Mundial de Clubes
Tendência

A eliminação do Flamengo tem o peso das escolhas de Vítor Pereira e também da escolha por Vítor Pereira

As críticas sobre Vítor Pereira são compreensíveis por suas escolhas e pelas dificuldades do Flamengo, assim como sobre a diretoria pela mudança de rumos no comando

O Flamengo fez uma escolha questionável quando resolveu mudar o comando técnico na virada do ano. A saída de Dorival Júnior e a chegada de Vítor Pereira, pela maneira como tudo se deu, levantou inclusive indagações sobre a postura ética. E se a mudança sequer parecia ser esportivamente justificável de início, ela tem um preço muito caro no início do trabalho do português. Mesmo que dê a volta por cima, Vítor Pereira ficará marcado por uma das piores derrotas da história do Fla. Suas impressões digitais sobre a eliminação flamenguista diante do Al-Hilal estão bastante visíveis.

De fato, o Flamengo não terminou 2022 apresentando o seu melhor futebol. A equipe conquistou a Copa do Brasil e a Libertadores com doses de sufoco, mas a imagem era muito mais positiva do que negativa. Dorival Júnior deveria ter créditos suficientes não apenas pela maneira como conduziu o time às taças, mas também pela guinada que provocou dentro da temporada, com momentos brilhantes. O treinador tinha ótimos recursos, uma relação favorável com o clube e inclusive bom trânsito com os jogadores – algo raro desde a saída de Jorge Jesus. A decisão repentina de dispensá-lo parecia precipitada. Dorival sequer recebeu um voto de confiança para tentar aprimorar os rumos.

A aposta em Vítor Pereira, por sua vez, soava até mais como grife do que necessariamente uma escolha em resultados. O Corinthians deu trabalho para o Flamengo na decisão da Copa do Brasil, mas não que isso tornasse seu período no clube excepcional. O português saiu sob justificativas familiares e a mudança de rumos em sua ida para o Rio de Janeiro pegou muito mal. Mas, independentemente de toda a novela ao redor da contratação, não é que o novo técnico indicasse tantos recursos assim para transformar os rubro-negros em relação ao que se via com Dorival Júnior.

Jorge Jesus foi um dos maiores acertos do Flamengo em sua história recente. Desde então, a avaliação dos técnicos para o clube deixou bastante a desejar. Alguns pareciam capazes de dar certo, outros se sugeriam escolhas ruins desde o princípio – como Paulo Sousa. Mas, entre um clube com natural pressão pelo tamanho de sua torcida e mais cobrança ainda em relação ao nível de investimento, a diretoria deveria agradecer aos céus pela dose de estabilidade oferecida por Dorival Júnior. Resolveu queimar o seu cartucho, num comandante sem tantas credenciais assim, como Vítor Pereira.

E já seria um início de temporada duro para o Flamengo, pelo nível dos compromissos. É um calendário logo cheio de decisões, com Supercopa, Mundial e Recopa. O time precisaria recuperar sua melhor forma, redescobrir seu equilíbrio entre a saída de João Gomes e a chegada de Gérson, manejar o banco de reservas cheio de estrelas. Por enquanto, o que se viu do Flamengo em suas principais atuações foi uma equipe ainda sem ideias claras. Não há um ritmo necessário para o nível das competições e o desacerto, que se notou em meio à loucura da Supercopa, se transformou em pancada no Mundial. As férias longuíssimas, além do mais, também tiveram custos em aspectos físicos e táticos. O planejamento como um todo foi ruim.

Coletivamente, o Flamengo não existiu contra o Al-Hilal. Dá para questionar os critérios da arbitragem, especialmente na expulsão, ou a influência de dois gols de pênalti de um time que não finalizou além disso em todo o primeiro tempo. Mas, deixando esses pontos de lado, os rubro-negros também não possuem justificativas que aliviem o time. Foi um arremedo do que se esperava do Fla no Mundial. Primeiro, pela falta de concentração e os erros constantes logo de cara, no nervosismo que tomava conta. Depois, pelas dificuldades de construção. O gol de Pedro saiu com qualidade, mas na sequência de uma rebatida. E, não fosse isso, os maiores perigos surgiram em cruzamentos muito pontuais. Faltava tentar melhorar o encaixe das peças.

A expulsão de Gérson cavou o buraco para o Flamengo. Estava claro que seria muito mais difícil de reagir com um a menos, depois de um primeiro tempo no qual, mesmo jogando mal, os rubro-negros tiveram condições de virar. E dentro daquilo que não funcionava, Vítor Pereira pareceu piorar as condições com suas mexidas. Arrascaeta saiu e o time, além de perder um jogador de criatividade, não ganhou o meio-campo com Pulgar. Everton Ribeiro foi sacado depois e a capacidade de pensar o jogo piorou ainda mais, porque Everton Cebolinha foi uma mera sombra em campo. A reação surgiu apenas no apagar das luzes, numa bola espirrada, depois de cerca de 20 minutos em que o Fla se sugeriu entregue em campo.

Quando muito, o Flamengo teve escapadas nas laterais, sobretudo com Ayrton Lucas, um dos poucos que se safou. Gabigol tentou participar, mas não foi bem nesse time desconjuntado, assim como Pedro ao menos conseguiu ser letal quando surgiram as brechas. Mas, que individualmente muita gente tenha ficado abaixo, não dá para admitir uma falta de conexão coletiva que derrubou ainda mais a capacidade competitiva do time. Foi um Flamengo mal treinado. Faltou qualquer tipo de estratégia, nem que para isso dependesse de mais entrega. O Flamengo inexistiu contra o Al-Hilal.

E o placar de 3 a 2 fica até brando para o Flamengo, pelo que foi o segundo tempo. O time teve amplos momentos em que sequer conseguiu passar do meio-campo, com repetidos erros de saída de bola. Os rubro-negros ainda travaram parte das investidas do Al-Hilal, que também cadenciou e ganhou gritos de olé. Luciano Vietto causou problemas em quase todas as suas participações, assim como Salem Al-Dawsari e Moussa Marega deram trabalho. Gustavo Cuéllar recuperou bolas com enorme facilidade. A impressão era de que, se construísse melhor um ou dois contra-ataques depois do terceiro gol, o Hilal promoveria uma goleada vexatória sobre os brasileiros.

Foi um Flamengo muito longe do mínimo esperado. E um Flamengo cuja responsabilidade recai sobre aqueles que tomam as decisões. Durante os 90 minutos, sobre Vítor Pereira. Pela escolha do treinador, sobre a diretoria. Pode até ser que o treinador ganhe paciência, algo que faltou com Dorival Júnior. Mas, pela forma como aconteceu, quem vai cobrá-lo sempre é quem está na arquibancada. Além disso, num elenco há tanto tempo junto como o rubro-negro, com tantos cobras, fica difícil imaginar uma relação branda quando se saca duas lideranças logo de cara como ocorreu. A partir desse momento, Vítor Pereira vai ter que remar muito para voltar no mínimo à estaca zero.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo