Itália

Classificados. E agora?

Se não fosse o gol de Alberto Gilardino aos 45 minutos do segundo tempo, arrancando o empate com a Irlanda quando os donos da casa já comemoravam a vitória, a Itália chegaria à última rodada dependendo de uma vitória em Parma sobre o Chipre para se classificar para a Copa do Mundo. Provavelmente a vitória viria, mas não apagaria o fato de a Azzurra ter esperado até o último dia para se classificar em um grupo absolutamente tranquilo.

Com os 2 a 2 em Dublin, a Itália se livrou deste constrangimento, classificando-se com uma rodada de antecedência – como nas Eliminatórias para 1982 e 2006, seus dois últimos títulos mundiais. Coincidência à parte, no entanto, há poucas razões para acreditar que os comandados de Marcello Lippi farão festa em Joanesburgo como fizeram em Berlim. Em nove partidas disputadas até o momento no classificatório europeu, foram apenas 45 minutos de bom futebol, na vitória sobre a Bulgária, mês passado, em Turim.

A Itália sempre se caracterizou por uma disciplina tática que não é inferior a nenhuma outra no futebol de seleções, por uma defesa fortíssima e por eficiência no aproveitamento das chances criadas. Essa descrição não condiz, no entanto, com uma equipe que leva dois gols por desatenções em lances de bola parada, como aconteceu diante dos irlandeses.

O primeiro, de Whelan, impressionou pela ingenuidade: todos os jogadores encolhidos dentro da área, deixando o irlandês sozinho para concluir de fora na jogada ensaiada. No outro gol dos donos da casa, um cochilo de Gilardino permitiu que St. Ledger cabeceasse livre na segunda trave. Felizmente para o atacante da Fiorentina, houve tempo para se redimir no ataque.

Na criação das jogadas, outra vez a Azzurra ficou devendo. Como de costume, se Pirlo não está em uma noite inspirada, todo o setor sofre. E a decisão de escalar Di Natale aberto pela esquerda em uma formação 4-2-3-1 prejudicou o artilheiro da Serie A, que acabou atuando distante da área. Di Natale e Iaquinta não são jogadores complementares como Iaquinta e Gilardino, por exemplo. Nos 15 minutos em que a segunda dupla atuou junta, as jogadas saíram com maior facilidade – e de um passe do juventino saiu o gol do empate definitivo. Tudo isso não esconde o fato de a Itália ser apenas o 17º melhor ataque das Eliminatórias europeias.

Passadas as Eliminatórias, a Itália precisará dar uma mensagem forte sobre suas intenções. É preciso que a equipe saiba se comportar como atual campeã, sem necessidade de sentir que tudo está contra si (como em 2006, em pleno escândalo do futebol italiano) para render o máximo.

No último pré-Mundial, vitórias enfáticas sobre Holanda e Alemanha em amistosos mostraram que a Azzurra estava pronta para brigar nas cabeças. Em novembro, a equipe fará amistoso com os holandeses, como quatro anos atrás. Mais importante que a superstição, no entanto, é mostrar força contra uma seleção de alto nível.

Quem está garantido?

Lippi não esconde seu apreço por expressões como “espírito de grupo”, e afirma ter a equipe mais pronta agora do que no mesmo momento há quatro anos. Isso permite concluir que o técnico já tem na cabeça pelo menos metade do grupo de 23 jogadores que irão ao Mundial sul-africano.

Esse “núcleo duro” inclui dez remanescentes de 2006: Buffon, Cannavaro, Zambrotta, Grosso, Camoranesi, De Rossi, Pirlo, Gattuso, Iaquinta e Gilardino. Chiellini, indiscutível desde a era Donadoni, também está certo no elenco, a exemplo de Legrottaglie, esse uma escolha questionável para o público, mas firme na cabeça do treinador. Uma adição recente, mas que já se mostrou indispensável aos planos de Lippi, é outro juventino: Marchisio.

No gol, parece haver três nomes em disputa por duas vagas: Marchetti, De Sanctis e Amelia. Os dois primeiros têm mais chances, mas uma boa temporada do genoano colocaria uma pulga atrás da orelha de Lippi.

A defesa tem espaço para mais um zagueiro e dois laterais. A disputa na zaga parece ficar entre Gamberini e Bocchetti. Este último, recém-chegado, jogou alguns minutos em Dublin e se tornou o 43º jogador diferente utilizado por Lippi desde seu retorno à Azzurra, em 2008.

As opções nas laterais são escassas, e tudo aponta para Santon e Criscito no grupo. No entanto, o jovem interista tem sido pouco utilizado por José Mourinho nesta temporada, o que pode complicar suas chances. Pode sobrar aí uma vaga para o lateral-direito romanista Marco Motta.

Para o meio-campo, é provável que Palombo fique com uma das vagas. Nas vezes em que foi acionado, não sentiu a responsabilidade e manteve o nível de suas atuações na Sampdoria, até o momento protagonista no campeonato. Se houver mais uma vaga, há vários nomes na disputa. Aquilani, caso se firme no Liverpool, e Montolivo, se for mais constante na Fiorentina, têm possibilidades no mínimo razoáveis.

Para o ataque, a disputa está bastante aberta. A vaga de Amauri está reservada para quando ele tiver o passaporte italiano, mas isso se manterá caso o jogador da Juventus siga em jejum de gols? Provavelmente sim, mas é melhor esperar para conferir. Até porque há Giuseppe Rossi, Quagliarella, Di Natale, Pazzini e Pepe na corrida. Toni, encostado no Bayern, verá a Copa pela televisão.

A pressão popular pela convocação de Cassano deve se manter até as vésperas do Mundial, mas não há nenhuma indicação de que Lippi cederá. O treinador fechou questão em não aceitar o sampdoriano, e tem alianças importantes dentro de seu grupo para apoiar a decisão. Não foi por acaso que De Rossi minimizou, recentemente, os pedidos por Cassano, afirmando que o elenco já contava com atacantes mais goleadores – ignorando a criatividade e o talento do jogador de Bari Vecchia.

Mais realista que esperar a convocação de Cassano é acreditar em um retorno de Totti à Azzurra. O capitão da Roma foi o artífice da recuperação giallorossa sob o comando de Claudio Ranieri, e tem incentivos de todas as partes para voltar à seleção. Ranieri deu parecer favorável, o presidente da federação Giancarlo Abete fez o mesmo, e até sua esposa, Ilary Blasi, deu declarações à imprensa apoiando o retorno.

Totti não quer se comprometer agora por dois motivos. Primeiro, para não colocar uma pressão desnecessária sobre Lippi. Segundo, porque quer esperar para ver como estará fisicamente na reta final da temporada, já que foi justamente a forma física o argumento para se afastar da seleção.

Seja cedendo às pressões por Cassano ou promovendo o retorno de Totti, Lippi precisa urgentemente adicionar criatividade ao seu grupo. Só assim a Itália terá condições de pintar como candidata ao título no ano que vem.

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Equipe Trivela

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