O Athletico Paranaense sempre foi grande. Pelo menos no âmbito regional, sua tradição como um clube poderoso do Paraná era inquestionável – e isso superou até dois grandes jejuns de títulos estaduais (entre 1958 e 1970, e entre 1970 e 1982). Entretanto, fica claro para quem acompanha a trajetória do clube da Baixada: sempre houve o desejo de deixar clara ao Brasil a sua grandeza. Em alguns momentos, esse desejo ficou muito perto de se tornar realidade. Mas não tinha a continuidade necessária em campo para impor respeito ao resto do país. Agora tem. Porque o Furacão ventou forte para ser campeão da Sul-Americana, no ano passado – e ir à Libertadores, neste 2019. Porque o Furacão destruiu os sonhos do Internacional, em pleno Beira-Rio, para ser campeão da Copa do Brasil pela primeira vez. E porque há perspectivas de que vem mais por aí.

A rigor, essas perspectivas já povoavam os sonhos de qualquer atleticano há muito tempo. Mais precisamente, desde a década de 1990 – embora o bicampeonato paranaense (1982 e 1983) e a campanha de semifinalista no Brasileiro de 1983 fossem um esboço. Mas só quando o clube rubro-negro das Araucárias subiu para a Série A do Campeonato Brasileiro, campeão que foi da Série B em 1995 (tendo o arquirrival e vice Coritiba a lhe acompanhar no acesso), se escancararam tais intenções, alimentadas pela pretensão de apresentar força no Brasileirão de 1996.

Isso até aconteceu, ainda com os velhos alambrados do Joaquim Américo como cenário – como esquecer a dupla Paulo Rink-Oséas, ambos símbolos de gols, ou a segurança do ídolo Ricardo Pinto no gol? Entretanto, cair nas quartas de final daquele campeonato de 1996, para o Atlético Mineiro, esfriou um pouco a expectativa. Ficava mais a impressão de que era um clube promissor, para depois.

A primeira tentativa: 1999-2001

O “depois” pareceu ser o fim de 1999. O então Atlético já tinha um time elogiável. Saltavam aos olhos as atuações dos laterais Luizinho Netto e Alberto (atualmente, com o sobrenome “Valentim” a lhe acompanhar), o vigor de Kelly no meio-campo, as revelações Adriano “Gabiru” e Kléberson, outra dupla de ataque marcante para os atleticanos: Kléber Pereira e Lucas. Mais ainda: o Joaquim Américo continuava com esse nome, mas fora completamente reformado para ser inaugurado – parcialmente, já que faltavam lances de arquibancada – como a Arena da Baixada, o “Caldeirão” que passou a fazer parte dos gritos da torcida.

Valeu para ficar com a 9ª posição no Brasileiro, indo para a Seletiva da Libertadores, torneio paralelo realizado unicamente naquele 1999, com quem nem passara da fase de classificação do Brasileirão, mais os eliminados nos estágios posteriores. Quem o ganhasse, levava uma vaga na Libertadores, em 2000.

E o Atlético foi seguindo. Superou a Portuguesa na primeira fase daquela seletiva, teve o prazer de desbancar a nêmesis Coritiba na segunda fase, sobrepujou o Internacional na terceira fase, chegou à semifinal do torneio e eliminou o São Paulo que fora semifinalista do Campeonato Brasileiro regular. Na decisão pela vaga, encaminhou a vitória contra o Cruzeiro na ida, com 3 a 0 na Arena da Baixada. Perdeu no Mineirão (2 a 1), mas ganhou a seletiva. E pela primeira vez em sua história já então longa e tradicional, um lugar na Libertadores.

Poderia ter sido o começo da prova definitiva de sua grandeza, ainda mais pela fase de grupos fulgurante que o Atlético fez na “Copa” – líder do grupo 1, seis jogos, cinco vitórias, um empate. Nas oitavas de final, ao sofrer só 1 a 0 do Atlético Mineiro na ida, no Mineirão, ficou a impressão de que a Arena da Baixada, os gols de Kléber Pereira e Lucas, a força da torcida levariam o Furacão às quartas. Tudo seguia o roteiro sonhado, com 2 a 0. Até os 35 minutos do segundo tempo, quando Marques diminuiu para os atleticanos de Minas Gerais.

Sem gol fora de casa, o 2 a 1 levava à decisão nos pênaltis… que o Galo venceu em plena Curitiba (5 a 3 – Adriano Gabiru perdeu sua cobrança). Doeu. E doeria mais porque, na segunda fase da Copa João Havelange, o substituto organizado pelo Clube dos 13 para o Campeonato Brasileiro, novamente o Atlético Paranaense caiu na Arena da Baixada: após empate sem gols no Beira-Rio, o Internacional (logo ele!) foi valoroso, ao virar para 2 a 1, indo às quartas de final.

Mas o Clube Atlético Paranaense se refez. Nada de terra arrasada entre um ano e outro. Símbolos daqueles anos iam ficando: o goleiro Flávio, o zagueiro Gustavo, Kléberson, Adriano Gabiru, Kléber Pereira. Se Lucas saiu, Alex Mineiro vinha do Cruzeiro para virar o símbolo do Campeonato Brasileiro de 2001, uma odisseia que a Arena da Baixada nunca esquece. Tudo deu certo: o 3-5-2 com que Geninho fez aquele time se entender à perfeição, as boas atuações do entrosado trio de zaga Rogério Correa-Nem-Gustavo, a vibração de Kléberson, a firmeza (sendo eufemista…) de Cocito no meio-campo, o apetite de Alex Mineiro, Kléber Pereira e Ilan pelo gol.

O segundo lugar na fase de classificação já era bom, mas viriam lembranças eternas no mata-mata daquele Brasileiro. Como esquecer o 2 a 1 no São Paulo, nas quartas de final, em jogo único? Como esquecer aquele terceiro gol de Alex Mineiro aos 44 minutos do segundo tempo, no 3 a 2 de uma semifinal de enfartar contra o Fluminense, também em jogo único? Como esquecer aquele apoteótico 4 a 2 contra o São Caetano, na Arena da Baixada, no jogo de ida da decisão? E finalmente, como esquecer aquele rebote do goleiro Silvio Luiz, que o instinto goleador de Alex Mineiro transformou no gol do título do Campeonato Brasileiro, em 23 de dezembro de 2001, debaixo de chuva, em São Caetano? Sempre será indelével.

Mas era preciso seguir. E se o Atlético queria consolidar sua grandeza em termos nacionais e internacionais, uma boa campanha na Libertadores de 2002 era necessária. Só que ela não veio. Pior: o Furacão foi lanterna de seu grupo, com cinco pontos.

A segunda tentativa: 2004-2005

Restou se reconstruir. Para reaparecer em 2004. Outro técnico que fez trabalho de solidez impressionante, Levir Culpi. Mais importante, outros jogadores que brilharam no Campeonato Brasileiro daquele ano: as defesas de Diego, a firmeza de Marcão, Fabiano e Marinho na zaga, a vitalidade de Alan Bahia e de um novato Fernandinho no meio-campo, a habilidade que mostravam Jadson e Dagoberto, o oportunismo de Denis Marques, e acima de todos, um Washington que teve o coração valente e o pé calibrado para se tornar o maior goleador de uma só edição na história do Brasileiro, com seus 34 gols.

O Rubro-Negro se valeu dessa base para travar disputa constante com o Santos pelo título, rodadas a fio. Mas… fraquejou quando não podia. Menos no 3 a 3 com o rebaixado Grêmio, pela 43ª rodada, mais naquele dolorido (até pelos problemas dentro e fora de campo) 1 a 0 sofrido para o Vasco, na 45ª e penúltima rodada. Restou ver o Santos vencer o São Caetano (3 a 0), passar à frente e assegurar seu título brasileiro no 2 a 1, no mesmo Vasco, na rodada final. E restou à torcida aplaudir, após o esforço do 1 a 1 contra o Botafogo, na Arena da Baixada.

2005 chegou, e com ele mais uma oportunidade para o “agora vai” atleticano – afinal, havia uma Copa Libertadores da América a se disputar, como vice-campeão brasileiro. Alguns saíram: Fabiano, Marinho, Jadson, Washington. Outros ficaram: Diego, Alan Bahia, Fernandinho. Outro voltou: Cocito. Outros chegaram: Jancarlos, Aloísio, Lima. E mesmo com o entra-e-sai de treinadores (Casemiro Mior, o interino Lio Evaristo, Edinho, o interino Borba Filho), o time foi ganhando forma.

Conseguiu se classificar na fase de grupos da Libertadores. Foi avançando: passou pelo Cerro Porteño nas oitavas de final, nos pênaltis, tirou o Santos nas quartas de final (para sempre os santistas reclamarão terem sido privados de seus melhores nomes, convocados para a Seleção Brasileira na Copa das Confederações, mas não era da conta atleticana), superou o duro Chivas Guadalajara para chegar à primeira final da Libertadores em sua história.

Podia ser ali o ponto culminante – ainda mais sendo o adversário o São Paulo, um dos símbolos brasileiros do que é a Libertadores. Aí, antes da bola rolar, veio a polêmica que polariza: o regulamento que tirou da Arena da Baixada o jogo de ida. Restou jogar no neutro Beira-Rio a ida, empatando em 1 a 1. E se o empate não foi de todo mal, ficou impossível segurar um São Paulo que desejava mais do que ninguém o reencontro com sua grandeza continental. E o 4 a 0 da volta fez com que o (ainda) Atlético perdesse sua chance.

Agora, a continuidade definitiva

De lá para cá, o Atlético tentou manter o sonho de mostrar ao Brasil que sua grandeza não se restringia ao Paraná. Trabalhava sua marca, se abrindo aos “naming rights”. Tentava se modernizar como nenhum outro congênere nacional. Completou enfim a Arena da Baixada, em 2009. Mas, no campo, o sonho tinha solavancos como nunca tivera.

Os problemas pessoais (e técnicos…) que transformaram a contratação de Lothar Matthäus para treinador, em 2006, numa tremenda frustração. O rebaixamento para a Série B, em 2011. A fama de clube “antipático e reclamão”, para boa parte do resto do Brasil. Mas o Atlético se controlava. Sabia que tinha metas maiores. Fez o bate-e-volta à Série A, em 2012. Quando voltou, em 2013, impôs respeito: finalista da Copa do Brasil e 3º colocado no Brasileiro, com Paulo Baier como o velho lobo de outras batalhas a guiar Weverton, Marcelo Cirino, Everton, Éderson.

Participar da Copa Libertadores da América em 2014 alimentava o acalentar de mais sonhos – e favorecia ousadias, como a contratação de Adriano, em campo, e do técnico espanhol Miguel Ángel Portugal, no banco. Não deu certo: Adriano teve o contrato rescindido após quatro meses, Miguel Ángel foi demitido no começo do Brasileiro, e num grupo equilibrado na Libertadores, perder jogos decisivos para Vélez Sarsfield e The Strongest foi demais, representando o fim precoce da campanha, ainda na fase de grupos.

Mas o Atlético não desistiu. Seguiu polêmico, sem se importar com o que diziam de seu “projeto”. Seguiu fazendo da Arena da Baixada o seu caldeirão, sem ligar para referências pejorativas à polêmica decisão de ter grama sintética nela. Seguiu revelando bons nomes: Renan Lodi e Bruno Guimarães simbolizam isso agora. Acertou nas contratações: de Rony a Marco Ruben, passando pelo retorno de Marcelo Cirino e por Nikão.

Seguiu desafiando modos antigos de transmissão de jogos – aqui, de certa forma, ainda segue desafiando, talvez por querer mostrar que quem decide como os torcedores acompanham um clube é o próprio clube e mais ninguém. Ousou mudar uma marca quase centenária, virando Athletico aos 94 anos, hibridizando o distintivo (mesclando a sigla e o brasão dos anos 1980), retomando a grafia dos primórdios para se afirmar como único. Aceitou os solavancos, como a passagem polêmica de Fernando Diniz. Deu tranquilidade para que Thiago Nunes aproveitasse a chance que lhe era dada, quando Diniz foi demitido.

O Athletico teve seu primeiro fruto no ano passado, com a Copa Sul-Americana, enfim, lhe dando uma grandeza continental. Ganhou mais um título, ao vencer a Copa Levain (antiga Copa Suruga) contra o Shonan Bellmare. Ganhou experiência com a participação na Libertadores deste ano. Agora, vibra com a Copa do Brasil. E já recomeça seu sonho para a Libertadores em 2020, pois sabe que só uma sequência contínua de títulos e boas posições consolidam a grandeza conquistada. E principalmente, depois de tanto tempo e tantos ídolos, de Caju a Bruno Guimarães, passando por Washington-Assis e Alex Mineiro, sabe que – Athletico, Athletico – o Brasil e a América do Sul inteira conhecem seu valor.