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Vidic se aposenta de forma melancólica, mas como um dos melhores zagueiros de sua época

Aos 34 anos, o corpo já não respondia da mesma maneira como antes. O que era trivial se tornou um suplício. Superar as próprias limitações passou a ser uma luta em vão. A cabeça ainda dizia que havia tempo, que dava para contribuir de alguma maneira. Mas o cansaço sobre as costas começou a pesar. E a melhor decisão seria mesmo parar. Nesta sexta, Nemanja Vidic anunciou a sua aposentadoria. Há quatro anos não conseguia ser o mesmo zagueiro soberano e confiável. Pendura as chuteiras com a certeza de que esteve entre os melhores, enquanto as lesões não minaram o seu caminho.

Talvez o costume dos últimos anos, com o zagueiro bem mais frágil e vulnerável, ainda polua as impressões. No entanto, é bom lembrar como Vidic esteve no topo do mundo em seu auge – que durou, ao menos durante mais da metade da década passada. E que, automaticamente, o coloca como uma das referências da posição ao longo dos anos 2000. Obviamente, há outros tantos zagueiros qualificados no período. Mas, por tudo o que fez com os Red Devils, o veterano merece ser colocado também como um dos melhores.

Vidic estourou cedo. Surgiu como grande promessa na base do Estrela Vermelha e logo aos 20 anos estreou na seleção principal. Atraiu o interesse do Spartak Moscou, onde ficou pouco, mas o suficiente para marcar o clube. Na mesma época, também se tornou titular absoluto da equipe nacional. Ajudou a liderar uma defesa que sofreu apenas um gol em toda a campanha nas Eliminatórias da Copa de 2006. Naquele momento, o futebol russo era pequeno ao ápice do zagueiro. O Manchester United o levou por £ 7,35 milhões, valor bastante baixo por aquilo que representaria de imediato.

Em Old Trafford, Vidic ajudou a formar um dos times mais célebres que o United teve em mãos. Tomou a posição no time apenas na segunda temporada, já que os primeiros meses foram atrapalhados pela séria lesão que o tirou da Copa do Mundo – sonho que só cumpriria no Mundial de 2010. A partir da recuperação, se tornou uma rocha no sistema defensivo e, em oito temporadas, conquistou cinco títulos da Premier League, incluindo o tricampeonato entre 2007 e 2009. Além disso, viveu o momento mais importante da carreira ao erguer a Champions em 2008. Quase sempre como protagonista.

Durante esses anos, o Manchester United apresentou excelentes números defensivos e quebrou o recorde de minutos sem sofrer gols da história do futebol europeu. Méritos também de outros talentos que formavam o sistema. Edwin van der Sar fechava o gol, enquanto Patrice Evra era uma certeza na lateral esquerda. Na cabeça de área, havia ainda Michael Carrick e Paul Scholes. Enquanto isso, Rio Ferdinand formava uma dupla impecável ao lado do sérvio. Se o veterano servia de referência, o seu companheiro garantia a explosão física. Duro para enfrentar atacantes, mas também dono de boa qualidade técnica, especialmente pelo senso de tempo. Acima de tudo, destemido.

Até que, a partir do fim de 2011, quando se tornara capitão dos Red Devils, as contusões começaram a levar Vidic ao declínio. Teve importância no título de 2012/13, mas sem a mesma vitalidade. No ano seguinte, bem abaixo de seu melhor, se despediu de Old Trafford. E a ida para a Internazionale, que poderia se indicar como recomeço, acabou pontuando o final. Em sua primeira temporada, jogou, mas não foi bem. Nesta, sequer entrou em campo em partidas oficiais. Dispensado em 18 de janeiro, preferiu não prorrogar as suas frustrações.

Apesar da melancolia no final, Vidic se aposenta de cabeça erguida. Entre diversos prêmios individuais, ganhou dois de craque do Campeonato Inglês, além de duas eleições para a seleção do ano da Fifa. Em 2012, nos 20 anos da Premier League, também entrou no time ideal do período, graças à votação popular. Troféus que dizem muito sobre o defensor, mas não tudo. Sua grandeza acaba medida pela gratidão de milhares de torcedores do Manchester United que o viram em grande forma.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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