Mundial de Clubes

Al Duhail: a potência endinheirada do Catar tenta agora mostrar sua força no cenário internacional

O representante do país-sede sempre pega um caminho mais curto ao Mundial de Clubes, mas isso não significa menos força. Não são raros os times que fazem bons papéis na competição, com menções mais recentes a Raja Casablanca e Kashima Antlers. O Al Duhail tentará ampliar a lista. Clube mais rico do Catar e representante do “soft power” do país, já que conta com dinheiro governamental, possui um elenco repleto de estrelas – tanto estrangeiros quanto da própria seleção local. Nomes como Almoez Ali, Mehdi Benatia e o brasileiro Dudu podem aprontar pelos Cavaleiros Vermelhos – que nunca conquistaram a Liga dos Campeões da Ásia, porém. O Duhail ainda passou automaticamente às quartas de final, já que contou com a desistência do Auckland City por conta da pandemia.

A história de fundação

O clube surgiu originalmente em 1938, sob o nome de Al Shorta Doha, ligado à polícia. Foi assim que se manteve durante grande parte de sua história, sem relevância na elite do Campeonato Catariano. Em 2009, houve uma refundação, com o surgimento do rebatizado Lekhwiya – em referência à força de segurança interna do país. O salto da equipe seria imediato a partir de então, com o investimento maciço da família real do Catar – os mesmos donos do Paris Saint-Germain, que também investem em outras agremiações locais, como o Al Sadd. Os Cavaleiros Vermelhos foram presididos por diferentes membros do poder. O atual mandatário é o Xeique Khalifa bin Hamad Bin Khalifa Al Thani, filho do antigo emir catariano e irmão mais novo do atual emir. O nome Al Duhail foi adotado em 2017, após a fusão da agremiação com o El Jaish.

A ascensão no futebol nacional

Por seu aporte financeiro o Lekhwiya precisou de pouquíssimo tempo para se tornar uma potência no Campeonato Catariano. A estreia na elite local aconteceu em 2010/11, também ano do primeiro título conquistado pela equipe. Diante do dinheiro jorrando dos bastidores e da ligação com a Academia Aspire, que forma os melhores jogadores do país, ficou mais fácil manter a hegemonia. Desde então, o atual Al Duhail conquistou sete títulos. Os Cavaleiros Vermelhos nunca passaram mais de dois anos sem conquistar a liga local e, desde a chegada à primeira divisão, só uma vez não encerraram a competição entre os dois primeiros colocados – quando acabaram na quarta posição.

Histórico nas competições continentais

Apesar de mandar no Campeonato Catariano, o Al Duhail possui um histórico relativamente modesto na Liga dos Campeões da Ásia. Mesmo presente em todas as edições do torneio desde 2012, o clube nunca chegou às semifinais do principal campeonato do continente. Em três ocasiões, sequer passou da fase de grupos, mas o mais comum é cair entre as oitavas e as quartas de final. Seriam três eliminações entre os oito melhores da Champions – para Guangzhou Evergrande (2013), Al Hilal (2015) e Persepolis (2019).

Caminhada até o Mundial

O Al Duhail pegou o atalho como representante do país-sede. O clube havia deixado o título escapar em 2019, para o Al Sadd, mas recuperou a coroa com o sétimo troféu no Campeonato Catariano em 2019/20. Na temporada paralisada pela pandemia, os Cavaleiros Vermelhos tiveram uma disputa apertada com o Al Rayyan. A conquista veio apenas por um ponto de vantagem, embora o Duhail tenha liderado a competição em 17 das 22 rodadas. Assim, caiu no colo a vaga no Mundial.

Participações no Mundial

Vai ser a estreia do Al Duhail na competição da Fifa. O representante anterior do Catar, o Al Sadd, perdeu logo nas quartas de final para o Monterrey na edição de 2019.

O destaque

Grande responsável pela conquista do Catar na Copa da Ásia de 2019, Almoez Ali também é a referência no ataque do Al Duhail. O atacante de origem sudanesa começou na Academia Aspire e daria seus primeiros passos no futebol europeu. Tentou a sorte por Eupen, LASK Linz e Cultural Leonesa, sem emplacar. Seu retorno ao país aconteceu em 2016 e logo passaria a estrelar a linha de frente do então chamado Lekhwiya. Ainda assim, seus números nos Cavaleiros Vermelhos não são tão estrondosos quanto os registrados na Copa da Ásia, com a marca recorde de nove gols em sete partidas. Muito explosivo e com capacidade de definição, o jovem de 24 anos auxilia mais na construção do jogo no Duhail. Apesar da idade, muitas vezes usa a braçadeira de capitão.

Os estrangeiros

O Al Duhail mudou bastante suas opções estrangeiras para a atual temporada, abrindo mão de nomes como Mario Mandzukic. E um dos reforços recentes é um velho conhecido da torcida palmeirense: o ponta Dudu. Levado ao clube em junho de 2020, o brasileiro não participou da conquista anterior dos Cavaleiros Vermelhos. Em compensação, assumiu o protagonismo da equipe logo cedo e apresenta ótimos números nesta campanha, com seis gols e cinco assistências em 12 aparições. Entretanto, o time anda com dificuldades para competir na liga com o Al Sadd. O time de Xavi faz uma campanha praticamente perfeita em 2020/21, com direito a 53 gols anotados em 14 rodadas. No Mundial, ao menos, Dudu terá uma vitrine maior para apresentar seu reconhecido poder de decisão.

Além de Dudu, outra novidade para o ataque é Michael Olunga. O centroavante queniano fazia sucesso no Kashiwa Reysol e foi artilheiro da J-League 2020 com 28 gols. Trazido em janeiro, o atacante de 26 anos disputou apenas uma partida pelo Campeonato Catariano. Vem para formar uma dupla de ataque com muita potência ao lado de Almoez Ali. Outro a chegar agora é o meio-campista Ali Karimi, que estava no Qatar SC. O atleta da seleção iraniana tentou carreira no Dinamo Zagreb, mas sem deslanchar.

Dos mais antigos no grupo, o mais conhecido é mesmo Mehdi Benatia. O zagueiro chegou ao clube em 2019, após deixar a Juventus. Aos 33 anos, o marroquino é a principal referência no sistema defensivo. Outro destaque é o ponta brasileiro Edmílson Júnior. Filho do ex-atacante Edmílson, que iniciou a carreira no Sport, o garoto nasceu quando o pai atuava na Bélgica. Cresceu no país e iniciou sua carreira por lá, fazendo sucesso no Standard de Liège antes de receber a oferta do Al Duhail em 2018. Veste a camisa 10 e foi uma das principais figuras na última conquista da liga.

O líder em campo

Além dos estrangeiros mencionados acima, o Al Duhail possui uma lista extensa de jogadores naturalizados ou com dupla nacionalidade. Um deles é o volante Luiz Júnior, o Ceará, que ostenta a braçadeira de capitão. Formado pelo Uniclinic, o meio-campista mudou-se a Doha ainda em 2010. Desde então, participou de toda a construção dos Cavaleiros Vermelhos como uma potência nacional, sempre como titular. Esteve presente nos sete títulos da equipe no Campeonato Catariano e é o terceiro jogador com mais aparições pelo clube, com 245 partidas somando todas as competições. Ceará chegou a disputar 26 jogos pela seleção do Catar, mas deixou as convocações nos últimos anos.

O treinador

Desde que passou a contar com o investimento do governo, o Al Duhail sempre foi dirigido por treinadores estrangeiros – incluindo nomes como Michael Laudrup e Djamel Belmadi. Sabri Lamouchi assumiu o time em outubro de 2020. O antigo meio-campista tem uma carreira respeitável como jogador, incluindo passagens por clubes como Parma e Internazionale, além da participação na Euro 1996 após ser campeão da Ligue 1 pelo Auxerre. À beira do campo, o descendente de tunisianos tem uma trajetória mais modesta. Dirigiu a Costa do Marfim na Copa de 2014, antes de passar por El Jaish e Rennes. Entre 2019 e 2020, esteve à frente do Nottingham Forest, que beirou o acesso, mas despencou na reta final da Championship.

Ídolo do passado

Diante da história recente do Al Duhail, a maioria absoluta de seus ídolos continuam na ativa. E um nome fundamental à afirmação do clube é Youssef Msakni. O armador tunisiano é um dos jogadores mais talentosos da África na última década e chegou ao Catar em 2012, após brilhar no Espérance que disputou o Mundial de Clubes no ano anterior. Meia clássico, com muita habilidade e capacidade de criação, o armador passou sete temporadas no clube, faturando cinco vezes o Campeonato Catariano. Chegou a ser artilheiro e melhor jogador da competição em 2018. Depois disso, tentou carreira na Europa, pelo Eupen, e perdeu espaço na temporada passada. Aos 30 anos, ainda pertence aos Cavaleiros Vermelhos, mas atualmente está cedido ao Al Arabi. Outro destaque que deixou o Duhail é o meio-campista Nam Tae-hee, que atualmente defende o Al Sadd.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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