Itália

Com a cara no chão

A dupla humilhação sofrida pela Itália em um espaço de quatro dias – derrotas por 1 a 0 para o fraco Egito e por 3 a 0 para um Brasil que só jogou 45 minutos e tirou o pé no segundo tempo – simboliza bem o estado atual do futebol no país. A crise da Azzurra pode não durar muito, desde que Marcello Lippi dê os passos certos na renovação da equipe, mas é coerente com os últimos acontecimentos envolvendo os clubes do país.

Incapazes de competir financeiramente e tecnicamente com os representantes de Inglaterra e Espanha, os times da Serie A não demonstraram em momento algum na última temporada que tinham condições de brigar pelo título da Liga dos Campeões. Não foi por acaso ou por falta de sorte que nenhum deles chegou às quartas de final: foi por incompetência pura. Desde o título do Milan em 2007, os italianos se transformaram em coadjuvantes no cenário europeu.

Também não é mera coincidência que o scudetto de 2008/09 tenha sido conquistado por uma Internazionale que não chegou a empolgar em momento algum, e ainda assim bateu com folga os principais concorrentes.

Neste cenário, não é de se surpreender que o Milan tenha vendido Kaká ao Real Madrid, e que agora pareça implorar para que o Chelsea faça uma bela proposta por Pirlo. Nem que Ibrahimovic e Maicon peçam para deixar a Internazionale. A Itália já não é mais lugar para que craques desfilem seu talento, porque deixou de oferecer desafios importantes dentro de campo e ainda por cima tem dificuldades para pagar os mesmos salários que oferecem nas duas principais ligas do continente.

Diante deste panorama, pelo menos a Azzurra deveria servir como alento para o torcedor italiano. Deveria. Na Copa das Confederações, o vexame foi tamanho que levou até o presidente da Fifa, Joseph Blatter, a levantar dúvidas sobre a classificação dos atuais campeões para o Mundial de 2010. A única vitória, contra os Estados Unidos, foi conquistada com sufoco e ainda assim com um homem a mais durante a maior parte do jogo.

Dizer que a derrota para o Egito – último colocado em seu grupo nas Eliminatórias africanas – não tem atenuantes é apenas o óbvio. Assim como é evidente que uma seleção de ponta não pode se permitir levar três gols em um espaço de oito minutos contra qualquer adversário, nem mesmo o fortíssimo Brasil.

A questão da permanência de vários dos campeões mundiais de 2006 já foi abordada na última coluna, ainda antes das duas derrotas, que vieram para corroborar a tese. Procurando olhar com otimismo, é bom que tenham acontecido agora. Muitas vezes, a vitória mascara erros que a derrota, sobretudo a acachapante, expõe de forma inequestionável. É melhor, então, que ela tenha chegado em uma competição, ainda que pouco relevante, oficial. As mesmas atuações em amistosos teriam sido ignoradas ou minimizadas.

O erro inicial da convocação, com pouco espaço para caras novas, não podia ser corrigido durante a competição na África do Sul. Mas era possível evitar os erros que contribuíram em grande parte para o atropelamento canarinho em Pretória. Como, por exemplo, promover a volta de jogadores como Toni e Camoranesi, que já mostrado antes que não são mais capazes de contribuir de forma significativa. Ou ainda presentear o Brasil com o controle do meio-campo, não apenas pela superioridade numérica no setor, mas também pela ausência de bons marcadores, sobrecarregando De Rossi na função. E por que o garoto Santon foi convocado apenas para assistir ao torneio, enquanto Zambrotta só fazia exibir sua decadência?

O maior constrangimento, porém, foi ver a participação de Cannavaro no dia em que igualava o recorde de partidas de Maldini pela Azzurra. Desatento na saída de bola, lento e facilmente driblado pelos atacantes, parecia uma sombra do gigante que foi campeão mundial e melhor jogador do mundo em 2006. Talvez, em nome de seu brilhante passado, Cannavaro devesse ter seguido os passos de Maldini, que percebeu em 2002 que seria incapaz de se dividir entre Milan e seleção mantendo seu melhor nível. Aposentando-se da Azzurra, ele faria um favor à seleção e à Juventus, seu novo velho clube.

Considerando que a classificação para a Copa seja alcançada (um ponto de vantagem sobre a Irlanda, com um jogo a menos que o adversário direto, é uma situação bem confortável), Lippi tem um ano para rever suas posições. Do elenco atual, devem ser mantidos apenas os jogadores indispensáveis. De resto, é hora de dar espaço a jogadores jovens, como a base da boa seleção sub-21 que disputa o Europeu na Suécia, e a outros nem tão garotos, mas pouco experimentados na seleção. E, sobretudo, é hora de engolir o orgulho e as restrições e correr o risco com Cassano, jogador cujo talento não encontra equivalente no time atual.

O mais preocupante da derrota para o Brasil, além da facilidade com a qual se desenhou, foi a submissão da Azzurra em quesitos na qual sempre se destacou sobre a maioria dos rivais: a solidez defensiva, a condição física e a garra dos jogadores em torno dos objetivos. Um Brasil superior à Itália em técnica e habilidade é o padrão. Um Brasil que marque melhor e corra mais que a Itália, não.

Nos minutos finais, com uma inesperada vitória por 3 a 0 dos Estados Unidos sobre o Egito na outra partida, havia até a possibilidade de a Azzurra se classificar para as semifinais. Mas os jogadores preferiram fingir que não sabiam. Como admitiu Buffon após a partida, foi melhor evitar um confronto com a Espanha, que fatalmente terminaria com a terceira humilhação consecutiva.

O mais importante agora é que há material humano para formar uma equipe capaz de, na pior das hipóteses, fazer uma campanha digna em 2010. Basta aceitar que a reformulação do elenco não é uma opção, e sim uma necessidade.

Pré-temporada

A Roma, que já estará em campo no final de julho para disputar a terceira fase preliminar da Liga Europa, será a primeira equipe a iniciar sua pré-temporada.

Como de costume, vários clubes optaram por concentrações no extremo norte do país, para evitar o forte calor do centro-sul do país no verão. Sete times, incluindo a Juventus, estarão nas províncias de Trento e Bolzano, que formam a região do Trentino-Alto Ádige, fronteiriça com a Áustria – onde estarão outras três equipes.

A campeã Inter fará sua preparação em Los Angeles, enquanto o Milan optou por permanecer em seu centro de treinamentos de Milanello antes de se encontrar com os rivais nos Estados Unidos. O primeiro dérbi da temporada será no dia 26 de julho, em Boston.

Confira os períodos e locais de concentração dos times da Serie A na pré-temporada:

Roma: 2 a 16 de julho, Riscone di Brunico (Bolzano)
Udinese: 6 a 26 de julho, Montepulciano (Siena)
Milan: 7 a 16 de julho, Milanello
Juventus: 9 a 21 de julho, Pinzolo (Trento)
Palermo: 9 a 20 de julho, Saint Velt (Áustria)
Lazio: 10 a 28 de julho, Auronzo di Cadore (Belluno)
Chievo: 10 a 31 de julho, San Zeno di Montagna (Verona)
Napoli: 10 a 30 de julho, Lindabrunn (Áustria)
Sampdoria: 11 a 31 de julho, Moena (Trento)
Siena: 11 de julho a 2 de agosto, Dimaro (Trento)
Catania: 11 de julho a 4 de agosto, Assis (Perugia)
Bari: 11 de julho a 10 de agosto, Val Ridanna (Bolzano)
Internazionale: 12 a 26 de julho, Los Angeles (Estados Unidos)
Atalanta: 12 de julho a 2 de agosto, Brentonico (Trento)
Cagliari: 13 de julho a 15 de agosto, Assemini (Cagliari)
Genoa: 13 a 25 de julho, Neustift (Áustria)
Parma: 13 a 31 de julho, Malles (Bolzano)
Fiorentina: 16 a 26 de julho, Cortina d'Ampezzo (Belluno)
Livorno: a definir

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