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Antes motivo de piada, Cortez se tornou uma das grandes certezas do Grêmio

Bruno Cortez aprendeu a conviver com as desconfianças nos últimos anos. Seu nome era relacionado mais vezes ao folclore de sua figura do que propriamente ao seu futebol. Tantas vezes foi ridicularizado. E, de fato, parecia um daqueles jogadores que limitam a sua carreira a alguns meses em alto nível, como tinha sido no Botafogo. Não deu certo no São Paulo, mal entrou em campo pelo Benfica, teve uma efêmera passagem pelo Criciúma. Sua trajetória estava fadada ao esquecimento, defendendo por dois anos o Albirex Niigata. Mas eis que sua imagem de refugo muda completamente, graças ao reinício no Brasil. Graças ao Grêmio, onde o lateral se tornou um dos atletas mais regulares na conquista da Libertadores. Já nesta terça, ele termina a noite em Abu Dhabi entre os heróis na classificação à final do Mundial de Clubes, vital para a vitória sobre o Pachuca.

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A redenção de Cortez começa no Japão. O lateral recuperou sua sequência de jogos no Albirex Niigata. Em um campeonato menos badalado como a J-League, ele se tornou um dos melhores laterais em atividade no país e fez duas boas temporadas, embora seu clube estivesse acostumado a frequentar a metade inferior da tabela. Prova de sua importância aconteceu na despedida de Niigata, com dezenas de torcedores indo homenageá-lo em uma estação de trem. O carioca, que acertava sua rescisão com o São Paulo naquele momento, estava decidido a voltar para o Brasil e encontrar uma nova equipe. E seu destino poderia ter sido bastante diferente.

Cortez ficou muito próximo de ir para o Náutico. O lateral estava apalavrado com o Timbu quando recebeu a proposta do Grêmio. Os tricolores procuravam um reserva para Marcelo Olivera e o carioca surgiu como uma boa opção. Renato Portaluppi conversou com alguns ex-companheiros de Cortez, antes de ligar para o jogador de 30 anos e convencê-lo a se mudar para Porto Alegre. Uma cartada certeira do treinador, assim como outras que fez ao longo deste ano. Embora muitos torcessem o nariz, o defensor recuperou o seu moral no clube.

A sorte deu uma forcinha para Cortez. Marcelo Oliveira passou a sofrer seguidos problemas de lesão e o novo contratado ganhou espaço entre os titulares a partir de maio. Para não sair mais do time, mesmo com o retorno de seu companheiro. Meia de origem transformado em lateral por necessidade, em seus tempos de Quissamã, o carioca quase sempre se destacou por seu vigor no apoio. No Grêmio, porém, essa noção mudou. O camisa 12 até cria suas jogadas no ataque, mas a disciplina tática se tornou a virtude mais evidente – o que, segundo suas próprias palavras, aprimorou no Japão, se dedicando ao trabalho de recomposição e posicionamento. Ele tem sido fundamental para fechar o lado esquerdo da defesa, como bem se viu diante do Lanús, na decisão da Libertadores. E isso fez ainda mais diferença contra o Pachuca.

Em um jogo difícil para o Grêmio, Cortez evitou um problema maior aos tricolores durante o primeiro tempo. Duas vezes, fez a leitura perfeita da jogada e, na cobertura, evitou que Keisuke Honda abrisse o placar aos Tuzos, travando o japonês. Transmitia muita segurança quando acionado na defesa e, vez por outra, chegava à linha de fundo, mesmo que o ataque gremista não fosse tão produtivo. Ainda assim, acabou participando diretamente do gol que selou a classificação, ao cobrar o lateral para que Éverton balançasse as redes. A discrição e a regularidade do camisa 12 valem ouro aos tricolores, mantendo-o entre as principais certezas do time no ano. Não à toa, no início do mês o carioca já assinou sua renovação, até 2019.

O bom momento de Cortez terá o seu teste cabal no próximo final de semana, quando o Grêmio disputará a decisão do Mundial. Caso o Real Madrid confirme a esperada classificação, a exigência sobre o defensor será grande, especialmente por encarar um adversário que ataca bastante pelas pontas. Mas, por tudo o que tem apresentado, o carioca está distante de ser motivo de preocupação aos tricolores. O receio e a chacota ficaram para trás. Em um ano especial com o Grêmio, o camisa 12 se recoloca entre os melhores laterais do futebol brasileiro. Para quem foi tão menosprezado, a volta por cima é impressionante.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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