Itália

Quatro meses em silêncio: Por que Conte deixou de dar entrevistas antes dos jogos da Serie A

Após desabafo público e meses turbulentos no Napoli, técnico italiano passou a evitar coletivas prévias e adotou trabalho interno como principal resposta à crise

A imagem de Antonio Conte sempre esteve associada à intensidade. O treinador italiano construiu a carreira com discursos fortes, gestos enérgicos à beira do campo e uma franqueza que raramente passava despercebida nas coletivas de imprensa. Nos últimos meses, porém, algo mudou. Desde outubro de 2025, o técnico do Napoli simplesmente deixou de participar das entrevistas prévias às partidas da Serie A.

A última vez que Conte se apresentou diante dos jornalistas antes de um jogo do campeonato italiano foi na preparação para o duelo contra o Torino, em 18 de outubro. Naquele momento, o contexto era outro: o Napoli ainda mantinha boa parte de sua base disponível, o sistema tático girava em torno do 4-1-4-1 e nomes importantes como Frank Anguissa e Kevin De Bruyne viviam fase positiva. Pouco depois, no entanto, a temporada começou a entrar em turbulência.

Derrotas inesperadas, como o doloroso 6 a 2 diante do PSV, desencadearam uma sequência irregular. Mesmo com momentos de reação — como a vitória marcante sobre a Internazionale no Diego Armando Maradona — o Napoli conviveu com lesões e resultados instáveis. Empates frustrantes contra Como e Eintracht Frankfurt alimentaram um clima de tensão crescente.

O dia em que o discurso de Conte mudou

Conte durante jogo do Napoli
Conte durante jogo do Napoli (Foto: Buzzi / Imago)

O ponto de virada ocorreu após a derrota por 2 a 0 para o Bologna, no estádio Renato Dall’Ara. Na coletiva depois do jogo, Conte fez um desabafo público incomum até mesmo para seus padrões. O treinador questionou o ambiente do elenco, disse não enxergar a mesma energia coletiva e chegou a insinuar que sua permanência poderia estar em risco caso o cenário não mudasse.

— Não existe mais aquela química, aquela vontade de lutar juntos, e não sei se conseguiremos mudar a situação. Isso significa que não estou fazendo um bom trabalho, porque não vejo nenhuma energia positiva, paixão ou garra, e isso é assunto de todos. E é justo que o clube saiba. Não quero estar com alguém que está se desfazendo — disse Conte na ocasião.

As declarações repercutiram imediatamente e abriram espaço para especulações sobre uma possível saída. Nos dias seguintes, o silêncio do treinador aumentou a tensão entre torcedores e imprensa.

A situação só foi parcialmente contida quando o presidente do clube, Aurelio De Laurentiis, usou as redes sociais para negar qualquer possibilidade de renúncia e reafirmar confiança no comandante.

— Tenho lido contos de fadas sobre a renúncia de Conte na internet. Nem sempre os pensamentos são corretos ou compreensíveis. Tenho orgulho de ter um homem de verdade como Antonio Conte ao meu lado, junto com o Napoli e os jogadores — escreveu o mandatário.

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O que pode ter acontecido?

Conte cumprimenta Alisson Santos após brasileiro marcar gol pelo Napoli
Conte cumprimenta Alisson Santos após brasileiro marcar gol pelo Napoli (Foto: Giuseppe Maffia / Imago)

Sem fazer questão de dar satisfações, Conte seguiu “ignorando” as coletivas antes dos jogos da Serie A. Durante o período em que o Napoli disputava simultaneamente a liga e a Champions League, ele limitou suas aparições públicas às entrevistas obrigatórias da competição continental.

Mesmo após a 30ª colocação e uma amarga eliminação precoce do clube na Champions, o silêncio permaneceu. A decisão parece refletir não somente uma estratégia de comunicação, mas também o contexto turbulento enfrentado pelo Napoli ao longo da temporada.

Conte precisou administrar quase 40 lesões no elenco, uma janela de transferências sem reforços relevantes e a saída de jogadores que deveriam ter papel central no projeto, como Lorenzo Lucca (emprestado ao Nottingham Forest) e Noa Lang (emprestado ao Galatasaray). A equipe também caiu cedo na Copa Itália e, como citado, sequer chegou ao mata-mata europeu.

Ainda assim, o Napoli conseguiu manter competitividade doméstica. O time conquistou a Supercopa Italiana e segue na parte alta da tabela da Serie A, ocupando a terceira posição, atrás apenas de Inter e Milan.

Nesse cenário, o silêncio de Conte acaba funcionando como extensão de sua filosofia: menos explicações públicas e mais foco no trabalho diário. Para um treinador conhecido pela intensidade das palavras, a ausência delas tornou-se, paradoxalmente, a forma mais clara de comunicação.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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