Wenger não gasta porque não sabe gastar
Apesar do efeito acabar por ser similar, há muitas diferenças entre as goleadas sofridas pelos rivais do norte londrino neste domingo. Além dos placares – e de que os Spurs jogavam em casa –, se o Arsenal era basicamente um time de moleques, não era o caso dos rivais. Se o Arsenal acabou de vender dois de seus melhores jogadores, os Spurs, pelo menos ainda, não o fizeram. Se em Emirates há dinheiro para melhorar, não parece ser o caso em White Hart Lane. A principal diferença, porém, é que o Arsenal tem um técnico, um baita técnico, um dos melhores de sua geração, enquanto os Spurs têm um velho falastrão que teve sorte em alguns momentos de sua vida no futebol.
O Tottenham perdeu porque jogou, contra um dos times que disputará o título e que tem no banco um dos melhores atacantes do mundo – ou seja, o que dizer de quem está em campo –, com cinco meias ofensivos e um atacante. E nenhum volante. Erro de montagem do elenco, claro, mas também de escalação. Corluka, que jogou na defesa, poderia ter jogado no meio, assim como Kaboul. Mas Redknapp está acostumado a apostar, e a só lembrar das poucas vezes em que acerta.
Do outro lado, porém, um pouco mais ao sul, a derrota deve causar mais preocupação. Porque os Gunners, embora também desfalcados, não devem contar com muito mais do que o que tiveram em campo em Old Trafford. Vermaelen é um baita zagueiro, e não jogou, mas quanto jogará neste ano? Wilshere tem tudo para asumir o papel de Fábregas, mas, quando jogar, terá Van Persie, que neste domingo jogou? Ou seja: o Arsenal precisa gastar. A questãp, entretanto, é um pouco mais complexa do que dizer: Wneger precisa abrir a mão. Primeiro porque é necessário saber se há dinheiro. E, em seguida, se é Wenger que deve gastá-lo.
Dinheiro, pelo menos em tese, há: desde o final da construção do Emirates, “sobraram” quase 30 milhões de libras em dinheiro de transferências. Como a direção dos Gunners diz que a dívida do estádio está bem equacionada e que o técnico tem dinheiro para gastar, somos obrigados a partir do princípio de que o problema não é falta de fundos. Por que, então, Wenger não gasta? E: é ele que deveria gastar? E, se a resposta à primeira pergunta é apenas um chute, impacta muito a da segunda: Wenger não gasta porque não sabe gastar. Porque quando gastou, gastou mal.
Se não vejamos: Wenger é o ara que pagou 30 milhões de libras em Jose Antonio Reyes. Tá pouco pra você? Pagou 15 milhões em Silvain Wiltord. Mais 13 milhas em Hleb. Arshavin: 14 milhões. Koscielny: 11 milhões. Francis Jeffers o leitor certamente não saberá quem é. Pois bem: há mais de dez anos, Wenger pagou 13,5 milhões de libras por ele. Tirando Nasri, que rendeu dinheiro mas nunca jogou tudo aquilo pelos Gunners, o único jogador nessa faixa de preço que rendeu algo pelo clube foi Henry, que custou 14 milhões.
O outro lado: Van Persie custou 3,9 mi. Cesc, 2,8. Kanu, 5,5. Anelka custou aos Gunners 670 mil libras! Pires, 6 mi. E Vieira 4,7. Junuando todos não dá a soma de Koscielny e Arshavin. Aí eu pergunto: se você quando gasta, gasta mal, quando tem dinheiro no bolso faz o que, vai atrás das barganhas, que já deram certo no passado, ou insiste em gastar mal? Não creio que haja dúvidas quanto a isso.
O problema aí, entretanto, é que barganhas funcionam de vez em quando, é necessária uma combinação de talento com sorte, e nem sempre vai dar totalmente certo. O Arsenal, porém, não pode viver de sorte a cada 20 anos. Ou seja: precisa, além das barganhas, de alguns jogadores consagrados de vez em quando. E nestes é preciso gastar. Se o treinador não sabe fazê-lo, a direção precisa de alguém que saiba. Um diretor de futebol que possa conversar com Wenger, entender como ele pretende fazer o time jogar, quem ele acha que ocupará cada papel, e que peças podem fazer a diferença. Não só o que falta. Falta zagueiro, isso é evidente. Mas o “comprador” também estará de olho em peças que podem entrar onde hoje há alguém, mas melhorando o que há.
O Arsenal precisa de jogadores experientes; precisa de zagueiros; precisa de um atacante que jogue. Hoje, porém, precisa de muito mais do que isso. Precisa provar que está no jogo de novo. Que é candidato. E isso só se faz com aquisições de peso. O técnico do time, que é excelente para encontrar barganhas, não sabe fazer isso. Que a direção do time, portanto, encontre alguém que saiba. Não é só importante, é fundamental para que o time mantenha seu status de “grande” na Premier League.



