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Os 50 anos de Weah, o craque que botou o futebol africano no topo do mundo

A Libéria possui uma história singular no continente africano. O nome, do latim “terra dos livres”, não é mero sarcasmo de colonizadores. O país, independente desde 1847, se formou a partir de escravos libertos nos Estados Unidos e que voltaram à África para compor uma nova sociedade. Obviamente, nem tudo foi feito de flores no desenvolvimento da nação. Mas, por tortuosos caminhos, um liberiano voltou a simbolizar o rompimento em 1995, justo quando seus conterrâneos viviam sua guerra civil. George Weah se tornou o primeiro jogador africano a conquistar o prêmio de melhor do mundo da Fifa, assim como a Bola de Ouro, recém-aberta a atletas de fora da Europa. Ápice da carreira de um dos maiores craques dos anos 1990, que completa 50 anos neste sábado.

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Ao contrário de muitos jogadores africanos que chegam ao estrelato na Europa, Weah teve sua formação inteira no futebol local. Profissionalmente, defendeu dois clubes liberianos e um marfinense, até desembarcar no Tonnerre Yaoundé, uma das maiores potências continentais. Brilhou tanto nos campeões camaroneses que atraiu o interesse do Monaco, então treinado por Arsène Wenger. Logo em sua primeira temporada no principado, marcou 14 gols em 23 partidas na Ligue 1, o que lhe ajudou a conquistar o primeiro de seus três prêmios de melhor jogador africano, ainda aos 23 anos de idade.

Em quatro temporadas no Monaco, Weah se tornou um dos principais jogadores do futebol francês, mas conquistou apenas uma Copa da França. A avalanche de taças aconteceria a partir de 1992, contratado pelo Paris Saint-Germain. Os parisienses não viviam os tempos abastados de agora, mas formaram um timaço naqueles anos, protagonizado por outras estrelas da estirpe de Raí, Ginola, Ricardo Gomes, Valdo e Lama. O time da capital rompeu a hegemonia do Olympique de Marseille, faturando a Ligue 1 em 1994, além de levar duas Copas da França e uma Copa da Liga.

O PSG de Weah também ganhava os holofotes nas competições europeias. Nas três temporadas em que esteve no clube, o atacante chegou a semifinais de torneios continentais, mas não conseguiu ir além. Parou diante da Juventus na Copa da Uefa de 1992/93 e do Arsenal na Recopa de 1993/94, após ter eliminado em ambas o Real Madrid. Já a campanha mais marcante aconteceu na Liga dos Campeões de 1994/95. Os parisienses bateram pelo caminho Bayern de Munique e Barcelona. Só não aguentaram o Milan de Fabio Capello nas semifinais. Curiosamente, aquele seria o destino de Weah, que terminou a Champions como artilheiro, autor de oito gols em 11 jogos.

O ótimo primeiro semestre pavimentou seu trajeto à Bola de Ouro. Favoritismo complementado pelo início arrasador no San Siro. A potência de Weah impressionava, combinando força física, qualidade técnica e muita capacidade nas finalizações. Ainda que seus números de gols não sejam tão expressivos, mesmo para a época, o liberiano se transformou em uma máquina ofensiva. Faturou o Scudetto logo na primeira temporada, em timaço que também contava com Baresi, Maldini, Savicevic, Desailly, Albertini e Roberto Baggio. A satisfação de Weah, aliás, esteve completa desde janeiro de 1996, quando levou a Libéria a sua primeira edição da Copa Africana de Nações.

A passagem pelo Milan ainda contaria com três boas temporadas, nas quais Weah permaneceu como um dos astros do time e um dos melhores atacantes do futebol europeu. Já o canto do cisne veio na conquista do Scudetto em 1998/99. Jogando ao lado do artilheiro Bierhoff no ataque, o liberiano contribuiu com oito gols. Depois disso, perdeu espaço com a contratação de Andriy Shevchenko, dez anos mais jovem e de características parecidas. Sem espaço entre os rossoneri, o veterano rodou por Chelsea, Manchester City e Olympique de Marseille, mas nunca mais foi o mesmo. Ao menos da seleção ele pôde se despedir em grande estilo, na Copa Africana de 2002.

Aposentado, Weah enveredou por outros caminhos, inclusive a política. Mostra da imagem que ficou, por representar tanto ao seu país. Ao resto do planeta, todavia, as memórias gravadas são do cracaço e seus belos gols, seja nas filas que fazia ou nas acrobacias. Ao lado de Ronaldo, Weah foi talvez o maior símbolo da transformação que os atacantes passariam a partir de então, exigindo, tanto quanto talento, uma capacidade de devorar as defesas adversárias também com potência. Um goleador completo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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