Como o Tottenham ressurgiu na temporada e finalmente dá resultado com as ideias de De Zerbi
Após início irregular, Spurs emplaca duas vitórias na Premier League e mostra que a ideia do treinador italiano pode, enfim, se transformar em desempenho
Durante boa parte do início da temporada, o Tottenham de Roberto De Zerbi parecia uma equipe presa entre aquilo que queria fazer e aquilo que conseguia executar. O time buscava controlar a posse de bola e atrair a pressão adversária, mas encontrava dificuldades para transformar esse domínio em oportunidades claras.
As duas últimas vitórias na Premier League oferecem sinais de que esse cenário começa a mudar. Depois de somar apenas dois pontos nas seis primeiras rodadas, o Tottenham empatou contra o Manchester United, venceu o Coventry por 3 a 1 e bateu o Chelsea por 2 a 0 em Stamford Bridge. Foram sete pontos em três partidas, mas a evolução mais importante está na maneira como a equipe tem conseguido jogar
O desafio era fazer a bola chegar ao ataque em condições melhores e encontrar jogadores capazes de decidir as jogadas. A recuperação de James Maddison, o protagonismo crescente de Mathys Tel e a maior influência dos meio-campistas ajudam a explicar por que os Spurs começam a encontrar respostas.
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A ideia de De Zerbi começa a produzir ataques mais perigosos
O Tottenham não abandonou os princípios que caracterizam o trabalho do italiano. A equipe continua buscando sair com passes curtos, atrair a pressão rival e encontrar espaços às costas dos jogadores que avançam para pressionar. A diferença é que, nas últimas partidas, o time parece mais capaz de aproveitar o espaço que essa construção procura criar.
A proposta de De Zerbi exige coordenação. Se o passe demora, os atacantes recebem de costas sem opções de apoio ou os meio-campistas não ocupam os espaços certos, a posse se transforma em circulação estéril, e qualquer erro na saída pode terminar em uma chance perigosa para o rival.
Esse ainda é um ponto de atenção, mas a atuação contra o Chelsea mostrou uma equipe mais confortável para controlar o ritmo e encontrar soluções. Os Spurs tiveram 68,5% de posse de bola em Stamford Bridge e conseguiram dominar o setor central com Mateus Fernandes, Sandro Tonali e Maddison. A superioridade não significou uma sucessão de chances, mas permitiu ao Tottenham passar mais tempo no campo adversário e obrigar o Chelsea a trabalhar sem a bola.
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Esse controle permite que De Zerbi mantenha a equipe próxima do gol adversário sem depender só de transições rápidas. O Tottenham pode avançar por meio da circulação, atrair um marcador para fora de posição e encontrar espaço para acelerar. Quando a equipe recupera a bola em zonas mais altas, também fica em condições de atacar uma defesa desorganizada.
O passo seguinte é transformar esse domínio em volume e qualidade de finalizações com maior regularidade. Contra o Coventry, por exemplo, o Tottenham teve 65,4% de posse e finalizou 16 vezes, mas produziu apenas 0,86 gol esperado (xG). O número dimensiona o problema: controlar a bola e chutar bastante não significa, necessariamente, criar oportunidades de grande qualidade.
Em Stamford Bridge, o Tottenham encontrou um adversário mais forte e conseguiu sustentar a pressão mesmo quando o jogo ficou truncado. O primeiro gol saiu em uma situação de bola parada. Depois, Cole Palmer foi expulso, o que tornou o cenário mais favorável aos visitantes. Seria um erro ignorar essas circunstâncias, mas também seria injusto reduzir a vitória a elas.
Maddison e Tel aumentam o nível do Tottenham
A volta de James Maddison é um dos acontecimentos mais relevantes dessa sequência. O meia passou praticamente toda a temporada anterior afastado por uma lesão no joelho e teve de reconstruir sua condição física. Sua primeira titularidade competitiva em 536 dias aconteceu contra o Coventry, e ele marcou um belo gol de fora da área logo no início da partida. Contra o Chelsea, voltou a começar jogando e ajudou a dar mais fluidez à circulação da equipe.
O impacto de Maddison vai além da qualidade técnica. Ele oferece uma combinação de visão de jogo, capacidade de receber entre as linhas e disposição para arriscar passes que poucos jogadores do elenco executam da mesma maneira. Maddison também pode ajudar a resolver um problema recorrente: a distância entre o meio-campo e o ataque.
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É necessário, contudo, ter cautela. A recuperação física de Maddison ainda está em andamento, e De Zerbi já demonstrou que não pretende correr riscos desnecessários com um jogador que passou tanto tempo afastado. Ao lado dele, Tonali tem a responsabilidade de dar consistência ao meio-campo, enquanto Mateus Fernandes oferece mobilidade e capacidade de participar da construção.
Se Maddison representa uma solução criativa, Mathys Tel oferece outra alternativa. O francês tem características úteis para um Tottenham que precisa encontrar mais maneiras de chegar ao gol. É capaz de atacar espaço, conduzir em velocidade e partir para o confronto individual contra os defensores. Enquanto a equipe procura construir com paciência, jogadores com esse perfil podem mudar o ritmo de uma jogada.
O gol em Stamford Bridge foi um exemplo disso. Tel recebeu pela esquerda, avançou diante da marcação e encontrou espaço para finalizar com precisão. A escolha de De Zerbi também diz algo sobre a disputa por espaço no elenco. Com opções como Omar Marmoush, Dominic Solanke e Mohammed Kudus, o treinador precisa combinar diferentes perfis ofensivos e encontrar a melhor maneira de ocupar os espaços.
Mais do que duas vitórias, um sinal de que o grupo começa a se entender
A sequência recente também precisa ser entendida no contexto de um elenco reformulado, com dez contratações na janela de verão. Integrar tantos jogadores a um modelo exigente não é uma tarefa imediata. Os atletas precisam aprender os movimentos dos companheiros, reconhecer os gatilhos de pressão e desenvolver confiança para executar passes arriscados em zonas nas quais um erro pode ser fatal.
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Por isso, a reunião promovida pelo elenco em 9 de outubro, mencionada por De Zerbi após a vitória sobre o Chelsea, ajuda a explicar o momento. O treinador descreveu a necessidade de uma conversa honesta entre os jogadores, um esforço para reconhecer os problemas e reconstruir a confiança do grupo. Desde então, o Tottenham mostrou sinais de maior coesão em Old Trafford, contra o Coventry e em Stamford Bridge.
A confiança não substitui o trabalho tático, mas permite que ele apareça. Uma equipe insegura hesita no passe vertical, evita assumir riscos e se desorganiza quando sofre um gol. Um time que começa a acreditar no próprio plano tende a tomar decisões com mais convicção, algo essencial para o futebol de De Zerbi.
Isso não significa que o Tottenham tenha resolvido todos os seus problemas, mas a vitória sobre o Chelsea representa algo importante justamente porque combinou diferentes aspectos: controle da posse, maior influência do meio-campo, capacidade de resistir a um jogo físico e uma solução individual para fechar o placar.