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Da Lupa: “Só atrapalharam e não trouxeram nada de bom”

Manuel da Conceição Ferreira, o Manuel da Lupa, presidente da Portuguesa, é sincero ao revelar o sentimento que seu clube desperta na CBF. “Não posso dizer quanto eles me ofereceram de cota para 2012, mas não foi muito. Eles olham para gente como um clube bate-volta.” Se for isso, é bondade, boa-vontade da Globo. A Portuguesa bate e não volta. Ou volta poucas vezes. Nos últimos dez anos, disputou a Série A por apenas duas vezes. Caiu nas duas, em 2002 e 2008. E, a menos de 40 dias do início do campeonato de 2012, aparece como séria candidata ao rebaixamento. Mais uma vez.

Antes da dura luta no Brasileiro, há uma semana de muita tensão no Canindé. O time, de quem se esperava ter possibilidades de chegar às semifinais do Paulistão, luta para não cair. Com apenas quatro vitórias e 18 pontos, é ameaçada por XV de Piracicaba e Botafogo, com 17 e 16 pontos, respectivamente. A “Barcelusa” que encantou na Série B há alguns meses, já é passado. “Tentei reforçar o time com o Vitor Junior, do Corinthians, por exemplo. Mas, como não vendi o Guilherme para eles, não aceitaram, por represália. Não faz mal. O Guilherme vai sair para a Europa e render dinheiro para o clube. E digo que não vamos cair no Paulistão e nem no Brasileiro. Vamos montar um time para ficar entre os dez primeiros e disputar a Sul-Americana. Nosso planejamento atrasou porque contratamos alguns jogadores errados. Gente que não liga para o clube e que não sua a camisa. Mandei todo mundo embora.”.

O presidente se refere ao zagueiro Gustavo, o volante Maylson, os meias Diego Souza e Michael e o atacante Vandinho que, juntamente com o volante Leo Silva, vieram reforçar o time após o final da Série B. Reforçar é modo de falar. “Eles não jogaram nada. E não é jogador barato não. Só atrapalharam e não trouxeram nada de bom ao clube”, diz Da Lupa. A diretoria mandou que todos treinassem separados dos outros jogadores. O Sindicato interveio e estão juntos com os demais, mas não participarão do Brasileiro. E a Portuguesa, com cofres combalidos, precisará entrar em acordo ou então continuar pagando salários a todos. Gustavo, por exemplo, tem contrato até o final do ano.

Moral da história: quem contrata mal, contrata duas vezes. “Pode ser, mas estava difícil conseguir um meia para o lugar do Marco Antonio. A Portuguesa não tem muito dinheiro. Tentamos o Marquinhos, do Grêmio, mas ele não quis. Então, veio o Diego Souza, um pouco fora de forma, para se recuperar e ajuda a gente. Só que não deu certo”, afirma Carlos Lourenço, o diretor de futebol. Antes, já haviam sido afastados os atacantes Rafael e Wilson Jr, contratados por três meses, experimentalmente.

Mas não há exemplo maior de falta de planejamento do que o acontecido com a renovação do goleiro Weverton, um dos destaques do time na Série B. Ele tinha contrato até o final de maio, quando também se encerra o Paulistão. Recebeu uma oferta do Atlético-PR e comunicou à Lusa, que não iria renovar. Imediatamente, o técnico Jorginho o sacou do time. “A idéia do Jorginho era testar o Rodrigo Calaça, que veio do Goiás para ver se ele daria conta no Brasileiro”, diz Wolney Caio, superintendente de futebol. Não deu conta nem do Paulistão. Falhou muito, inclusive no final da partida contra o Linense, que poderia livrar a Lusa do perigo do rebaixamento. Agora, Weverton, que está apenas treinando, pode voltar na última partida, contra o Mirassol.

“Estão me criticando porque eu trouxe o Calaça, que foi muito tempo reserva do Iarley, mas isso não significa nada. Tem jogador que é reserva em um time e joga bem no outro. O Weverton mesmo veio de um time ai, não lembro qual e foi bem na Lusa”, diz Manuel da Lupa. E lógico que ele estava falando de Harlei e não Iarley, do Goiás. E o time que ele não se lembra é o Botafogo de Ribeirão Preto.

Tudo o que se planejou foi perdido. A idéia inicial era de montar um time mais forte para o Paulistão e depois, com o dinheiro da Globo, “arredondar” de vez para o Brasileiro. Agora, tem de correr atrás. Mas, como, se não há dinheiro? “A solução para a Portuguesa era investir alto agora, aumentar a dívida e se garantir na Série A. Em 2013, a cota é maior e você dá um jeito de pagar o que deve. Mas eles pensam de forma contrária. Vão gastar pouco agora e vão cair para a Série B. E aí, vão receber muito menos dinheiro. Está faltando ousadia”, diz o jornalista Alexandre Barros, conselheiro do clube e dono da Líder, equipe de rádio que transmite todos os jogos da Portuguesa.

A diretoria busca parcerias para reforçar o time. Procura jogadores que não serão aproveitados em clubes grandes e se propõe a acolhê-los, pagando metade dos salários. É o caso do volante Wilson Matias, do Internacional, que recebe R$ 150 mil no time gaucho. Os R$ 75 mil que a Portuguesa pretende honrar mensalmente são quase o dobros dos R$ 40 mil fixados como teto salarial em 2011.

O momento ruim da Portuguesa atrapalha também o planejamento do departamento de marketing do clube. “No ano passado, quando o time estava muito bom, lançamos o projeto sócio-torcedor. Nossa meta era conseguir 5 mil associados, que é um número ousado diante da força da nossa torcida. Conseguimos vender 900 rapidamente. Agora, deu uma estabilizada. Estamos com 980 aproximadamente. Se o time melhorar, a procura aumenta. E também esse ano haverá jogos contra grandes equipes do Brasil, o torcedor sabe fazer conta, sabe programar seu dinheiro e o sócio-torcedor vai aumentar novamente”, diz Fábio Porto, diretor de marketing do clube.

Apesar do momento ruim, ele continua negociando patrocínios para o clube. “Nossa meta é conseguir R$ 7 milhões anuais por toda a camisa. A Irwin, patrocinadora principal está garantida até o final de 2013. O Banif fica até o final do ano, assim como a Leo Gráfica. A Camp e a Viva encerram agora o contrato, mas queremos renovar. E procuramos mais um outro parceiro, para a parte traseira do calção”. Apenas para comparar, o São Paulo busca um patrocinador em torno de R$ 30 milhões por ano, o que mostra o bom trabalho do marketing da Portuguesa, caso consiga seus R$ 7 milhões.

Porto recebeu, há poucos dias, alguns torcedores que organizaram um abaixo assinado com mais de 700 adesões contra a nova camisa da Portuguesa, a quem chamam de “abadá” pelo estilo pouco tradicional. “Tudo é democracia, aceitamos as críticas, mas é preciso lembrar que estamos vendendo 3 mil camisas por mês. Muito mais do que o modelo anterior, que era da Penalty.”  O atual fornecedor é a Lupo. Críticos do novo uniforme que a empresa só foi escolhida por ter um nome parecido com o do presidente. “Que bobagem. Esse é o tipo e críticas que eu recebo. Você acha que eu prejudicaria o clube por vaidade? A Lupo ganhou a licitação e pronto”, diz Manuel da Lupa.

O presidente, que mudou o estatuto do clube para conseguir se reeleger em 2010, gosta de justificar seu ato pela maneira, que considera correta, como administrou a dívida do clube. “Quando assumi o clube, em 2005, a dívida era de R$ 294 milhões. E agora é de R$ 115 milhões, com R$ 80 milhões a longo prazo. Era muita dívida trabalhista e fiz muitos acordos. A Portuguesa, graças a mim, deixou de ser um clube insolvente”.

O advogado José Luiz Ferreira de Almeida, de 57 anos, perdeu a eleição para Manuel da Lupa em 2005 e em 2010 foi coordenador da campanha de Ilídio Lico, também derrotado. Ele vê uma grande conspiração na maneira como a dívida está sendo paga. “A Portuguesa não tem dinheiro e nem direito a ter conta em banco. Então o Mané da Lupa e o Luis Iaúca fizeram uma conta conjunta. E o Banco Banif injeta muito dinheiro nessa conta, que eles repassam para a Lusa. Já e coisa de R$ 44 milhões. Eles falam que é amor ao clube, acreditam em amor de banqueiro. Eu não acredito nisso e nem em cegonha e Papai Noel. Aí tem coisa errada e eu tenho uma teoria”, afirma.

A teoria?  “Isso é uma venda programada do patrimônio da Portuguesa. Quando o aporte do Banif chegar a R$ 80 milhões, ele vai executar a divida. E tenho certeza que o Mané da Lupa e o Luis Iaúca têm um acordo para que a Portuguesa pague e não eles, embora o dinheiro vá para a conta deles. Vão entregar o terreno da Lusa, ao lado do estádio. Ali e um local muito bom para ser sede de um banco”.

Julio Rodrigues, presidente do Banif e conselheiro da Portuguesa, não responde às críticas e se recusa a explicar como é a forma de empréstimo para o clube. “Por favor, entenda que isso é uma questão de sigilo, não podemos ficar falando dos empréstimos que fazemos. O que eu te garanto é que estar na camisa da Portuguesa é muito bom para o Banco. É uma exposição que vale a pena e que vamos renovar quando for preciso. Quanto à caída do time, eu acho natural. Apenas os grandes clubes se matem sempre no topo. Clubes médios como o nosso, sobem e caem. Nós vamos continuar ajudando a equipe a fazer um bom Brasileiro da Série A”.

Da Lupa, que se diz cansado de críticas, diz que sai no final de 2013 e não volta mais. E que não será esquecido. “Falam de mim, mas comigo a Portuguesa ganhou dois títulos. Podem falar que a segunda divisão do paulista não vale nada, mas pelo menos eu ganhei. São dois títulos que eu consegui”.

O numero de títulos, se as coisas não melhorarem essa semana, pode chegar a três. Infelizmente.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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