Steaua Bucareste e a bravata européia
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Existem várias formas de demonstrar o poder. Uma delas, talvez a principal, é aplicando punições. A partir do momento em que se tem esse direito, exerce-se uma superioridade natural. No entanto, quando decisões de determinada entidade são revogadas com enorme facilidade e sem muitos argumentos, o respeito por esta passa a ser questionado de maneira simples e bem clara.
A Uefa puniu o Steaua Bucareste com a exclusão da Liga dos Campeões, após a Federação Romena ter aceitado a denúncia de suborno contra o clube.
Na última rodada do Campeonato Romeno, Gigi Becali, dono do Steaua, ofereceu € 1,7 milhão ao presidente Anton Dobos e a alguns jogadores do Universitatea Cluj, que enfrentaria o Cluj, para que eles endurecessem a partida. A equipe de Bucareste precisava de um tropeço do adversário.
O Cluj venceu por 1 a 0 e ficou com o troféu. Steaua e Universitatea perderam sete e seis pontos, respectivamente, mas não tiveram sua situação na competição alterada. Mesmo com a perda, o Steaua terminou a competição em segundo lugar, enquanto o Universitatea Cluj permaneceu na lanterna e foi rebaixado. Becali e Dobos foram suspensos e proibidos de freqüentar estádios por dois anos.
Ou seja, na prática, tudo foi feito para atender os interesses dos clubes, já que a “punição” não teve efeito prático algum. Mesmo assim, tanto na esfera nacional como internacional, o Steaua apelou à decisão. No início da semana passado, o comitê de apelação da Federação Romena manteve as punições impostas aos dois clubes por tentativa de suborno.
Restava a esperança de que a Uefa mostraria sua força e autoridade e também mantivesse sua decisão. Porém, não foi isso que aconteceu. Com o precedente do Porto, que fora excluído da LC por acusações de tentativa de suborno também e posteriormente readmitido, a entidade, através de seu Comitê de Apelações, revogou a exclusão do Steaua da principal competição européia de clubes. Pior: alegou que a Federação Romena não concluiu os processos disciplinares sobre o caso.
Com isso, a Uefa deixou passar a oportunidade de punir uma das figuras mais medonhas do futebol internacional: Gigi Becali. Magnata romeno, o dirigente é racista, homofóbico e só faz mal ao futebol. O Steaua é um clube de enorme tradição, não só na Romênia, mas hoje é um brinquedo nas mãos de Becali. Dois anos longe de estádio? Conhecendo o polêmico dirigente, essa punição soa como uma piada.
Se a Uefa agisse com coerência e justiça, puniria com rigidez o clube e seu proprietário. Daria um exemplo, ainda mais em tempos obscuros nos negócios do futebol.
Agora, Becali continuará a agir da sua maneira, seguirá com declarações como “farei de tudo ao meu alcance para o título do Steaua”. Essa é a pessoa absolvida pela Uefa, uma entidade que, com Michel Platini em seu comando, cada vez mais se parece com a Fifa de Joseph Blatter: de olho apenas nos interesses comerciais e políticos. Por sinal, o francês teve grande apoio de federações menores e do Leste Europeu em sua eleição…
Por outro lado
Já o CSKA Sofia não pôde usufruir dos mesmo direitos de Porto e Steaua. Suspenso pela Federação Búlgara devido a problemas financeiros, o clube também perdeu o direito de participar da próxima Liga dos Campeões. Nesse caso, a Uefa, apoiada em uma decisão consolidada, apenas a chancelou.
“A Uefa não autoriza o CSKA Sofia a participar da LC na temporada 2008/09, sendo esta decisão definitiva. A Uefa exprime sua posição de princípio sublinhando que é preciso garantir um tratamento igual a todos os clubes e exceções não podem ser permitidas”, afirmou a entidade por meio de um comunicado oficial. Triste ironia.
“Tratamento igual a todos os clubes e exceções não podem ser permitidas” é uma frase tão hilária quanto a qualquer discurso de Paulo Maluf.
Obviamente, a punição ao CSKA Sofia é correta e justa. O clube, atual campeão búlgaro, deve dinheiro para o Instituto Nacional de Segurança Social, a Receita e outras instituições – o total das dívidas é de cerca de € 1 milhão. A situação gerou diversos protestos dos torcedores, que culpam o ex-presidente Alexandar Tomov pelo ocorrido.
Emil Kostadinov, ex-jogador do time, assumirá a função agora, mas Pramod Mittal, empresário indiano proprietário do CSKA e da siderúrgica Kremikovtzi, enfrenta grave crise. Segundo a imprensa búlgara, ele estaria em negociações com o milionário ucraniano Konstantin Jevago, dono do Vorskla Poltava, para lhe vender tanto a equipe búlgara como a empresa.
Agora, a equipe tem até o dia 4 de agosto para sanar as dívidas, caso contrário, será rebaixada para a terceira divisão.