Itália

A Itália que perde

Coros em homenagem ao ‘Duce’ Mussolini. Braços em riste, a saudação romana. Bandeiras com cruzes célticas, de significado equivalente para os fascistas ao que a suástica tem para os nazistas. O cenário é Sófia, onde a seleção italiana enfrenta a Bulgária pelas eliminatórias da Copa do Mundo. O ano, acredite se quiser, é 2008.

Mais uma vez, os ‘ultras’ usaram o futebol para manifestar suas crenças políticas. E aí não se trata apenas de ser de direita ou esquerda, posições antagônicas e igualmente respeitáveis, e sim da defesa de um regime ditatorial que abriu feridas que a Itália faz questão de esquecer – tanto que, no território nacional, apologia ao fascismo é crime. Não cabe a esta coluna analisar as causas que levam estes jovens (e alguns nem tão jovens) a defender ideais do gênero, mas é difícil acreditar em algo além de uma atroz ignorância histórica.

O fato é que, por causa dos incidentes de Sófia, a federação italiana deve decidir por não pedir mais ingressos para os jogos da Azzurra fora de casa. Cortar o mal pela raiz, tirar o privilégio de muitos pela incapacidade de poucos em aproveitá-lo. Melhor pecar por excesso do que por omissão – não se pode permitir tamanho dano à imagem da Itália diante do mundo.

A partida contra a Bulgária se desenhava como cenário ideal para as manifestações dos ‘Ultras Italia’, como se fazem chamar os imbecis travestidos de torcedores. Primeiro, pela facilidade de deslocamento para a maioria deles, situados no nordeste da Itália. Segundo, porque em Sófia há os torcedores do Levski, também de extrema-direita, que ‘reforçaram’ o contingente dos italianos em uma confusão com torcedores do CSKA, de esquerda, em um bar da capital búlgara antes do jogo.

O tumulto só não se transformou em briga generalizada por causa da intervenção policial, mas o clima tenso já se fazia sentir. Os ‘ultras’ seguiram entoando coros fascistas até a entrada no estádio. Mesmo em minoria, tentaram partir para o confronto dentro do estádio, forçando uma grade de proteção. Novamente, a polícia teve de agir com o uso da força.

A tensão voltou a se manifestar quando o público local vaiou a execução do hino italiano antes do jogo, em uma clara reação à atitude dos ‘ultras’ de fazer o gesto do braço em riste. Na hora do hino búlgaro, italianos queimaram uma bandeira dos donos da casa. Três foram detidos e posteriormente liberados.

As autoridades italianas, como não poderia deixar de ser, reagiram com críticas veementes e prometeram punições imediatas. Mas nem tudo é tão simples. É possível saber os nomes dos 144 torcedores que adquiriram os ingressos enviados à Federcalcio, e a partir daí investigar quem tem de ser banido dos estádio. Sabe-se que, se estes torcedores foram autorizados a comprar ingressos, não tinham histórico de problemas com violência. Três torcedores com ‘ficha’ tiveram pedidos indeferidos.

No entanto, não há como saber ao certo os responsáveis pelos tumultos em Sófia fazem parte destes 144. Os bilhetes são nominais, mas no estádio não havia catracas nem a obrigatoriedade de identificação na entrada, ou seja, é possível que eles tenham conseguido seus ingressos de outra maneira. A federação não vendeu ingressos para o jogo no Chipre, mas havia italianos no estádio.

Os jogadores, depois do empate sem gols com a Bulgária, também deixaram claro que condenam os atos dos ‘ultras’. “De torcedores deste tipo, o futebol pode tranqüilamente abrir mão”, disse o goleiro Marco Amelia, que até a temporada passada atuava no Livorno, clube de orientação esquerdista. O capitão Fabio Cannavaro endossou: “Se não vender ingressos para italianos é a única forma de evitar cenas como aquelas, então que se faça”. E que o futebol deixe de ser instrumento de propaganda para ignorantes.

Em campo…

A Azzurra evoluiu na defesa e regrediu no ataque. Para colocar da forma mais simples, esta é a conclusão que se tira do jogo contra os búlgaros, no papel o mais complicado que a equipe teria na campanha. Em uma análise fria, a Itália já está melhor que quatro anos atrás, quando perdeu para a Eslovênia.

Com sete pontos em três jogos, o time de Marcello Lippi já domina o grupo, como previsto. Não há como negar: a classificação para a Copa do Mundo de 2010 foi conquistada no momento do sorteio. Até mesmo por isso, é possível colocar uma ênfase maior na montagem de um time e na renovação do grupo campeão de 2006.

Renovar não significa abrir mão de jogadores indispensáveis. Buffon, Pirlo e Camoranesi, ausentes por lesão no último sábado, ainda são figuras fundamentais para os planos de Lippi. Mas é preciso dar espaço a jovens que têm muito a acrescentar, como Giuseppe Rossi. O atacante do Villarreal entrou no segundo tempo e fez a melhor jogada individual da noite, criando uma chance que Gilardino não soube aproveitar.

Oportunidade de gol foi uma raridade na partida. Do lado búlgaro, porque a Itália esteve perfeita na defesa. Chiellini não deu espaço ao temido Berbatov, e Cannavaro mostrou por que sua ausência na Eurocopa foi tão lamentada. A zaga foi tão bem que, por muito pouco, seria impossível notar que Amelia estava jogando no lugar de Buffon. O goleiro do Palermo só apareceu nos minutos finais, quando foi exigido em um chute de fora da área e correspondeu.

Os problemas começaram no meio-campo. De Rossi, exerceu muito bem a função de Pirlo como ‘mediano’, à frente da defesa, mas Montolivo, que deveria construir o jogo pela esquerda, sumiu da partida. Tímido em campo, não chamou a responsabilidade e foi apagando ao longo do jogo. A noite ruim do meia da Fiorentina poderia ter sido compensada pelo lado direito, mas ali estava Gattuso, que para sair jogando é ‘apenas’ Gattuso, com seu limitado repertório de passes.

No ataque, Di Natale não parecia nem de longe o jogador que carregou a Itália nas costas contra o Chipre. Ao lado de Montolivo, foi a decepção da partida. O estreante Simone Pepe se esforçou, mas foi discreto – Rossi se destacou bem mais quando entrou. Gilardino, nas poucas bolas que recebeu, fez o possível, mas não evitou a sensação de que a Itália ainda carece de um matador na área. Hoje, este homem não é Luca Toni, que entrou mal e ainda levou um cartão amarelo que o tira do jogo de quarta-feira contra Montenegro. A novela Amauri se arrasta, e provavelmente a cidadania italiana do atacante juventino ficará para 2009. É o melhor nome.

Será surpresa se Rossi não tomar o lugar de Di Natale para a partida em Lecce. No meio-campo, Perrotta deve ganhar a vaga de Montolivo. De Rossi e Gattuso foram poupados dos treinos no início da semana – o primeiro deve jogar, o segundo talvez não. Aquilani é o favorito para começar jogando, o que dá mais opção à manobra ofensiva. Acertar a defesa, que era o principal desafio pós-Donadoni, Lippi parece já ter conseguido. Se o ataque funcionar, não será apenas Montenegro que terá problemas.

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Equipe Trivela

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