O Al Ahly é o segundo clube com mais participações no Mundial de Clubes, atrás apenas do Auckland City. A presença frequente endossa o poderio dos egípcios no continente africano, mas também serve de reconhecimento a um dos clubes mais tradicionais do planeta e com torcida mais inflamada. A conquista da Champions em 2020 encerrou um hiato de sete anos e, mais doce, foi conquistada numa final épica em cima do rival Zamalek. Agora, no Mundial, os Diabos Vermelhos tentam comprovar o bom momento e retornar às semifinais – nas quais já causaram incômodos aos brasileiros, em período guiado pelo magistral Aboutrika.

A história de fundação

Em tempos nos quais os principais clubes do Cairo eram restritos a comunidades inglesas e de outros grupos de estrangeiros, o Al Ahly surgiu como uma agremiação representativa aos egípcios em 1907. O próprio nome, “O Nacional”, trazia essas motivações políticas em plena ocupação britânica. De início, o novo clube deveria servir como um local para a prática de esportes e a discussão de interesses políticos por estudantes de origem árabe. Porém, o futebol logo se tornou uma parte importante da nova entidade e também uma maneira de bater de frente com essas outras equipes estrangeiras. Assim, o Gigante Vermelho logo ganhou popularidade, fazendo turnês por outras cidades egípcias para espalhar seu ideal e aproximar o futebol da população árabe.

A ascensão no futebol nacional

O Al Ahly, em seus primórdios, se recusou a disputar a Copa Sultão Hussein – a primeira competição nacional do Egito, dominada por times de origem estrangeira. No entanto, mudaria de ideia pouco depois para representar sua resistência à dominação britânica, através do futebol. Teria sucesso ainda nas primeiras edições do torneio nos anos 1920, assim como na Copa do Egito (criada em 1921) e também na Liga do Cairo. Neste momento, nascia a rivalidade com o Zamalek, uma agremiação mais próxima dos estrangeiros e das camadas mais abastadas da população.

Com uma torcida de massa, o Al Ahly já era um gigante quando o Campeonato Egípcio surgiu em 1948. Campeões na edição inaugural, os Diabos Vermelhos emendaram nove títulos seguidos nas primeiras edições e sempre seguiram dominando. Exceção feita ao jejum de 13 anos a partir dos anos 1960, o clube nunca ficou mais do que quatro temporadas sem levar a taça. Desde 2005, são 13 títulos em 14 edições disputadas da liga, abrindo 30 troféus de vantagem em relação ao Zamalek.

Histórico nas competições continentais

A preponderância do Al Ahly no Egito, logicamente, também se refletiu na Liga dos Campeões da África. O clube é uma das maiores potências do torneio desde os anos 1980, quando o futebol egípcio deu uma guinada após muitos problemas de violência na década anterior. Os dois primeiros títulos do Gigante Vermelho na Champions aconteceram em 1982 e 1987. No meio de ambos, a equipe ainda levou um tricampeonato da Recopa Africana, segunda competição mais importante do continente na época. De qualquer maneira, o estabelecimento da agremiação como o maior campeão africano aconteceu mesmo a partir da virada do século.

Desde 2001, o Al Ahly conquistou sete de seus nove títulos na Champions, além de ter acabado com três vices. Foram três taças de 2005 a 2008, num período concomitante à dominância da seleção egípcia na Copa Africana de Nações. Outro momento simbólico aconteceu em 2012 e 2013, com o bicampeonato continental. Neste momento, os Diabos Vermelhos se reconstruíam depois do Desastre de Port Said, que matou 72 , e sequer contavam com uma estrutura estável no Campeonato Egípcio – interrompido por conta da tragédia, em meio também às transformações políticas do país. Já o título de 2020 marcou a retomada da potência, após finais de Champions perdidas em 2017 e 2018.

Caminhada até o Mundial

A conquista do Al Ahly na Champions de 2019/20 foi uma das mais imponentes da história. A equipe nem fez uma fase de grupos tão boa, se classificando atrás do Étoile du Sahel. A grande história aconteceu mesmo nos mata-matas. Primeiro, ao despachar o Mamelodi Sundowns, campeão continental em 2016. Depois, o Gigante Vermelho venceu as duas contra o Wydad Casablanca, seu algoz na decisão de 2018. Já o ápice aconteceu na maior final da história da Liga dos Campeões da África, num clássico contra o rival Zamalek. Com o gol da vitória por 2 a 1 anotado já aos 41 do segundo tempo, o Al Ahly desfrutou uma conquista saborosíssima no Cairo.

Participações no Mundial

O Al Ahly vai para sua sexta participação no Mundial. Depois de cair nas quartas de final em 2005 para o Al Ittihad, o time faria bom papel em 2006, superando o Auckland City na primeira partida e vendendo caro a eliminação para o Internacional na semifinal. Foi a melhor campanha, com o bronze faturado na decisão do terceiro lugar contra o América do México. Em 2008, no entanto, de novo cairia nas quartas, na prorrogação contra o Pachuca. Outra campanha bastante lembrada é a de 2012, quando o time eliminou o e caiu pelo placar mínimo diante do Corinthians, na semifinal em Toyota. Já em 2013, a eliminação nas quartas veio contra o Guangzhou Evergrande.

O destaque

Herói na decisão da Champions Africana, Mohamed Magdy também é uma referência na armação do Al Ahly. Conhecido como Afsha, o meia de 24 anos tem muita qualidade técnica em seu pé direito. Além da capacidade nas bolas paradas, também é um perigo nos chutes de fora da área. Foi assim, aliás, que definiu a final contra o Zamalek – anotando um golaço no apagar das luzes. Formado pelo Enppi, passou uma temporada no endinheirado Pyramids, antes de chegar ao Al Ahly em 2019. Foram três e duas assistências na campanha da Champions. Outro nome que poderia ajudar no setor é o veterano Walid Soliman, de 36 anos. Lesionado, sequer pôde ser inscrito no Mundial. 

Os estrangeiros

O Al Ahly possui um elenco cheio de destaques da seleção egípcia, mas estrangeiros um pouco menos conhecidos além do continente. O mais experiente deles é Ali Maâloul, lateral esquerdo de 31 anos e importante válvula de escape do time. Formado pelo Sfaxien, chegou ao Cairo em 2016. Soma 65 partidas pela seleção tunisiana, presente na Copa de 2018. Também na defesa, um reforço recente é o marroquino Badr Benoun. Revelado pelo , seria contratado pelo Al Ahly em novembro de 2020. O beque também integra a equipe nacional de seu país.

No meio, Aliou Dieng garante a proteção defensiva na cabeça de área. O volante malinês de 23 anos chegou do MC Alger e foi destaque na Champions, mesmo sem disputar a final por contrair o coronavírus. Outro protagonista no torneio continental foi o ponta esquerda Junior Ajayi. O nigeriano está desde 2016 no clube, também trazido do Sfaxien, e é uma peça importante por sua efetividade no ataque. E se o angolano Geraldo (ex-Coritiba) saiu recentemente para o Ankaragücü, outra alternativa veio para a linha de frente. O zambiano Walter Bwalya (que, apesar do sobrenome, não é parente de Kalusha) chegou do El Gouna em janeiro. O atacante de 25 anos já emenda aparições como titular.

O líder em campo

O goleiro Mohamed El Shenawy é um dos melhores de sua posição no continente africano desde a última década. O 1 começou no próprio Al Ahly, mas passou por clubes menores até retornar em 2016. Virou um fator de segurança não apenas aos Diabos Vermelhos, como também à seleção do Egito, titular na Copa do Mundo de 2018 mesmo com a sombra do lendário Essam El Hadary. Arrojado sob as traves, foi um dos responsáveis pela conquista na Champions Africana. Além disso, aos 32 anos, também ostenta a braçadeira de capitão.

O treinador

Pitso Mosimane pode ser considerado um dos maiores da história do futebol africano. Ex-jogador da seleção de seu país, foi assistente técnico dos Bafana Bafana de 2006 e 2010, antes de dirigir a equipe nacional por dois anos. A partir de 2012, escreveu uma grande história no Mamelodi Sundowns, capaz de conquistar a Champions Africana em 2016, encerrando um jejum dos sul-africanos no torneio que durava 21 anos. Também seria campeão da Premier Soccer League em cinco oportunidades, assim como foi eleito o técnico do ano cinco vezes no país. Com um currículo tão recheado, Mosimane chegou para treinar o Al Ahly em setembro de 2020, substituindo o suíço René Weiler. Criou uma equipe bastante competitiva e com senso coletivo, pronta para levar o Campeonato Egípcio, além de encerrar os sete anos de espera na Champions.

Ídolo do passado

Não tem como falar sobre a história vitoriosa do Al Ahly sem mencionar o mítico . O meia é visto por alguns como o maior jogador da história que nunca atuou na Europa ou na América do Sul. E o currículo do craque fala por si, liderando o Al Ahly em cinco títulos da Champions Africana, além de ser referência do Egito em duas conquistas na Copa Africana de Nações. A qualidade técnica de Aboutrika era sua grande virtude, mas não se menospreza a sua liderança, especialmente no fim da carreira. O armador pensou em pendurar as chuteiras após o Desastre de Port Said, mas mudou de ideia e deu à sua torcida o bicampeonato continental em 2012 e 2013. Aposentado em 2013, logo após o Mundial de Clubes, nos últimos anos se tornou perseguido político pelos militares que tomaram o poder no Egito.

Não menos importante nessa história é Mahmoud El Khatib. Bibo, como era conhecido, é um dos maiores africanos da década de 1980. Teve um protagonismo parecido ao de Aboutrika nos dois primeiros títulos do Al Ahly na Champions Africana, em 1982 e 1987. Também conquistou a CAN em 1986, embora tenha se aposentado antes da Copa de 1990. O melhor jogador africano de 1983 é, desde 2017, o presidente do Gigante Vermelho. Do lado de fora, também participaria do título em 2020.