e, desde que subiu, o Bayern conquistou seu espaço. Seu primeiro ano na primeira divisão rendeu um terceiro lugar e o título da Copa da Alemanha, o que classificou a equipe para a Recopa na temporada seguinte. Eles venceriam o torneio, a primeira conquista europeia do clube, em uma final contra o Rangers, em 1967. Em 1968/69, o Bayern conquistaria o seu primeiro título da Bundesliga e, depois de dois vices nos anos seguintes, conquistaria um tri em 1971/72, 1972/73 e 1973/74. Tinha se tornado uma potência.

Histórico nas competições continentais

O primeiro título continental foi a extinta Recopa, como já citado, em 1966/67. Os bávaros conquistariam o principal título europeu, a Copa Europeia, em 1973/74, 1974/75 e 1975/76. Em 1995/96, conquistou a Copa da Uefa, segundo torneio mais importante do continente, em uma final com o Bordeaux.

Voltaria a conquistar o título europeu na temporada 2001/02, diante do Valencia, com Stefan Effenberg como capitão, o goleiro Oliver Kahn e o brasileiro Élber no ataque, além de Paulo Sérgio, campeão mundial com a seleção brasileira em 1994, como reserva. O hiato foi grande e os bávaros só chegariam ao seu quinto título da Champions League em 2012/13, em uma final local contra o Borussia Dortmund, que teve Arjen Robben e Franck Ribbéry como destaques. Em 2019/20, na bolha da Uefa em Lisboa, o time bateu o PSG na final e ficou com o título novamente, chegando ao sexto título do principal torneio continental.

Caminhada até o Mundial

O título do Bayern na temporada 2019/20 foi arrasador. No Grupo B, venceram todos os seus jogos: seis vitórias em seis jogos, incluindo um massacre por 7 a 2 sobre o Tottenham de Mauricio Pochettino (o que ajudou a desestabilizar de vez o técnico no cargo). Nas oitavas de final, um novo atropelamento: duas vitórias sobre o Chelsea, em Londres e em casa, ambas por goleada.

Das quartas de final em diante, a Champions foi disputada depois da paralisação por causa da pandemia da COVID-19. Já em Lisboa, um dos jogos mais marcantes da história da competição: um 8 a 2 sobre o Barcelona, em uma goleada que jamais será esquecida. Na semifinal, nova vitória com folga, desta vez sobre o Lyon. Por fim, na final, um jogo bem travado e equilibrado, com placar mínimo, 1 a 0, sobre o PSG, no dia 23 de agosto de 2020.

Participações anteriores no Mundial

A sua primeira participação deveria ser em 1974, mas o clube se recusou a jogar. Era uma época que alguns times europeus boicotavam a disputa reclamando de violência dos clubes na América do Sul. Por isso, foi o vice, Atlético de Madrid, que jogou contra o Independiente – e venceu. Em 1975, o Bayern deveria enfrentar o Independiente, mas não houve arranjo de calendário e o torneio simplesmente não aconteceu.

Por isso, a estreia foi só em 1976, o Bayern venceu o Cruzeiro em dois jogos, com vitória em Munique por 2 a 0 e empate por 0 a 0 no Mineirão. Em 2001, venceu a competição pela segunda vez diante do Boca Juniors, por 1 a 0. Em 2013, foi campeão contra o Raja Casablanca, em uma vitória por 2 a 0 – o campeão da Libertadores, Atlético Mineiro, caiu antes, na semifinal, para os marroquinos.

O destaque

Robert Lewandowski foi eleito o melhor jogador do mundo em 2020, o polonês só faltou fazer chover. Foram 47 jogos, 55 gols marcados e todos os títulos possíveis com o Bayern: Copa da Alemanha, Bundesliga e Champions League. Jogou um futebol de alto nível, letal no ataque. A sua eleição como vencedor do prêmio Fifa The Best premiu um jogador que, aos 32 anos, vive o auge da sua carreira. Pode conquistar o que para ele é um título inédito, do Mundial de Clubes.

Os estrangeiros

Como todos os países da União Europeia, o Bayern tem muitos estrangeiros, já que todos os países membros são tratados como locais. Ou seja: só são considerados estrangeiros os jogadores de fora da União Europeia. Por isso, o time é uma seleção internacional. Entre os estrangeiros, destaque para a legião francesa: são seis no elenco principal: Tanguy Nianzou, Lucas Hernández, Benjamin Pavard, Bouna Sarr, Corentin Tolisso e Kingsley Coman, autor do gol do título na Champions League.

Além dos franceses, Lewandowski, polonês, é o grande nome do time, que ainda tem o brasileiro Douglas Costa como reserva. O elenco tem ainda Davide Alaba (austríaco), Alphonso Davies (canadense), Marc Roca e Javi Martínez (espanhóis). O atacante Eric Maxim Choupo-Moting, embora defenda a seleção camaronesa, tem nacionalidade alemã, já que nasceu em Hamburgo. O mesmo acontece com outro reserva, Jamal Musiala, que nasceu em Stuttgart, mas tem defendido a Inglaterra nas categorias de base.

O líder em campo

Manuel Neuer, 34 anos, é um dos grandes nomes deste time do Bayern de Munique. Com um histórico respeitável à frente do clube, onde está desde 2011, acumulou títulos e tornou-se o símbolo dos goleiros que atuam com a bola nos pés, algo que é característico de muitos goleiros da escola alemã. Campeão do mundo com a Alemanha em 2014, no Brasil, é também um membro importante até hoje da seleção de Joachim Löw. Veste a braçadeira de capitão desde a aposentadoria de Philipp Lahm, em 2017.

Treinador

Hansi Flick tem um histórico curioso. Foi jogador de futebol, jogando pelo Soundhausen e do próprio Bayern de Munique, que defendeu por cinco anos, de 1985 a 1990. Jogou ainda pelo Colônia por três temporadas antes de pendurar as chuteiras, em 1993. Começou o trabalho como técnico em 1996, no Bammental, um time de ligas regionais, e ficou por lá até 2000.

Foi em 2000 também que ele assumiu o Hoffenheim e fez parte de uma importante fase da equipe, subindo de divisões. Em 2006, foi trabalhar como assistente técnico no Red Bull Salzburg, mas mal ficou por lá: chegou em julho, saiu em agosto, chamado por Joachim Löw para compor a comissão técnica que ele assumiria, depois da saída de Jürgen Klinsmann.

Trabalhou como auxiliar técnico de Joachim Löw na Alemanha de 2006 a 2014. Ficou outros três anos como diretor esportivo da seleção alemã, antes de tornar-se diretor esportivo do Hoffenheim, em 2017. Em 2019, virou assistente técnico do Bayern de Munique, ainda em julho, antes do início da temporada. Com a demissão de Nico Kovac, ficou responsável por assumir o time interinamente. O time passou a jogar tão bem e conseguir resultados tão bons que ele foi efetivado, com contrato até 2023. Aos 55 anos, vive a melhor fase da carreira.

Ídolo do passado

Franz Beckenbauer é um dos maiores jogadores da história do futebol alemão, europeu e mundial. Jogou pelo Bayern de Munique no momento que a equipe se transformava no clube dominante que vemos hoje. Começou a carreira em 1964, com o time ainda na segunda divisão, e jogou por lá até 1977. Foi para os Estados Unidos, onde jogou junto com Pelé no New York Cosmos até 1980. Jogaria ainda duas temporadas pelo Hamburgo, antes de, enfim, encerrar a carreira pelo Cosmos novamente, em 1983.

Pelo Bayern, conquistou quatro títulos alemães (os quatro primeiros da história do clube), quatro Copas da Alemanha, três Copas Europeias (atual Champions League), uma Recopa e um Mundial de Clubes, em 1976. É o quarto jogador com mais partidas pelo clube, com 427, atrás apenas de Sepp Maier (537), Oliver Kahn (429) e Gerd Müller (453). Pode ser ultrapassado por Thomas Müller, que tem 370 jogos e ainda está na ativa.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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