Itália

As oito irmãs

O futebol italiano no final dos anos 90 vivia um cenário especial. Sete times começavam a temporada com pretensões realistas de título: Milan, Internazionale, Juventus, Roma, Lazio, Parma e Fiorentina. A expressão “Sette sorelle” (Sete irmãs), cunhada na década de 40 para designar as sete companhias petrolíferas mais ricas do mundo, passou a ser usada para se referir ao grupo das equipes candidatas ao ‘scudetto’. Investimentos altíssimos – que posteriormente causariam problemas a alguns destes clubes – ajudaram a alimentar uma grande fase da Série A.

Antes da temporada 1999/2000, Christian Vieri tornou-se o jogador mais caro da história até então, negociado pela Lazio com a Inter por € 46 milhões. A Lazio perdeu Vieri, mas, com Salas no ataque e um meio-campo com Simeone, Verón e Nedved, conquistou de forma dramática um título que a Juventus parecia ter nas mãos. O Milan, terceiro colocado, curtia o sucesso de Shevchenko, artilheiro em sua primeira temporada na Itália. A Fiorentina contava com Batistuta, o Parma com Crespo. Como esperado, as sete irmãs ocuparam as sete primeiras posições no fim do campeonato, repartindo as vagas européias.

Depois de alguns anos de poucas surpresas, muitos escândalos e credibilidade do campeonato abalada, a Itália hoje se dá o direito de curtir um campeonato que se mostrou forte e empolgante nas onze primeiras rodadas. A diferença entre a líder Inter e a oitava colocada Fiorentina é de apenas quatro pontos (24 a 20). No campeonato passado, nesta mesma rodada, a Inter tinha 25 pontos, e o Palermo, oitavo, 15.

As ‘irmãs’, que eram sete, agora são oito. O Parma atualmente sofre na Série B e a Roma flerta com a zona de rebaixamento, mas em compensação há uma Udinese temível, com três atacantes de seleção italiana, junto com Napoli e Genoa, que em casa ainda não perderam pontos.

O equlíbrio do campeonato fica evidente pela alternância no topo da tabela. Na segunda rodada, Lazio e Atalanta lideraram. Na terceira, foram substituídas por Juventus e Inter. Depois, ficou só a Inter, mas na quinta rodada a Lazio tomou a ponta de forma isolada. Na sexta, Udinese e Inter já lhe faziam companhia. A Inter ficou novamente sozinha na sétima rodada, mas na oitava foi alcançada por Napoli e Udinese – que deixaram os 'nerazzurri' para trás e dividiram a liderança na nona. Na décima rodada, o Milan tomou a ponta pela primeira vez em mais de quatro anos, mas ficou lá apenas por uma semana, até ser superado pela Inter.

Cravar um palpite para o título neste momento é tarefa das mais complicadas. Esta coluna, no início da temporada, acreditava em uma disputa limitada a Milan-Inter-Juventus, mas tem sido desmentida pelos fatos. Não apenas porque os outros cinco times no grupo dos oito primeiros têm dado provas de força, mas também porque o restante da Série A deu um salto qualitativo em relação à temporada passada.

Por mais que pareça um clichê, não existem jogos fáceis. Não é como na Espanha, onde o Barcelona já aplicou 6 a 1, 5 a 0 e 6 a 0 no atual campeonato. Times do meio da tabela, como Catania, Palermo e Atalanta, costumam ser adversários duros. Até mesmo uma visita à lanterna Reggina é traiçoeira – que o diga a Inter, que precisou de um gol de Córdoba nos acréscimos para bater os calabreses na rodada retrasada.

No último fim de semana, os ‘nerazzurri’ repetiram a dose. Julio Cruz, como de costume, salvou a pátria quando o empate sem gols com a Udinese, em casa, já parecia certo. O Milan provou do mesmo veneno ao deixar escapar a vitória sobre o Lecce que poderia lhe devolver a liderança horas depois. Na véspera, a Roma já havia sido traída por um gol contra de Cicinho, impedindo a vitória da redenção no campo do Bologna.

Quatro gols nos acréscimos nas últimas duas rodadas, todos eles decisivos nas partidas. Se os jogos acabassem rigorosamente aos 45 minutos do segundo tempo, o Milan seria o líder com 25 pontos, e a Inter apenas a quinta colocada, com 20. Sinal de que haverá muitas reviravoltas a lembrar, com lamento ou alívio, quando chegarem os vereditos de um campeonato tão parelho.

Del Piero, mágica nos pés

No meio da semana, aplausos de reverência da torcida do Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu. No domingo, dia de seu aniversário de 34 anos, mais um belo gol de falta e a vitória da Juventus sobre o Chievo. Nova ovação. Teria Alessandro Del Piero alcançado, no que deveria ser o ocaso, o auge de sua carreira? Isso é discutível, mas uma coisa é certa: seus pés nunca estiveram tão calibrados.

A posição de protagonista faz jus a um personagem importante do futebol italiano. Porque ‘Ale’ não foi com a Juventus à Série B para fazer média com os torcedores ou para se acomodar. Ele aceitou o ano de purgatório porque esperava que aquilo lhe desse a quantidade necessária de raiva e motivação para uma volta por cima triunfal. Dois anos depois, a Juve já está classificada para as oitavas-de-final da Liga dos Campeões, e após um período complicado se recuperou na Série A, voltando à briga pelas primeiras posições. A crise que ameaçou o comando de Ranieri já é passado.

O gol marcado em Verona foi o 250º da carreira de Del Piero em clubes (um pelo Padova e 249 pela Juve) e o 36º de falta. Acima dos números, no entanto, está seu entusiasmo quase de iniciante, que lhe permite curtir os momentos especiais como o de Madri (“Vive-se por emoções como essa”, comentou no dia). Em uma feliz comparação, o presidente juventino Giovanni Cobolli Gigli comparou as faltas de Del Piero às de Zico – cobranças precedidas por um instante de silêncio geral, representando o temor da torcida adversária, e o destino da bola já se sabia.

Série A, de Argentina

“Diego Milito não é um ídolo pra a torcida do Genoa. É um mito”. Em recente entrevista à Trivela, o goleiro Rubinho descreveu desta forma a paixão da torcida pelo atacante argentino, que com os três gols diante da Reggina assumiu a artilharia isolada da Série A, com nove.

Milito, que não somente faz os gols, mas também os cria, é apenas um dos jogadores argentinos que têm brilhado nesta temporada italiana. O Napoli tem um Lavezzi cada vez melhor, além do goleador Denis, enquanto a Lazio pode se orgulhar de ter apostado em Zárate.

Já na Inter de Mourinho e Ibrahimovic, quem resolveu nos últimos jogos – no campeonato e na Liga dos Campeões – foi ‘El Jardinero’ Cruz, que chegou a ser barrado por desobediência tática, mas não demorou a dar a volta por cima e mostrar o quanto é fundamental.

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Equipe Trivela

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