Juventus x Napoli: o jogo que não aconteceu e a disputa sobre aplicação de protocolos

Andrea Agnelli, presidente da Juventus, afirmou que seu clube fez tudo certo e que se o Napoli tivesse feito, autoridade de saúde não teria recomendado não viajar

O Campeonato Italiano viu uma das cenas mais ridículas neste domingo, com a Juventus indo a campo no Estádio Allianz para uma partida que ela sabia que não aconteceria. O Napoli, que seria o adversário da Velha Senhora na noite de domingo, nem saiu da cidade por recomendação da Autoridade de Saúde da sua região. Com isso, está seriamente ameaçado de sofrer um WO.

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Tudo começou no sábado, quando o Napoli não viajou para Turim como planejado. A informação inicial era que a Autoridade de Saúde Local (ASL) tinha impedido que o clube se deslocasse, depois de ter dois casos positivos de COVID-19 no elenco. Piotr Zielinski e Eljif Elmas testaram positivo no elenco do Napoli.

Um dos pontos de mais preocupação foi o jogo do Napoli contra o Genoa, no estádio San Paolo, em Nápoles, no último domingo, 27 de setembro. O clube genovês tinha dois casos de COVID-19 no elenco, que foram isolados e não viajaram para o sul. Mesmo assim, nesta semana foram revelados 22 casos de COVID-19 no clube, sendo 17 deles de jogadores. Os jogadores do Napoli tiveram contato direto com a maior parte desses jogadores, que estavam em campo na partida.

A ASL recomendou que todos que tiveram contato próximo com os jogadores infectados deveriam ficar em quarentena voluntária e a recomendação foi que o elenco todo do Napoli fizesse isso – e não viajasse para Turim.

Depois, surgiu outra dúvida: foi uma ordem ou uma recomendação da ASL? Foi efetivamente uma proibição? Ela se aplica ao Napoli, um clube profissional que estaria dentro de um protocolo definido pelo Ministério da Saúde do país? O documento estabelecido pela Lega Serie A incluía a possibilidade de autoridades locais tomarem medidas. Esta seria uma delas?

A Lega Serie A divulgou comunicado neste domingo, dia do jogo, dizendo que o Napoli não conseguiu provar que não poderia jogar a partida desta noite, por isso, o protocolo utilizado foi mantido. Se o clube tem 13 jogadores saudáveis, testados negativos para COVID-19, incluindo ao menos um goleiro, o time tem condições de jogar. É o protocolo usado também pela Uefa.

A ASL da região de Nápoles, então, divulgou um novo comunicado confirmando que instruiu o clube a não viajar. “Não havia as condições necessárias para permitir uma viagem em total segurança”, diz o comunicado da autoridade de saúde. A justificativa é que os jogadores teriam contato com profissionais do aeroporto, passageiros no hotel e outras pessoas pelo caminho, o que tornaria o risco alto demais.

A Juventus fez toda a cena de ir a campo no seu estádio, entrar em campo, fazer o aquecimento e inclusive havia torcedores, dentro do limite permitido. O clube divulgou escalações e agiu normalmente como se fosse ter jogo, o que obviamente não aconteceu. O presidente da Juventus, Andrea Agnelli, deu entrevista coletiva para explicar a posição do clube sobre o imbróglio.

“Eu estou aqui porque é apenas correto que nós expressemos a nossa opinião”, afirmou o presidente da Juventus. “Nós precisamos de clareza. Há protocolos que são muito claros para situações como essas, a situação era previsível, que haveria um ou dois casos de COVID no elenco do jogo. Nesse ponto, nós vamos ao protocolo aprovado pelo CTS [Comitê Técnico de Saúde] e a Lega Serie A, que é que nós entremos em isolamento voluntário na estrutura combinada com a ASL [autoridade de saúde local]”.

“Isso permite que todos nós entremos na estrutura, continuemos treinando e jogando quando testados regularmente. Há clareza, a Federação trabalhou bem com o Ministério da Saúde e o CTS para garantir que nós todos soubéssemos o que precisava ser feito. A Juventus descobriu que havia dois casos de COVID ontem [sábado], então, naturalmente nós todos fomos para a bolha, então nós estaríamos preparados para jogar este jogo”.

“O protocolo foi desenhado pelo governo e pela CTS. Se nós formos para situações com cenários limítrofes, então nós podemos olhar o protocolo e então trabalhar essas situações individuais. O foco permanece na saúde pública, é claro, mas esse protocolo foi desenhado para nos permitir continuar a nossa profissão”.

Agnelli sugere que Napoli não seguiu o protocolo

“A mensagem dele foi para adiar o jogo, o que pode ser um pedido legítimo, mas há algumas regras claras e nós todos temos que nos manter nele. Qualquer indústria tem suas regras e se nós não as seguirmos, isso é um erro não apenas como profissionais, mas como cidadãos”, afirmou Agnelli.

“Não cabe a mim dizer se as regras precisam ser mudadas. Tudo que eu posso fazer é seguir as regras que estão escritas. O protocolo foi escrito precisamente para o que acontece se há um teste positivo”, continuou o dirigente.

“Como estamos em competição internacional também, nós temos três testes swab por semana, todos dois dias antes do jogo. É inevitável que todos os times registrem casos. Eu acho que a maioria dos nossos casos, se não todos, são assintomáticos, então se nós não fôssemos testados e monitorados tão de perto, eles continuariam a exercer suas atividades”.

O presidente foi perguntado se ele viajaria com o clube se a ASL da região de Piemonte fizesse a mesma recomendação que eles não viajassem, como foi feito com o Napoli. “Nós não sairíamos, mas não acreditamos que a ASL iria divulgar esse comunicado. Se eles fizessem isso, é evidentemente porque eles sentiram que houve alguma falha em seguir o protocolo existente”, disse Agnelli. “Na minha visão, o ASL não precisaria intervir se o protocolo que foi mandado a todos os clubes fosse seguido meticulosamente”.

A ideia que o Napoli não cumpriu o protocolo estabelecido e, por isso, a ASL da sua região emitiu o comunicado é reforçada pelo médico da Juventus, Luca Stefanini. Para ele, o comunicado da ASL da região de Campania só evidencia isso.

“O comunicado não diz nada novo. Neste caso específico, no momento que o caso positivo foi registrado, uma bolha tem que ser imposta imediatamente”, afirmou o médico em entrevista à Sky Sport Italia. “Isso é o que nós fizemos com os jogadores, funcionários, médicos e todo o grupo que vai para os jogos quando tivemos dois casos positivos nesta semana. Também há os [testes] swab, novamente como o protocolo, o que veio negativo e nós ficamos disponíveis para jogar a partida”, continuou o profissional. “Eu não sei se o Napoli fez o mesmo. Eu sei apenas que nós impusemos o protocolo e seguimos à risca”.

Há pouca coisa clara nesse assunto. O que o episódio mostra é que faltam diretrizes mais claras em casos como o que aconteceu desta vez. As autoridades de saúde instruíram o Napoli a não viajar porque o clube descumpriu o protocolo ou o protocolo estabelecido não é seguro o bastante e fez com que a autoridade de saúde barrasse algo que é problemático? O assunto deverá ser discutido. É seguro dizer que a disputa irá para os tribunais depois deste domingo.