Itália

O paredão voltou

É como se Gianluigi Buffon tivesse passado na casa de Júlio César para pegar de volta o título de “melhor goleiro do mundo” que havia emprestado ao brasileiro por uma temporada. O camisa 1 da Juventus, neste início de campeonato, tem mostrado que ainda é capaz de atuar como nos melhores dias de sua carreira. E seu desempenho é uma das principais causas para o ótimo começou da Vecchia Signora, que venceu os quatro primeiros jogos da Serie A, marca igualada apenas pela Sampdoria de um inspirado Antonio Cassano.

Na vitória por 2 a 0 sobre o Livorno, sábado passado, Buffon esteve impecável. Não foi uma daquelas vitórias em que o time visitante praticamente não ameaça. Pelo contrário, o time toscano, da dupla Tavano-Lucarelli, criou oportunidades e só não marcou porque havia uma muralha pela frente. Em uma destas ocasiões, o placar ainda estava 0 a 0, aos 4 minutos de jogo, quando Buffon saiu nos pés de Tavano para salvar a Juve. Depois, já com a vantagem construída, ele não deu chance aos livorneses de voltar à partida.

A quem lhe pergunta se o paredão voltou, Buffon tem dito que é impossível voltar sem nunca ter ido, mas a verdade é que a última temporada foi abaixo dos seus padrões, em parte pela lesão que o manteve afastado por parte da campanha, mas também por uma queda no aspecto técnico. Uma queda que agora parece totalmente remediada.

Nas quatro partidas até agora, a Juventus só levou um gol, do romanista Daniele de Rossi, na segunda rodada. A exemplo do que fez no início da temporada 2004/05, quando Buffon só foi vazado uma vez nos primeiros quatro jogos. Aquela temporada terminaria em título – posteriormente revogado pelo Calciocaos de 2006.

Chegar à quarta rodada com quatro vitórias, aliás, costuma ser presságio de título para a Juve. É a décima vez que isso acontece, e, das outras nove, apenas em uma oportunidade, na temporada 1948/49, a campanha não terminou em scudetto. A última foi em 2005/06, quando o time de Fabio Capello estabeleceu uma seqüência recorde de nove vitórias no início do campeonato, que também terminaria com título (depois cassado).

Já foi dito nesta coluna que as contratações da Juventus para esta temporada (sobretudo a de Diego, mas também as de Felipe Melo, Cannavaro e Grosso) deixaram o time mais próximo da Internazionale na disputa pelo título. Mas foi justamente a capacidade de se virar sem alguns dos reforços que chamou a atenção no jogo do último sábado, quando Diego, Melo e Cannavaro estavam fora por lesões.

Os autores dos gols diante do Livorno foram dois destaques deste início de temporada. Vincenzo Iaquinta, que começou a última temporada como quarta opção de ataque, hoje é o nome mais importante da linha de frente da Juve. Ele raramente tem passado em branco, sobretudo no Olímpico de Turim, deixando para trás o estigma de “jogador entre parênteses”, como ficou conhecido por sempre começar no banco e entrar no decorrer das partidas.

O bom momento de Iaquinta tem permitido que Alessandro Del Piero se recupere com tranqüilidade de sua lesão. E a seu lado, podem jogar tanto Amauri quanto David Trezeguet, que tem sido contentado por Ciro Ferrara com bons minutos em campo, o que já faz com que o francês pense em reconsiderar a decisão de deixar o clube no fim da temporada.

O outro goleador do sábado, Claudio Marchisio, teve uma ascensão destacada nos últimos meses, conquistando espaço na seleção italiana e rapidamente agarrando a vaga de titular. Na Juve, é fundamental por ocupar qualquer posição na trinca de meio-campo. Com apenas 23 anos, já é comparado pelos mais antigos a Marco Tardelli, que fazia função semelhante.

Outra chave para a recuperação juventina é Mauro Camoranesi. O ítalo-argentino esteve apagado com Cláudio Ranieri, mas reencontrou sua utilidade sob o comando de Ferrara. Saíram de seus pés os dois gols contra o Livorno. Camoranesi pode jogar como um dos volantes pelos lados, mas também é útil em caso de necessidade na armação, substituindo Diego. Foi assim por alguns minutos na última partida, após a substituição de Sebastian Giovinco.

Giovinco, por sua vez, é um ponto de interrogação, por continuar alternando exibições brilhantes com outras extremamente discretas. Por sua juventude, ainda justifica que se tenha paciência, mas será preciso regularidade para ter um futuro fora do banco de reservas.

Vencer os jogos contra os times pequenos, ainda que com dificuldades, é fundamental para a Juve em suas pretensões de título. Ferrara sabe disso muito bem, e tem trabalhado em silêncio. Já deixou claro que não entrará em guerras de palavras e provocações através da imprensa – seria fazer o jogo em que José Mourinho, seu adversário direto, é melhor.

Concentrando-se apenas no que tem de fazer dentro das quatro linhas, e com um Buffon assim, a Vecchia Signora pode chegar longe.

Cassanomania

Aproxima-se o dia em que Marcello Lippi será o único a achar que Antonio Cassano não faz por merecer um lugar na seleção italiana. A Sampdoria venceu os quatro primeiros jogos, algo que nem o mítico time de Vialli e Mancini conseguiu, e deve isso em grande parte ao atacante.

Cassano tem histórico de problemas disciplinares, mas há tempos não se envolve em confusão. Parece ter encontrado estabilidade em sua vida pessoal e um ambiente no qual consegue se sentir parte integrante de um grupo, algo que não existia nos clubes anteriores. Mais do que isso, é um líder no vestiário da Samp.

Dentro de campo, Cassano aliou a seu talento – algo que nunca foi questionado – uma maior consciência tática. Hoje, é capaz de identificar em que posição rende melhor dependendo das forças e fraquezas do adversário.

Não por acaso, a Gazzetta dello Sport nesta terça-feira abre uma de suas páginas com a manchete “Cassanomania”, elencando as razões para Lippi engolir o orgulho e convocá-lo. Pode até não fazê-lo agora, mas às vésperas da Copa do Mundo, se ele mantiver o nível atual, será impossível ignorar o clamor.

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Equipe Trivela

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