A temporada era promissora para o Napoli. Os principais jogadores haviam sido mantidos e ganhado a companhia de reforços importantes. O trabalho do treinador Carlo Ancelotti, um dos mais vitoriosos da história, entrava em seu segundo ano e a briga pelo título era realidade. A campanha ainda está no começo, mas o clube chega ao começo de novembro em crise, após um motim dos jogadores contra a concentração e protestos da torcida.

O Napoli recebeu o Red Bull Salzburg, na última terça-feira, longe do seu melhor momento na temporada. Havia perdido para a Roma no fim de semana, após empates contra Atalanta e Spal, e eram apenas duas vitórias nas últimas sete partidas. Independentemente do resultado contra os austríacos, estava planejada uma longa concentração até a manhã de domingo, depois do duelo contra o Genoa, pela Serie A.

Após o empate por 1 a 1 no San Paolo, porém, os jogadores recusaram-se a entrar no ônibus que os levaria à concentração. Segundo o jornal La Repubblica, o presidente Aurelio de Laurentiis foi avisado e seu filho, Edoardo, foi confrontado nos vestiários “em tons severos” pelos jogadores, liderados pelo capitão Lorenzo Insigne. “Voltaremos para casa, diga ao seu pai”, teria dito, de acordo com a publicação.

Ancelotti tentou mediar a situação, não conseguiu, e saiu do San Paolo sem dar a entrevista coletiva obrigatória pós-partida. De Laurentiis determinou a lei do silêncio até “data indefinida” e mandou emitir uma nota na qual ameaçou acionar os jogadores. “O clube comunica que, em referência ao comportamento dos jogadores da equipe principal, protegerá seus direitos econômicos, patrimoniais, de imagem e disciplinares em cada âmbito competente”, disse.

Nessa mesma nota, afirma que a decisão de concentrar os jogadores foi responsabilidade de Ancelotti e, posteriormente, De Laurentiis criticou a imprensa por reportar que a medida tinha fins punitivos. “É uma concentração construtiva, não punitiva”, disse, à rádio Kiss Kiss. E o clube acrescentou: “Destinada a trazer de volta ao grupo de jogadores a concentração e as motivações necessárias às vésperas de duas importantes e delicadas partidas”.

O caos não pegou bem com a torcida. O elenco voltou aos trabalhos no San Paolo, nesta quinta-feira, e foi recebido por 150 torcedores com faixas e bombas de fumaça. Foram chamados de mercenários. “Merecemos mais”, “Apenas a camisa”, “Coloque a base em campo” foram outros gritos ouvidos. Segundo a ANSA, De Laurentiis também foi alvo: “Apenas você está vencendo”.

O clima anda um pouco estranho no Napoli há alguns meses. Pilares do sucesso napolitano nos últimos anos, Callejón e Mertens têm contrato apenas até o fim da temporada. Em entrevista à Sky Sports da Itália, em meados de outubro, De Laurentiis falou que não fará “grandes esforços” para renovar com a dupla e que, se eles quiserem, podem ir para a China – literalmente.

“Cada jogador tem um valor, dependendo da posição em que jogam, como jogam, idade e o que fazem. Se eles querem se vender na China, com salários inflados para viver uma vida de merda por dois ou três anos, é problema deles. Na vida, você tem que escolher entre ser feliz e ter um emprego que você gosta ou trabalhar apenas por dinheiro. Para mim, dinheiro é um meio e não um fim. Se for um fim para eles, eles devem ir para a China”, disse.

Na mesma entrevista, De Laurentiis teve que negar atritos com Ancelotti e criticou a atitude de Insigne. “Ele é um excelente esportista, mas precisa ficar calmo, mudar sua postura e abandonar algumas coisas. Eu o entendo, eu o protejo e gosto muito dele, mas ele sempre considerou sua situação em Nápoles desconfortável. Eu apenas quero dizer que ele precisa ficar calmo e ser uma pessoa mais pacífica, mas isso é problema dele”, disse.

Insigne chegou a dizer que tem uma “relação um pouco estranha” com Ancelotti, que mudou o capitão de posição para encaixá-lo em seu esquema 4-4-2, o que também já foi assunto em declarações públicas dos dois lados. Essas declarações de De Laurentiis vieram depois que o ponta-esquerda não foi nem relacionado para a partida contra o Genk, pela Champions League, no começo de outubro. Depois da pausa para jogos de seleções, o jogador, seu agente Mino Raiola e Ancelotti reuniram-se para aliviar as tensões.

“Ele é um grande jogador”, continuou de Laurentiis, “e pode estar em boa ou má forma. Se estiver em má forma, depende do treinador não escalá-lo. Insigne não pode chegar fazendo piadas, com uma atitude quase desafiadora. O treinador é um homem de família, tem 60 anos e não o mandará para aquele lugar porque tem três vezes a idade dele”.

E, agora, com esse clima pesado, o Napoli recebe o Genoa no último jogo do sábado pela Serie A, precisando vencer para não perder ainda mais contato com a ponta. Está em sétimo lugar, a 11 pontos da líder Juventus, e a reação não pode demorar, sob o risco de ver uma temporada que tinha tudo para ser excelente sair pela janela.