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Galo perde um ídolo. Shakhtar forja nova geração para ir além

O Shakhtar Donetsk deve muito de seu sucesso ao futebol brasileiro. Foi a partir de Brandão, o primeiro jogador do país a desembarcar no clube, em 2002, que os Kroty construíram uma dinastia na Ucrânia. Sete dos oito títulos do clube no Campeonato Ucraniano foram conquistados a partir de então, assim como a Copa da Uefa de 2008/09. A filosofia básica do magnata Rinat Akhmetov, dono do clube, e do técnico Mircea Lucescu é aproveitar o talento dos brasileiros no ataque, montando equipes técnicas e velozes.

A fórmula chegou ao ápice da repercussão justamente na temporada passada, quando o Shakhtar fez excelente campanha na fase de grupos da Liga dos Campeões, além de faturar o tetracampeonato nacional. Como resultado, Willian, Fernandinho e Henrikh Mkhitaryan foram vendidos por preços exorbitantes, por mais que Akhmetov não precisasse do dinheiro. Juntos, renderam € 102 milhões aos cofres do time, o suficiente para forjar uma nova geração em Donetsk. Esta que será encabeçada por Bernard, reforço confirmado nesta quinta.

A contratação de Bernard foge dos próprios padrões do Shakhtar. Antes do prodígio, as maiores compras da história do clube não ultrapassaram os € 15 milhões. O meia-atacante foi trazido por € 25 milhões, mais badalado do que os brasileiros geralmente levados a Donetsk, mas igualmente com perspectivas de evolução e de valorização. Além do mais, a fortuna é muito bem vinda ao Atlético Mineiro, que realizou a sua maior venda – € 18 milhões a mais que a ida de Gilberto Silva ao Arsenal – e faz caixa para cobrir os altos gastos com a folha de pagamentos de Ronaldinho, Tardelli, Réver, Victor e companhia.

O Shakhtar ganha um protagonista, o Galo perde um ídolo

Tanto quanto o dinheiro, o projeto do Shakhtar também contou bastante para a escolha de Bernard. O clube disponibilizará tradutor, cozinheiro e outras mordomias ao garoto em sua nova vida na Ucrânia, tudo para facilitar sua adaptação. Oferta que acabou sendo fundamental na queda de braço contra o Porto, outro clube que despontava na concorrência pelo atleticano. Ambos vistos como etapas iniciais, trampolins para que Bernard ganhe espaço na Europa e atraia o interesse de grandes clubes em algumas temporadas.

A princípio, Bernard chega como opção para a ponta esquerda, onde fez sua fama em Belo Horizonte. A antiga posição de Willian é ocupada hoje por Taison, que não conseguiu ser tão preponderante quanto o antecessor em seus primeiros meses na nova equipe. Outra alternativa seria atuar na ponta direita, concorrendo com Douglas Costa. Independente da função, o garoto tem um estilo propício ao time de Mircea Lucescu: veloz, incisivo e dedicado taticamente, o que facilitará bastante seu encaixe.

Já o Atlético deve sofrer mais pela perda do ídolo. Obviamente, será difícil repetir a eficiência de Bernard, mas a reposição de Cuca parece bem encaminhada com Luan, que já tinha feito um papel digno quando o titular se lesionou no primeiro semestre. Acima de tudo, Bernard será lembrado como a maior revelação do Galo nos últimos anos: sem medo da responsabilidade quando foi lançado entre os profissionais, mesmo com o clube ameaçado pelo rebaixamento em 2011; brilhante no vice-campeonato no Brasileirão de 2012; e decisivo na conquista da Libertadores.

Jovens e com grande potencial
Fred começou muito bem no Shakhtar Donetsk
Fred começou muito bem no Shakhtar Donetsk

A chegada de Bernard deve concluir o processo de renovação realizado por Lucescu e Akhmetov no elenco do Shakhtar Donetsk. Depois de perder tantos jogadores-chave, os Kroty resolveram fazer altos investimentos no mercado de transferências. Com a vinda do atleticano, os ucranianos somam gastos de € 67 milhões em contratações. Superaram o antigo recorde, de 2007/08, quando desembolsaram € 54 milhões para buscar Willian, Nery Castillo, Ilsinho, Cristiano Lucarelli, entre outros.

Bernard é o negócio mais caro do Shakhtar, que também tinha batido o próprio recorde outras duas vezes nos últimos seis meses, com as compras de Taison e Fred – excelente na função de Mkhitaryan, com três gols nos quatro primeiros jogos. Ao lado do trio, Wellington Nem e Facundo Ferreyra são novas opções para o ataque. Já Fernando veio do Grêmio como possível substituto de Fernandinho, caso Alex Teixeira não vingue na posição onde tem sido testado por Lucescu.

Exceção feita a Taison, os cinco outros reforços possuem 22 anos ou menos, experiência na elite nacional e passagens pela seleção – seja principal ou de base. Todos com um grande potencial. Mostras do objetivo do Shakhtar, que quer se renovar, mas também ir além. Quem sabe, uma geração capaz não apenas de manter a hegemonia na Ucrânia, como também de protagonizar uma campanha histórica na Liga dos Campeões, passando das quartas de final e repetindo o melhor desempenho de um clube do país no torneio continental.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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