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Conto de uma noite de verão austríaca e a queda do técnico sérvio

Capítulo 1

Nove de agosto, jogo de volta da terceira fase preliminar da Liga Europa. Rapid Viena e Vojvodina Novi Sad entram em campo no estádio Gerhard-Hanappi, na capital austríaca. Estive presente nessa partida durante a viagem que fiz pela ESPN na Áustria e em Liechtenstein. Na ida, o time sérvio venceu por 2 a 1 e jogava por um empate para se classificar.

Faz calor na noite vienense, é verão. Antes da partida, muita confusão entre as torcidas. Os ultras do Rapid, que bebia no Pub em frente ao estádio há horas, se aproveita do vacilo de um pequeno grupo da torcida adversária e começa a pancadaria. Tudo sob o olhar passivo da polícia austríaca, que só resolve agir após alguns sérvios serem espancados no chão.

O jogo começa. Duro, muita marcação, poucas chances de gol para os dois lados. Quarenta e cinco minutos, bola levantada na área do Vojvodina. O atacante norte-americano Terrence Boyd sobe com Branislav Trajkovic e o árbitro polonês Robert Malek marca pênalti. Muito, muito duvidoso. Eu não marcaria. Na cobrança, Deni Alar faz 1 a 0, resultado que classificava os austríacos. Aos 53, com os sérvios desesperadamente no ataque, Boyd sacramenta a classificação e marca o segundo gol do Rapid.

Após o jogo, os jogadores sérvios, indignados, promovem um quebra-quebra no vestiário. Os delegados da Uefa começam a correr como formigas saindo de um formigueiro. Confusão controlada, chega a hora da coletiva de imprensa. Com cara de pouquíssimos amigos, por mais que essa seja sua cara normal, o técnico Zlatomir Zagorcic aparece para falar com os três jornalistas sérvios que viajaram até Viena para acompanhar a peleja e este que vos escreve.

Com o tradutor ao lado, Zagorcic elogia o rival, mas deixa claro que seu time merecia sorte melhor e critica a arbitragem, sem ser duro – “não podemos falar muito sobre árbitros”. Abrem as perguntas. Ninguém se aventura a importunar o treinador. Ao menos nenhum jornalista sérvio. Levanto a mão e questiono: o árbitro prejudicou o Vojvodina? Zagorcic para, respira. Diz que não está satisfeito com a decisão da arbitragem, mas pede para que todos observem as imagens e tirem suas próprias conclusões.

Capítulo 2

Primeiro de setembro, quarta rodada do Campeonato Sérvio. Fora de casa, o líder Vojvodina Novi Sad vence o Donji Srem por 1 a 0. Terceira vitória consecutiva, invencibilidade mantida e liderança assegurada com dez pontos.

Desde o tropeço em Viena, o Vosa não perdeu mais. Foram dois outros triunfos pelo placar mínimo, contra Borca e Spartak Subotica, e um empate com o Smederevo na estreia. Após quatro jogos, o campeão iugoslavo de 1966 e 89 e vice sérvio em 2009 se mantém à frente dos gigantes Partizan Belgrado e Estrela Vermelha.

Resultado de tudo isso, divulgado nesta quarta, mesmo com o excelente aproveitamento: demissão. Zagorcic caiu. Havia assumido o cargo em maio, substituindo o montenegrino Dejan Vukicevic, que conduziu o time ao terceiro lugar em 2011/12. As magras vitórias foram as responsáveis por sua queda, de acordo com o diretor Esportivo do Vojvodina, Miodrag Pantelic. “Analisamos as nossas atuações durante a pausa para os jogos das seleções e sentimos que deviamos ter jogado um melhor futebol contra três rivais que eram mais fracos do que nós. Ganhamos por muito pouco”.

Capítulo final

Zlatomir Zagorcic foi substituído por Nebojsa Vignjevic. Nascido em 15 de junho de 1971 e ainda iniciando a carreira de treinador, Zagorcic – natural de Novi Sad, mas naturalizado búlgaro, tendo defendido a Bulgária na Euro de 2004 – sentiu na pele como o futebol é cruel. Se aquele polêmico pênalti não tivesse sido marcado, sua sorte poderia ser outra.

O Rapid avançou para os playoffs e deixou o PAOK no caminho. Está na fase de grupos, ao lado de Metalist Kharkiv, Bayer Leverkusen e Rosenborg. É o segundo na tabela do Campeonato Austríaco e vive um momento tranquilo, sem complicações. Diferentemente do rival naquele fatídico nove de agosto de 2012.

Supor, imaginar uma situação hipotética é sempre muito complicado. Mas aquele pênalti começou a definir a demissão de Zagorcic. E eu estava lá, vendo o início de sua queda. Por mais simplório que possa parecer. Eu estava lá, em outro país, em outro continente, atrás do banco do Zagorcic, vendo mais um jogo de futebol e suas nuances.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

para ver a matéria na ESPN Brasil.

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