Como vários outros bons formadores de jogadores, o Arsenal por vezes acaba por não dar as devidas oportunidades a alguns de seus jovens talentos e os vê fazer sucesso em outros clubes, algo natural, mas que nem por isso dói menos. Um desses nomes de maior iminência atualmente é Ismaël Bennacer, destaque do Milan, que em entrevista recente ao site Goal falou sobre o seu relativo fracasso na capital inglesa, refletindo sobre os motivos de não ter dado certo nos Gunners.

O franco-argelino chegou ao norte de Londres em julho de 2015, aos 17 anos, e conta que os primeiros meses foram difíceis para sua adaptação: “Nos primeiros dois meses, fiquei em um hotel porque não queria ir morar com uma família que eu não conhecia. Eu tinha 17 anos, não era maior de idade e não podia viver sozinho, então minha irmã veio ficar comigo. Então, a Chaines se juntou a mim, alguém com quem eu estava desde a escola e que se tornaria minha mulher na Inglaterra”.

Em meio ao início difícil fora dos gramados, Bennacer não demorou para ter sua chance no time principal. O problema é que ela seria também a única ao longo dos dois anos que passou sob contrato com os Gunners, em um confronto de pouca importância e deslocado em uma posição que não era a sua.

“Em outubro, enfim, eu vi o gramado. Na Copa da Liga, contra o Sheffield Wednesday: o Chamberlain se machuca, o Walcott o substitui e, dois minutos depois, ele se machuca também. Então, o Wenger me lançou a campo. O problema é que ele me coloca na ponta esquerda, uma posição em que eu nunca tinha jogado.”

Bennacer admitiu que foi engolido pela pressão daquela estreia. Na sequência, não teve mais oportunidades, mas tampouco guarda ressentimento da época, preferindo focar o lado positivo, como o aprendizado de poder treinar com estrelas do futebol europeu.

“Senti uma pressão imensa. Perdi algumas bolas, mas também recuperei algumas. Depois daquilo, não joguei mais, mas não tenho arrependimentos. Treinei com jogadores importantes, como Özil e Cazorla”, relembrou.

Apesar de ter ainda quatro anos de contrato com o Arsenal, Bennacer deu um passo corajoso ao acertar com o Empoli, então na segunda divisão italiana, sentindo-se respaldado pelo desejo que o clube demonstrou em contar com seu futebol.

“Eu ainda tinha um contrato de quatro anos com o Arsenal, mas fui para onde me queriam de verdade. Não conhecia o Empoli, mas aceitei ir da Premier League para a Serie B italiana porque este era o clube que mais me queria”, revelou.

Bennacer em seus tempos de Arsenal (Imago/OneFootball)

A mudança se provou bastante acertada. Em sua primeira temporada, 2017/18, ajudou o Empoli a subir para a Serie A. Na campanha seguinte, não evitou o rebaixamento do clube, mas se destacou suficientemente para atrair os olhares de grandes clubes, entre eles o Milan. A decisão, então, não foi muito difícil: “Com o Milan, eu os escolhi por sua história, mas ainda mais porque o projeto era o melhor para mim”.

Hoje peça fundamental da seleção argelina, da qual foi o grande nome na conquista da Copa Africana de Nações de 2019, e de um Milan renovado, que ameaça brigar até o fim da temporada pelo Scudetto, Bennacer se colocou em evidência para todo o cenário europeu, com os Rossoneri já se movimentando para garantir os serviços do meia por mais alguns anos, afastando o suposto interesse de gigantes como Bayern de Munique, Manchester City e Paris Saint-Germain.

Bennacer é apenas um dos diversos exemplos de sucesso de jogadores que abrem mão de brigar por seu espaço em clubes grandes para fazer um percurso alternativo de baixo para cima, sendo logo recompensados. Outros exemplos que se sobressaíram incluem Martin Odegaard, que retornou ao Real Madrid após brilhar pela Real Sociedad, e Serge Gnabry, formado no próprio Arsenal e que foi se reinventar no Werder Bremen, logo garantindo uma transferência para o Bayern de Munique.