Itália

Coragem (e sorte) de campeã

A Roma deu um passo de gigante para conquistar o scudetto ao vencer a Lazio por 2 a 1, de virada, em um dérbi recheado de drama. Provavelmente não teria conseguido se não fosse por seu goleiro. Mas não seu goleiro que irá à Copa do Mundo pela Seleção Brasileira, e sim o titular de fato e de direito.

Júlio Sérgio defendeu o pênalti de Sergio Floccari que teria colocado o placar em 2 a 0 para os biancocelesti logo no início do segundo tempo, e pavimentou ali o caminho para a reação inspirada por Mirko Vucinic. Hoje, apenas uma pessoa no mundo prefere Doni a Júlio Sérgio (e a tantos outros goleiros brasileiros): Dunga.

Dizem, porém, que a sorte vem para quem procura. E a Roma procurou. Depois de um primeiro tempo indigno de um time que luta pelo título, em que o nervosismo prevaleceu sobre a técnica, a equipe que voltou para a etapa final se comportou de forma totalmente diferente. Porque Claudio Ranieri foi capaz de fazer uma alteração que muitos de seus antecessores teriam medo de fazer: tirou Totti e De Rossi de uma tacada só, mexendo nos dois maiores símbolos romanistas do elenco. O capitão do presente e o do futuro.

Provavelmente, se a virada não tivesse chegado, Ranieri teria muitos questionamentos a responder. Como disse Simone Perrotta em seu primeiro ano de clube, “quando vence a Roma, vence Totti, e quando perde a Roma, perdemos nós”. Mas a verdade é que o equilíbrio tático e emocional só chegou sem a dupla dentro de campo.

Na formação inicial, o técnico romano cedeu às tentações de escalar juntos Totti, Toni e Vucinic em um tridente desejado pelo torcedor. E descobriu que a equipe fica muito sacrificada sem a posse de bola. Toni fica muito preso na área, e Totti já não é capaz de correr. A ideia de dificultar a defesa da Lazio, armada no 3-5-2, fazendo os zagueiros jogarem no mano a mano também não funcionou.

Depois de provocar a fratura no nariz de Stendardo com um chute acidental (o zagueiro já foi operado e deve jogar normalmente na próxima rodada com uma máscara protetora), Toni passou a ser marcado por André Dias, deslocado para o centro, e o brasileiro fez um excelente trabalho, não permitindo que o camisa 30 giallorosso fizesse a diferença dentro da área.

O gol da Lazio aos 14 minutos, com lançamento de Ledesma e conclusão precisa de Rocchi (aproveitando falha de Burdisso) só fez aumentar a ansiedade dos jogadores da Roma, que tinha pouca saída pelos lados do campo e mal conseguia dar um chute a gol. Totti e De Rossi, além de apagados, levaram cartões amarelos bobos. Ranieri sentiu, então, que valia a pena correr o risco. Assim como fazia no Valencia, ao sacar Romário, e na Juventus, tirando Del Piero quando julgava que era o melhor para o interesse da equipe. “Eles (Totti e De Rossi) sentem demais o dérbi”, admitiu o treinador depois da partida.

As entradas de Menez e Taddei redesenharam a Roma em um 4-2-3-1, que permitiu a melhor exploração das costas dos alas laziali. Obviamente, o momento psicológico depois do pênalti perdido por Floccari também pesou contra a Lazio, que se viu pressionada. Mas foi de um pênalti sofrido por Taddei e de uma falta sofrida por Menez que saíram os gols de Vucinic, que esbanjou confiança ao assumir as responsabilidades. Normalmente, o pênalti seria responsabilidade de Pizarro e a falta de Riise. Mas o montenegrino estava no seu dia, como esteve em várias outras partidas fundamentais para a arrancada da equipe rumo ao título, lembrando o Montella e seus gols decisivos no scudetto de 2001.

A Lazio ainda tentou responder com as entradas de Zárate e Cruz, mas a dupla argentina pouco conseguiu fazer diante do entusiasmo romanista. Os biancocelesti saíram de campo com a amargura de quem teve a vitória nas mãos, mas com a consciência de que têm forças para escapar de uma situação, a da ameaça de rebaixamento, que podia ter sido evitada. E agora, para permanecer na Serie A, o time pode ter de vencer a Inter dentro de duas rodadas, o que ajudaria a rival.

Também podia ter sido evitada a confusão entre os jogadores dos dois times no fim do jogo. Bate-boca, empurrões, rasteira de Radu em Perrotta e um gesto condenável de Totti para a torcida da Lazio, com os polegares para baixo simbolizando a possível queda para a Serie B.

Os envolvidos no tumulto merecem e devem sofrer punições, mas é exagerado atribuir ao comportamento dos jogadores os novos incidentes de violência envolvendo torcedores dentro e fora do estádio. Uma bomba atingiu um carro que continua uma tunisiana e seus dois filhos, que não tinham nada a ver com a partida e por pouco conseguiram escapar. Três torcedores foram esfaqueados em brigas fora do Olímpico. A prefeitura de Roma havia pedido e conseguido a antecipação do jogo para 18h30 para facilitar o trabalho das forças de ordem, mas os arruaceiros sempre conseguem uma maneira de estragar o espetáculo.

Dentro das quatro linhas, a virada no dérbi foi uma mensagem importante de Ranieri: agora, quando a Roma vence, vencem todos. E um scudetto que parecia impossível até aos olhos do torcedor mais otimista agora parece muito mais próximo.

Confira os jogos que faltam aos três primeiros colocados:

Roma (71 pontos): Sampdoria (c), Parma (f), Cagliari (c), Chievo (f)

Inter (70 pontos): Atalanta (c), Lazio (f), Chievo (c), Siena (f)

Milan (64 pontos): Palermo (f), Fiorentina (c), Genoa (f), Juventus (c)

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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