O Manchester United entrou para a última rodada da Premier League contra o Cardiff, no Old Trafford, já sem nada em disputa. A expectativa dos torcedores era mais por ver jovens jogadores como Mason Greenwood e Angel Gomes em campo – e ao menos evitar mais um vexame.

A primeira parte se concretizou, com a dupla tendo sua chance, o primeiro como titular; já evitar o vexame não foi possível. A derrota por 2 a 0 para o rebaixado clube galês foi um emblemático adeus a uma temporada para se esquecer para os Diabos Vermelhos.

O United teve um primeiro tempo bom, criando diversas chances e chegando perto por vezes de abrir o placar. O destaque da equipe foi justamente Greenwood, de apenas 17 anos. Atacante mais perigoso do time da casa, criou diversas chances, fosse se apresentando para finalizar ou abrindo pelas pontas para projetar chances aos companheiros. O garoto foi também o único ponto positivo em uma última rodada consistente com a temporada dos Red Devils: momentos de inspiração intercalados por completos desastres.

Os gols do Cardiff vieram dos pés de Nathaniel Mendez-Laing, primeiro a partir de cobrança de um pênalti altamente discutível, aos 23 minutos do primeiro tempo, e, por fim, aproveitando o cochilo da zaga do time da casa e completando cruzamento aos nove do segundo tempo.

Quarenta e cinco dias depois de ser confirmado como treinador, Ole Gunnar Solskjaer está longe de ser a unanimidade que foi em seus primeiros três meses como treinador interino. O norueguês foi efetivado na esteira da histórica vitória por 3 a 1 que garantiu a classificação do United diante do PSG nas oitavas de final da Champions League e, desde então, venceu apenas duas de 12 partidas disputadas.

Falar retrospectivamente é fácil, mas, isso posto, a efetivação naquele momento da temporada se mostrou um erro com o tempo. Uma decisão do coração, e não do cérebro. A transição do futebol negativo do mal-humorado e controverso José Mourinho para o positivo do alegre e ídolo da torcida Solskjaer se perdeu por volta da mesma época que Ole ganhou seu contrato de três temporadas.

As últimas semanas da temporada do Manchester United serviram como um despertar, um choque de realidade, provando que o trabalho que o herói da conquista da Champions League de 1999 seria muito maior do que se mostrava inicialmente. E a queda de produtividade assombrosa é um bom ponto de partida para falarmos dos desafios que o clube tem pela frente.

O problema de atitude

Depois de garantir sua renovação de contrato, Martial teve queda acentuada de desempenho (Divulgação/Manchester United/Getty Images)

José Mourinho nunca foi de ter muitas papas na língua. Não foram poucas as vezes em que o português criticou publicamente a mentalidade e o desempenho de seus comandados no United. E embora o início de Solskjaer parecesse sugerir o contrário, as palavras do ex-treinador se provaram verdadeiras com o tempo, pelo menos em parte. Falou-se muito na imprensa inglesa que a relação de Mourinho com os jogadores não era boa e que a chegada do norueguês, com sua personalidade aberta e sorridente, havia agradado muito os jogadores.

O conto de fadas incluía declarações de ambos os lados repletas de elogios, com Solskjaer exaltando seu elenco “talentoso”, dizendo que “futebol é fácil quando você tem bons jogadores”.

Os jogadores, por sua vez, reforçaram o coro por Solskjaer, defendendo sua efetivação publicamente após a vitória contra o PSG. Eles queriam Ole como técnico. Conseguiram e, por algum motivo, cruzaram os braços e relaxaram logo depois.

Não temos informações concretas sobre o que se passa nos corredores do centro de treinamento em Carrington, mas o empenho e a qualidade demonstrados no início do trabalho de Solskjaer – com 14 vitórias, dois empates e apenas uma derrota nos primeiros 17 jogos até a vitória por 3 a 1 em Paris – e a mudança brusca logo após aquele jogo e a efetivação de Solskjaer semanas depois indicam que existe um problema de atitude e comprometimento muito grande no elenco, aparentemente disposto a ligar e desligar a chavinha a qualquer momento.

A faxina

Ashley Young renovou seu contrato recentemente, mesmo tendo temporada terrível (Divulgação/Manchester United)

Conforme a temporada chegava ao fim, os resultados foram piorando e o treinador teve seu choque de realidade, vendo a mudança na atitude de seus jogadores. De “futebol é fácil se você tem bons jogadores”, as declarações do norueguês passaram mais para o tom de “eu terei sucesso aqui, e há jogadores aqui que não farão parte desse time de sucesso”.

O elenco de United precisa de uma faxina, e Solskjaer parece reconhecer isso, se tomarmos como indicação suas entrevistas, incluindo uma declaração de que a renovação será “impiedosa”. Porém, a renovação de contrato de três dos jogadores de pior desempenho, Phil Jones, Chris Smalling e Ashley Young, levanta dúvida sobre o quão implacável o norueguês será.

Esse trio à parte, jogadores que perderam espaço por não ter nível para atuar frequentemente em um clube da estatura do United precisam partir. Falo de Marcos Rojo, Juan Mata, Matteo Darmian e Antonio Valencia – este último já de saída, sem seu contrato renovado.

O evidente problema de atitude do time implica que talvez outros jogadores precisem também dar adeus a Old Trafford, e cabe a Solskjaer identificar quem são esses nomes. Incapazes de mostrar comprometimento com consistência, podem afetar todo o ambiente novo que tenta se montar no momento.

Para completar, outras peças podem estar de saída. Ander Herrera, de desempenho excelente desde a chegada do novo técnico, não terá seu contrato renovado e deve ir ao PSG. Já David De Gea e Paul Pogba, melhores jogadores do elenco, dão sinais de que não estão inteiramente envolvidos no projeto, e as especulações dão conta de uma possível saída.

Estamos, portanto, falando de um grande êxodo, de quatro a dez jogadores. E, para um clube que precisava de ao menos quatro contratações levando em conta o elenco atual que tem, a reestruturação parece ficar ainda mais preocupante.

As contratações

Sánchez chegou com o maior salário do elenco, quebrando a estrutura de remuneração do time e dificultando negociações de renovação com alguns atletas, como Herrera (Divulgação/Manchester United)

No período inicial em que estava voando baixo, o United de Solskjaer já demonstrava carências, algumas delas mais evidentes: lateral direita, zaga, meio de campo e ponta direita. Com o tempo, as deficiências foram se empilhando, e hoje é difícil achar um canto que não precise de um reforço.

No entanto, antes de sair à caça, o clube precisa repensar sua estratégia de contratações. A saída de Alex Ferguson em 2013 deixou um rombo que o Manchester United tentou preencher com jogadores caros e midiáticos: Falcao García, Ángel Di María, Bastian Schweinsteiger, Zlatan Ibrahimovic, Paul Pogba, Alexis Sánchez, entre outros. Desnecessário dizer, não surtiu o efeito desejado. O que se viu foi Old Trafford se transformar em um cemitério de talento ao longo dos últimos anos, e o momento é apropriado para refletir a atividade no mercado.

Há um aceno para um retorno ao perfil de Ferguson, com contratações mais baratas e menos badaladas, mas de jogadores com fome de se provar no futebol. A imprensa local fala em uma busca por jovens talentos britânicos, com Daniel James, ponta de 21 anos do Swansea, da segundona, sendo um dos alvos. Especula-se também nomes como os de Declan Rice, volante do West Ham, e Aaron Wan-Bissaka, um dos melhores laterais direitos da temporada na Premier League jogando pelo Crystal Palace. Também jovem e britânico, mas com uma etiqueta de preço nas alturas e já com fama internacional, Jadon Sancho estaria também na mira.

Com Solskjaer reforçando diversas vezes que o Manchester United precisa ser o time que mais corre no campeonato, esse novo foco pode ser uma saída para um clube que tem tanto dinheiro que passou a se afogar nele sem saber o que fazer. O que nos leva ao último e principal ponto.

Cadê o diretor de futebol?

Ed Woodward, diretor executivo do United (Getty Images)

Em seus quase 27 anos no comando do Manchester United, Alex Ferguson transformou a instituição em uma superpotência. Seu domínio sobre as mais diversas áreas e o traquejo para administrar o clube são parte da explicação do sucesso estrondoso nos anos 1990 e 2000. Mas isso é também o começo da ruína do United após sua saída.

Pelo tempo que ficou no United, Ferguson administrava o clube de um modo mais antigo e, à época que pendurou a prancheta, as potências do futebol europeu já contavam com uma estrutura que até hoje, seis anos depois, o time de Manchester não conseguiu colocar em prática. Estrutura essa que gira em torno principalmente de uma importante figura: o diretor de futebol.

Em todos esses últimos anos, Ed Woodward – um bem-sucedido banqueiro e hábil homem de negócios, um dos grandes responsáveis pelos resultados financeiros excelentes mesmo em meio ao caos dentro de campo – tem sido a figura operacional do futebol do Manchester United. Um homem sem experiência com futebol, sem contatos no mundo da bola e muito menos um objetivo esportivo de longo prazo em mente.

Se dinheiro para gastar o United teve de sobra nos últimos anos, faltaram organização e coerência. Cada técnico que passou, cada qual com sua visão de futebol, fazia seus pedidos, e lá ia Woodward tentar negociar. O que se viu foi, em grande parte do tempo, um time de retalhos, sem identidade, em que um treinador tentava fazer funcionar em seu esquema jogadores contratados por outro técnico para outro esquema.

Clubes como Barcelona, Juventus, Real Madrid, Liverpool e tantos outros do mais alto patamar têm em comum o fato de ter um mínimo de identidade, seja ela construída ao longo de vários anos ou apenas das últimas temporadas. Jogadores são contratados por serem compatíveis com o jogo, sua entrada no time é muito mais suave, e os resultados, mais rápidos e proveitosos.

Ficando em um exemplo de clube com identidade e que não é uma máquina de dinheiro, o Ajax fez campanha histórica na Champions League graças a uma convergência de fatores, mas ela só aconteceu porque existe, de longa data, uma personalidade em seu jogo. Os reforços ou têm afinidade com o estilo do clube ou se adaptam a ele. E isso só é possível com alguém em um cargo esportivo, independentemente de treinador, garantindo alguma continuidade ao trabalho feito.

Ed Woodward parece indisposto a largar o osso e delegar as funções de futebol a um homem do futebol. Apesar de já se falar na necessidade de um diretor técnico na época de José Mourinho, reforçada com a chegada de Solskjaer, meses depois o clube ainda parece longe de anunciar alguém para o cargo. E, pior, o que se ouve na imprensa é que a busca tem passado longe de ser por alguém com experiência comprovada.

O principal auxiliar técnico de Solskjaer, Mike Phelan, teria recebido em algum momento um convite (embora agora já tenha sido confirmado como auxiliar mesmo para a próxima temporada), e mais recentemente diversos ex-jogadores do Manchester United, também sem tal experiência administrativa, estariam tendo conversas com o clube, como Rio Ferdinand.

Um tempo atrás, perguntado no Twitter se aceitaria o cargo de diretor de futebol do United, o ídolo e hoje comentarista Gary Neville disse que não, pois o clube precisava de um profissional de ponta para a posição.

A resposta de Neville soa evidente, mas talvez não para os ouvidos dos tomadores de decisão do Manchester United. Se a temporada que se encerra agora foi conturbada para o clube, nada até o momento sugere que a próxima será muito melhor.

Vendo os rivais Liverpool e Manchester City nadarem de braçada na frente e tendo o dever de reconduzir seu clube até a mais alta prateleira, a projeção inicial de Solskjaer já é de que são necessários ao menos dois ou três anos para estabelecer um estilo de futebol capaz de bater de frente com os dois melhores times da Inglaterra no momento. E você percebe o quão duro é o desafio do United quando ouve isso e pensa que o norueguês, como só ele, está sendo otimista.