Messi: “A desigualdade é um dos grandes problemas da nossa sociedade e temos que lutar para corrigi-la o quanto antes”

Em entrevista à revista popular “La Garganta Poderosa”, Messi ressaltou o trabalho social feito nas comedorias, que servem comida de graça, durante a pandemia

Lionel Messi deu uma entrevista bastante interessante à revista “La Garganta Poderosa”, que celebra a sua edição número 100. O camisa 10 argentino posou de forma fiel ao estilo da revista: com a boca bem aberta, simulando um grito, que é contra a discriminação, a estigmatização da cultura villera [das periferias de Buenos Aires, especialmente]. O jogador falou sobre futebol, mas também sobre suas preocupações sociais.

[foo_related_posts]

Uma das frases ditas pelo personagem da capa repercute muito pela forma solidária de dentro de campo. “Hoje sou menos obcecado com o gol. Tento fazer o meu melhor coletivamente”, afirmou o jogador. Mesmo assim, Lionel Messi foi o artilheiro do Campeonato Espanhol na temporada passada, com 25 gols em 33 jogos. No total, foram 44 jogos por todas as competições e 31 gols com a camisa do Barcelona na temporada 2019/20. O número de assistências também foi enorme: 26 no total, em todas as competições, e 21 delas em La Liga.

Fora de campo, Messi também tem preocupações sociais. O craque foi perguntado sobre o trabalho social realizado por cozinheiras dos chamados comedores, que servem comida gratuitamente, durante a pandemia do coronavírus. “Me dá um orgulho imenso ver como se envolvem, inclusive em tempos tão complicados como os que estamos vivendo. Todas as taças que estão sendo levantadas neste fim de ano deveriam ser para todas as pessoas que estão envolvidas em ajudar dessa maneira os que mais necessitam”, disse o jogador.

“A educação é a base de tudo”, declarou Messi. “É imprescindível, para que os que mais necessitam, preservar todo serviço fundamental em situações como esta da pandemia; a água, eletricidade e inclusive os alimentos de primeira necessidade”, continuou o jogador, que nasceu em Rosario. “A desigualdade é um dos grandes problemas da nossa sociedade e temos que lutar para corrigi-la o quanto antes”.

A capa da revista “La Garganta Poderosa”

A revista é uma publicação independente, feita pela comunidade, e nasceu na Villa Zavaleta. É articulada por assembleias, que inclusive ajudam a montar a pauta da revista, sempre com o objetivo de dar voz a problemas sociais que afetam as comunidades argentinas – e, hoje em dia, de outros países da América do Sul. “Quando às vezes alguns intelectuais dizem que o futebol é o ópio do povo, nós dizemos que não sabemos o quanto sabem de futebol, mas de povo eles não sabem nada”, afirmou Nacho Levy, um dos fundadores e editor da revista.

A primeira edição foi em 2011, com Juan Román Riquelme na capa. O próprio Messi já esteve na capa também na edição 10 e nomes como Diego Maradona, Sergio Kun Agüero, Pepe Mujica, Manu Ginóbili e Carlos Tevez. “Aos que dizem que nossa revista não é tão popular porque têm na capa jogadores que na realidade são milionários, eu lhes digo que, se não fosse assim, não a criticariam, nem a teriam lido, nunca”, continuou Levy.

Mais do que ser feita pela comunidade, a revista dá chance a pessoas que estão na periferia. Nelson Santacruz, paraguaio que mora na Villa 21, bairro de Buenos Aires, tem 21 anos e é estudante de Comunicação na Universidade de Avellaneda, foi um dos entrevistadores de Messi.

“Há meses nas assembleias dos bairros começamos a dizer que se Messi havia sido a capa da edição 10, também tinha que ser da edição 100. Assim, nos colocamos em campanha: fizemos de tudo para conseguir. Além de mandar mensagens para o seu pai [que é também agente do jogador, Jorge Messi], escrevemos cartas e até fizemos um vídeo de três minutos com mensagens de garotos de bairros populares, desde a Terra do Fogo até Jujuy”, contou ainda Nelson Santacruz.

“Apesar de todo esforço, pensamos que seria impossível, é Messi! E desde que quase deixou o Barcelona, não voltou a dar entrevistas, exceto a famosa com o Goal. Fiquei surpreso que ele respondeu, mas não pelo que disse. Já em 2011 ele mostrou que se preocupava muito com as causas sociais”, afirmou ainda Nelson Santacruz.

“Desta vez, a entrevista não pôde ser frente a frente. Seu pai nos pediu que enviássemos as perguntas e Lionel nos devolveu as respostas. Mandamos umas 20, acordadas com as 114 assembleias. Sua resposta chegou na quinta-feira, horas antes do jogo contra o Equador. Foi um orgulho”, declarou ainda o estudante de comunicação.

“Com relação a 2011, é um Leo diferente. Não pensa tanto em futebol. Hoje está mais focado na família. Pensa mais no coletivo que no individual. Posso te confessar uma coisa? Naquela noite, quando ele respondeu, eu não consegui dormir. Escrevi e apaguei o texto mil vezes. E isso que no bairro a eletricidade é cortada com muita frequência e quase não há internet”, contou Nelson.

Messi é um craque em campo e, aparentemente, é alguém que se preocupa com o mundo também fora dos campos. Pode começar, por exemplo, não sonegando impostos, como já aconteceu na Espanha.